Paloma Bosquê: O fazer escultórico

Equilíbrio, firmeza, peso, densidade e estabilidade são palavras fundamentais no repertório da escultura e inescapáveis para a nova produção da artista

Thais Rivitti

N° Edição: 31

Publicado em: 12/08/2016

Categoria: A Revista, Crítica

Esculturas no ateliê de Paloma Bosquê, criadas para sua exposição na Mendes Wood DM (Fotos: Gui Gomes)

Via de regra, os artistas da geração de Paloma Bosquê, nascida em 1982, não fazem esculturas. Ao menos não no sentido mais tradicional do termo, que pressupõe uma noção de forma autônoma, organizada a partir de uma série de relações internas que a obra é capaz de engendrar. Há tempos, a ideia de autonomia foi colocada em xeque no campo das artes, com a entrada em cena de uma exigência de que a obra se imponha no terreno comum da vida cotidiana. Assim, os artistas mais jovens preferem o termo genérico “objeto tridimensional” à escultura. Mas esse não é o caso de Paloma.

No ateliê da artista – em visita feita durante a preparação de sua nova exposição, com data de abertura marcada para 13/8 na Galeria Mendes Wood DM, em São Paulo – estavam cinco esculturas novas. Todas elas têm a mesma estrutura feita com tubos finos, quadrados, de latão, fixados no chão com a ajuda de um suporte de chumbo. Algumas têm um pé, outras dois e uma quatro. Apenas essa última não é decididamente vertical e alude à horizontalidade de uma rede ou cama. As outras quatro estão “de pé” e três delas medem, aproximadamente, a altura da artista. A construção se repete, mas cada uma acha um jeito de problematizar, ou deixar mais complexa, a sua presença algo singela – uma haste vertical – no espaço.

Detalhe do ateliê da artista em que se misturam projetos em andamento e matérias-primas

Detalhe do ateliê da artista em que se misturam projetos em andamento e matérias-primas

Grade modernista
Na primeira obra, a fina estrutura de latão é recoberta por uma trama delicada de fios, também dourados, que veste a escultura em toda a sua extensão. A trama cintila, criando um efeito de vibração que retira a solidez da linha reta central, além de conferir à peça um volume impreciso. Em outro trabalho, a haste principal dobra-se em ângulos retos e sustenta, em sua extremidade, um pequeno objeto preto, alongado, que permanece suspenso no ar. Embora a construção suscite leveza, a sensação de desequilíbrio aparece, como se toda a estrutura se curvasse ao peso daquela pequena massa escura.

Algo distinto ocorre em outra obra. Mais baixa e muito mais estável visualmente que as anteriores, esta tem a forma de uma trave, apoiando-se no chão com dois pés. No centro da barra horizontal, paralela ao solo, pende uma linha que sustenta, também, um objeto preto posicionado bem no centro da área quadrada delimitada pela peça. Aqui, tudo parece ocupar corretamente seu lugar.

Equilíbrio, firmeza, peso, densidade e estabilidade. Palavras fundamentais do repertório da escultura e inescapáveis para tratar dessa nova produção da artista. Há, nesse conjunto, a presença forte de ângulos retos, certa simplificação formal, uma composição colada à grade modernista – à Mondrian.

Essas novas esculturas não negam sua origem no plano bidimensional, como mostram alguns dos trabalhos dispostos nas paredes do ateliê. Muitos deles usam linha de costura ou lã para desenhar um campo de forças, com zonas mais cheias e mais vazias, que criam uma dinâmica para o olhar: para cima, para baixo, para o lado… Em alguns casos, vemos formas geométricas mais definidas. Em outros, a matéria parece acomodar-se de modo mais orgânico. Nesses desenhos já se nota uma vontade de autonomia em relação ao suporte: as linhas extravasam a moldura, ou prescindem dela ficando presas diretamente na parede.

Paloma Bosquê em seu ateliê

Paloma Bosquê em seu ateliê

Fragilidade da pele
Há um par de esculturas, talvez as mais complexas desse conjunto novo, que unem os tubos de latão com tecido. Em uma delas, as hastes de latão conformam uma trave longa, da qual pende, em direção ao chão, uma tira comprida de tecido feito de lã crua. O espectador fica diante de uma superfície que contém, em suas entranhas, uma pequena esfera preta. A tela aqui não é compreendida, como em uma pintura, como mero suporte, que deve ser invisível para que se possa ver um desenho. Suas calosidades, sua cor suja, seu caimento, suas bordas irregulares a colocam como matéria viva e pulsante – e somos inclinados a ver aquele ponto preto como uma semente, como algo que busca um meio para se fixar e crescer.

Na outra escultura com lã, a única horizontal do conjunto, uma faixa estreita e longa do mesmo tecido branco prende-se às estruturas de latão, criando uma linha curva que lembra uma rede de dormir. O corpo aqui projetado já não é esquematicamente vertical, mas um corpo frouxo, lânguido, que se acomoda. O esgarçamento irregular do tecido, cuja presença sensível é radicalmente diferente da do metal, fala de um estar no mundo mais frágil, em que as tensões se encontram na superfície da pele.

Ao juntar o latão com a lã, Paloma Bosquê coloca em um mesmo trabalho materiais essencialmente diversos. O latão é um metal relativamente barato, associado à produção industrial e, por se prestar a imitar o dourado do ouro, à confecção de bijuterias e objetos decorativos de baixa qualidade. A lã, de origem animal, macia, fina, delicada e ao mesmo tempo rústica, recebe tratamento artesanal. Há algo instigante nessa polaridade, que se revela tanto sensivelmente como no uso corriqueiro dos dois materiais. Se Paloma Bosquê se volta a questões da escultura moderna, os materiais que elege para trabalhar se afastam desse repertório, abrindo caminho para uma nova pesquisa bastante promissora.

Detalhe do ateliê da artista em que se misturam projetos em andamento e matérias-primas

Detalhe do ateliê da artista em que se misturam projetos em andamento e matérias-primas

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