Para uma vida não fascista

Três perspectivas artísticas sociais – e locais – na 32ª Bienal de São Paulo

Michelle Sommer
Ativação de Transnômades, trabalho do coletivo Opavivará, na Av. Paulista, em São Paulo (Foto: Divulgação)

Entre às vésperas de abertura da 32ª Bienal de São Paulo – Incerteza Viva – e o início do mês de dezembro, nas últimas semanas do evento, o cenário é o seguinte: em 31 de agosto a presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff é afastada do cargo e o vice-presidente Michel Temer assume o seu posto; a privatização do Parque Ibirapuera é anunciada pelo recém-eleito prefeito de São Paulo João Dória (PSDB); o republicano Donald Trump é eleito presidente dos Estados Unidos; os ex-governadores do Rio de Janeiro Antony Garotinho e Sérgio Cabral são presos; o líder revolucionário cubano Fidel Castro morre aos 90 anos; um acidente aéreo na Colômbia mata 76 pessoas – grande parte integrante do time de futebol brasileiro Chapecoense – e, na sequência quase imediata, a PEC 55 – ‘do Fim do Mundo’ – é aprovada no Senado. 2016 ainda não acabou. A 32ª Bienal de São Paulo também não.

A crise está disseminada, é global e contínua; crise ‘está’ um modo de viver. Como a arte responde – se responde – aos impulsos políticos externos em um modelo expositivo da grande escala do capitalismo neoliberal? Nessa edição da bienal, três proposições artísticas com forte ênfase na arte politizada têm como ponto de partida o local para suas ações: Transnômades, do coletivo Opavivará!; Oficina de Imaginação Política, de Amilcar Packer e o projeto Restauro, de Jorge Menna Barreto. Em comum, os trabalhos compartilham ativações em caráter de evento, na presença dos artistas, em escala de mediação reduzida que tendem ao 1:1 na relação artista-público e, vivas, essas proposições discutem incertezas frente ao cenários caótico.

Os carrinhos de mão movidos a tração humana de Transnômades, do Opavivará!, habitam espaços públicos para públicoS – com S maiúsculo como indicativo da diversidade de públicoS que a proposta intenciona mobilizar, em lugares distintos, do parque à rua. Ali, refeições, água e música são ferramentas para ativar a socialização para um outro modo de estar junto, momentaneamente compartilhando um comum nas atividades ordinárias, com algum alento, em espaços mais além dos muros internos do pavilhão da bienal. ‘Fora Temer!’; ‘Reciclar a política!’, proclamam os cartazes fixados nos carrinhos que remetem aos milhares de trabalhadores quase invisíveis que circulam por São Paulo e reciclam os resíduos da metrópole. No lugar ocupado, Transnômades reintegra resistências humanas que se opõem à domesticação dos espaços públicos. No tempo sombrio, entre cores, cheiros e sons, emerge um pessimismo alegre em sorrisos compartilhados.

Transnômades, do coletivo Opavivará! (Foto: Divulgação)

Transnômades, do coletivo Opavivará! (Foto: Divulgação)

Oficina de Imaginação Política funciona como um grupo de pesquisa e é configurado por Amilcar Packer, Jota Mombaça, Rita Natálio, Valentina Desideri, Michelle Mattiuzzi, Thiago de Paula e Diego Ribeiro. No segundo andar do pavilhão, a oficina habita vivamente o espaço expositivo como uma grande sala de aula, motivada pelo aprendizado mútuo que evoca um mix das contribuições de Paulo Freire e do mestre ignorante de Jacques Rancière. O teórico resgata o professor francês Jacotot, do século 19, para proclamar a igualdade de inteligências para o cerne das discussões sobre arte e política. Aí, a igualdade é um ponto de partida e não de chegada e o papel do mestre é reduzir/eliminar distâncias entre emissores-receptores.

Ali, a prática é de igualdades de inteligência e horizontalidade de trocas para debater o sistema colonial-capitalista-jurídico-branco-heterossexual-normativo. Entre apresentações, leituras, discussões públicas, oficinas, intervenções, publicações impressas e online, a direção é a construção conjunta de uma política de produção de subjetividades – para uma vida não fascista.

Em Restauro, de Jorge Menna Barreto, eventos comensais são atos políticos para pensar a agropecuária moderna, atividade humana que mais impacta e transforma o planeta. No ativismo alimentar que ocupa o tradicional restaurante da bienal é ofertada uma outra respectiva para o ato de comer: um sistema digestivo que se inicia pela terra e no qual não é possível ficar indiferente à pergunta sobre a nossa responsabilidade na produção e consumo de alimentos. Na escultura ambiental do artista, em curso, onde todos somos parte, nas mesas comunitárias, conectamos nossas ações individuais do ato de comer ao impacto refletido pela ação no meio ambiente.

Refeição que integra o cardápio da cozinha da Bienal, parte da obra Restauro, de Jorge Menna Barreto (Foto: Divulgação)

Refeição que integra o cardápio da cozinha da Bienal, parte da obra Restauro, de Jorge Menna Barreto (Foto: Divulgação)

Nas três proposições artísticas a política é orquestrada, praticada e teorizada por agentes locais e, dessa forma, talvez seja possível estar mais próximo da articulação de coerência entre discurso e prática em bienais, escapando de proposições artísticas – e curatoriais – hiperideológicas e hiperinstitucionalizadas. Se a 32ª Bienal de São Paulo inaugurou sob protestos de artistas frente ao cenário político atual, seu encerramento afirma que sim, é possível abrir espaço, na prática, para uma arte politizada do aqui e agora.

 

Michelle Sommer é Doutora em História, Teoria e Crítica de arte pelo PPGAV/UFRGS (2016). É mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo PROPUR/UFRGS (2005) na área de cidade, cultura e política e arquiteta e urbanista pela PUCRS (2002). É autora dos livros ‘Práticas Contemporâneas do Mover-se’ (2015) e Territorialidade Negra: a herança africana em Porto Alegre, uma abordagem sócio-espacial (2011). É integrante do corpo docente da Escola de Artes Visuais Parque Lage e atualmente, em conjunto com Gabriel Pérez Barreiro, prepara exposição sobre o pensamento crítico de Mário Pedrosa para o Museu Reina Sofia / Madri, para 2017.

Biombo que separa a Oficina de Imaginação Política dos demais trabalhos da Bienal (Foto: Divulgação)

Biombo que separa a Oficina de Imaginação Política dos demais trabalhos da Bienal (Foto: Divulgação)

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