Outras realidades possíveis

Com obras menos críticas e mais propositivas do que as últimas edições, 32ª Bienal oferece ferramentas para a superação dos desafios do momento

Paula Alzugaray

Publicado em: 05/09/2016

Categoria: 32ª Bienal, Da Hora, Destaque

Instalação Dois Pesos, Duas Medidas (2016), de Lais Myrrha (Foto: Ana Abril)

Não se trata de fuga. Pelo contrário. A curadoria da 32ª Bienal de São Paulo argumenta que para lidar as grandes questões do nosso tempo – notadamente, entre elas, o aquecimento global, a instabilidade econômica e política, as migrações globais e o avanço da xenofobia – é preciso desvincular a incerteza do medo e encarar o desconhecido. Incerteza Viva, que abre em 7/9 no Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera, 81 artistas de 33 países propõem interrogações a tudo aquilo que consideramos conhecido.

(Foto: Márion Strecker)

Àgora: OcataperaTerreiro (2016), de Bené Fonteles (Foto: Márion Strecker)

O interesse em relação aos sistemas de conhecimento indígenas são a primeira demonstração de abertura ao campo das incertezas. Isto se manifesta logo na entrada da megaexposição, onde está instalada a Àgora: OcataperaTerreiro (2016), de Bené Fonteles, cercada por um monumental conjunto de esculturas de Frans Krajberg, feitas de cipós, troncos e raízes. É esta oca sincrética, construída com materiais usados em construções indígenas e caboclas, que dará as boas-vindas ao público, oferecendo uma programação contínua de encontros, concertos musicais e rituais, com convidados como o líder indígena Airton Krenak, o músico Egberto Gismonti e o artista Ernesto Neto.

(Foto: Felipe Stoffa)

Detalhe da casa de bambu e barro onde Pia Lindman realiza seus tratamentos terapêuticos (Foto: Felipe Stoffa)

Outros três artistas da 32ª Bienal elaboram ecoconstruções. A finlandesa Pia Lindman assimila práticas centenárias de comunidades rurais em um ambiente imersivo onde irá realizar um tratamento terapêutico para os visitantes. A partir de estudos de construções de povos da Amazônia, a peruana Rita Ponde de León elaborou uma escultura penetrável que será “ativada” por um dançarino de butô. A instalação Dois Pesos, Duas Medidas (2016), da brasileira Lais Myrrha, ocupa o espaço icônico do Pavilhão da Bienal, junto à rampa central. É composta por duas torres, uma feita com materiais empregados em construções indígenas, e a outra com materiais da construção civil brasileira. No coração da bienal, os dois totens de Lais Myrrha colocam em condição de igualdade a lógica da cultura ocidental e a sabedoria ancestral.

A natureza e seus processos biológicos, botânicos, alquímicos, paisagísticos e alimentícios é outro forte viés da exposição. Há, por exemplo, algumas hortas cultivadas dentro do pavilhão e arredores. A portuguesa Carla Filipe montou na Praça das Bandeiras uma horta de PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), que serão colhidas pelo paulista Jorge Menna Barreto para utilização em sua escultura ambiental, Restauro (2016). O projeto, um restaurante cujo cardápio prioriza o reino vegetal, certamente será um dos grandes destaques de Incerteza Viva. Conta com colaboração da chef Neka Menna Barreto e parcerias de redes de produção de alimentos sustentáveis como agroflorestas, produtores orgânicos e sistemas dedicados à recuperação de solos e da biodiversidade. Aberto de setembro a dezembro no mezanino da bienal, o Restauro servirá na hora do almoço um PF vegetariano a R$ 12, potencializando a pegada popular desta bienal.

Com a curadoria multicultural de Jochen Volz (Alemanha/Brasil), Gabi Ngboco (África do Sul), Júlia Rebouças (Brasil), Lars Bang Larsen (Dinamarca/ Espanha) e Sofía Olascoaga (Mexico), a exposição coloca em foco sistemas alternativos de pensamento e transfere para o espaço sua preocupação ecológica, ao organizar a montagem das obras como “bosques” e “parques”, dentro de o raciocínio paisagístico do jardim.

Serviço
32ª Bienal de São Paulo – Incerteza Viva
Pavilhão da Bienal
Av. Pedro Álvares Cabral, s/n – Ibirapuera, São Paulo
De 7/9 a 11/12
Ter, qua, sex, dom e feriados: 9h – 19h (entrada até 18h) / qui, sáb: 9h – 22h (entrada até 21h)
Entrada gratuita
www.32bienal.org.br

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