Para Lisette, com amor

Juliana Monachesi

Publicado em: 24/10/2014

Categoria: Especial 31a Bienal de São Paulo, Reportagem

Quase dez anos após a 27ª Bienal de São Paulo, e no melhor estilo “efeito a posteriori”, a 31ª edição da mostra efetiva a radicalidade daquele gesto inaugural

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Legenda: Um dos ambientes da instalação Small World (Pequeno Mundo, 2014), do artista israelense Yochai Avrahami (foto: Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo)

Há ecos da 27ª Bienal por toda parte nesta 31ª edição da mostra paulistana. A começar pelo título “modo de usar”: Como Falar de Coisas Que Não Existem evoca o Como Viver Junto de 2006. Porém, se o título da 27ª assumia a inspiração em Roland Barthes para distanciar-se dela em muitos pontos, o da 31ª não dá nenhuma pista de que fará de Foucault uma espécie de cartilha, que será seguida à risca de ponta a ponta. A obra que recepciona os visitantes na área denominada Rampa este ano, a comovente Those of Whom, da artista indiana Sheela Gowda, lembra a instalação da sul-africana Jane Alexander, exposta logo na entrada da 27ª: aprisionamento, caos e violência rondam as boas-vindas à exposição, anunciando que o tema é pesado e árido; algo de abandono aliado a uma estranha presença corpórea que é difícil não associar ao corpo humano, apesar de – tanto em Gowda como em Alexander – as evidências apontarem uma distinção, ou desvio, em relação ao humano. Logo adiante, Small World, do israelense Yochai Avrahami, evoca o antimonumento de escala monumental do suíço Thomas Hirschhorn, que também vinha um pouco mais adiante da entrada em 2006. Ambas as obras vaticinam: num país reincidente no esquecimento histórico, um pouco de choque pode vir a calhar. Os traumas brasileiros devem ser lembrados juntamente com a constatação da ruína de qualquer possibilidade de monumentalizar o passado ou o presente.

A atual edição da Bienal tem uma grande vantagem em relação à 27ª, vale lembrar. Os eventos recentes na história local e global – das manifestações de junho de 2013 aos movimentos Occupy e a Primavera Árabe – lhe dão razão já de partida. Enquanto, em 2006, a discussão da urgência em se pensar e agir coletivamente, o foco na comunidade, advinha muito mais de um rumor histórico que se mostrou visionário. No seu livro O Retorno do Real, o teórico norte-americano da arte Hal Foster defende que as neovanguardas (as manifestações artísticas mais relevantes dos anos 1960 a 1990, década em que o estudo foi escrito) realizam de fato o projeto das vanguardas históricas, valendo-se do conceito de efeito a posteriori da psicanálise. Baseada nesse raciocínio, gostaria de propor a hipótese de que o que a 31ª Bienal faz em 2014 é realizar pela primeira vez e integralmente o projeto da 27ª. Foram necessários oito anos para que as proposições radicais daquela exposição fossem assimiladas pelo imaginário cultural. A posteriori, quando a 31ª Bienal envereda por temas e problemáticas muito parecidas, é como se, finalmente, a 27ª ganhasse clareza.

Mas toda a semelhança acaba aqui. Porque a edição atual da mostra padece do mal que foi, talvez erroneamente, atribuído à exposição de 2006. Ela compromete a estética em nome da política. E, pior, oferece da política uma visão paternalista, quando não populista – algo que passava anos-luz distante da complexa mostra de 2006. Porque, o que era, então, rumor, como, por exemplo, a questão da transexualidade (no ensaio de Ahlam Shibli) ou a questão indígena, sutilmente colocada na série de fotos de Claudia Andujar, na presente exposição se apresenta carregado de literalidade, como no Museo Travesti del Perú ou no vídeo de Ymá Nhandehetama. Uma visita atenta à mostra em cartaz no Pavilhão da Bienal parece uma ilustração da História da Loucura, de Michel Foucault: as tais “coisas que não existem” abrangem todas as esferas de exclusão social, econômica ou da normatividade corrente. Gays, transexuais, autistas (Balayer, de Imogen Stidworthy), jovens de periferia ou vítimas da especulação imobiliária (Wonderland, de Halil Altindere), presidiários ou bandidos (The Incidental Insurgents, de Basel Abbas e Ruanne Abou-Rahme), manifestantes de junho de 2013 (Não É sobre Sapatos, de Gabriel Mascaro), anônimos (Of Other Worlds That Are on This One, de Tony Chakar), imigrantes ilegais, comunidades indígenas, perseguidos políticos, despossuídos etc. Todos igualitariamente representados. Mas será que tudo isso é mesmo tão invisível aos brasileiros? Será que o público da Bienal não está sendo subestimado, quando seria perfeitamente capaz de assimilar (ainda que dez anos depois, vá lá) conteúdos um pouco mais complexos? E, por favor, um pouco mais relevantes do ponto de vista estético?

A história se repete. E, contrariando Hal Foster, que procura relativizar os termos da máxima de Marx, ela acontece primeiro como tragédia e depois como farsa. Cara Lisette Lagnado (curadora-geral da 27ª Bienal de São Paulo), se me permite, e com o perdão pelo delay de quase uma década, a bienal que você realizou foi genialmente visionária e generosamente incomplacente com o espectador. Parafraseando Foster, cada um tem o Como Viver Junto que merece!

*Crítica publicada originalmente na edição #20

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