Para ver na escuridão e projetar no tempo

A celebração na arte pacifista, aguerrida, decolonial e ecofeminista de Regina Vater

Paula Alzugaray

Publicado em: Vol. 10, N 52 Outubro/ Novembro/ Dezembro 2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Rama Dourada (1992) (Foto: Cortesia Galeria Jaqueline Martins / José PelegrinI)

Há pelo menos três pontos de partida possíveis para um texto sobre o corpo de obras de Regina Vater, reunido em sua segunda exposição individual na Galeria Jaqueline Martins, em São Paulo. O primeiro é proposto no título da mostra, que encontra em A Celebration for the GOoD Time (1982) uma mensagem urgente para o tempo sombrio atual. O trabalho, representado em documentação fotográfica e posicionado na entrada da galeria, extrapola categorias. Não é instalação, happening ou performance, mas, literalmente, uma celebração, feita sob uma grande árvore do Central Park, em Nova York, onde Vater viveu, no início dos anos 1980, como bolsista da Fundação Guggenheim, desenvolvendo uma pesquisa sobre as relações entre as mitologias africanas e as do Brasil ameríndio. É uma celebração por um tempo politicamente melhor, realizada num domingo 1º de maio, véspera de primavera, em que os participantes foram convidados a vestir roupas brancas e a comer comidas brancas. Eles fizeram música, declamaram poemas e dançaram sob um arraial de bandeirinhas brancas, evocando Oxalá e o “bom Deus Tempo” da cultura africana, “o único deus que não incorpora, mas é representado por uma bandeira branca em cima da Árvore da Vida”, segundo Vater.

A celebração pode ser vista na obra da artista carioca como um gênero em si, abraçado diversas vezes – como em Evento da Cobra (1988), realizado nos jardins do Laguna Gloria Museum, em Austin, Texas, onde foi apresentada a instalação Ninho de Cobras; e em Magi(o)cean (1970), montada em um Dia de São Jorge, na Praia da Joatinga, no Rio. Mais que eventos site-specific ou projetos participativos, as celebrações podem ser comparadas a rituais – pela sobrevivência –, enquanto as instalações criadas ali assumem a função de amuletos – de fartura, boa fortuna, renovação. Em texto recente, a historiadora da arte Gillian Sneed aborda as celebrações de Vater como “rituais ecofeministas”, https://post.moma.org/regina-vaters-ecofeminist-rituals-of-waste-and-renewal-1983-88/.

“Embora ‘ecofeminismo’ não seja um termo que ela invoca em seus muitos escritos sobre suas obras ecológicas, esse ramo ambientalista do feminismo se desenvolveu na época em que ela organizou essas obras, tornando-se uma estrutura adequada para interpretá-las. (…) Podemos ler Celebration e Ninho de Cobra como projetos ecofeministas de descolonização que se baseiam em práticas espirituais e mitologias do Brasil e de outras culturas mundiais”, aponta Sneed, autora de uma dissertação de mestrado sobre gênero e subjetividade na performance de artistas mulheres do Brasil, entre 1973 e 1982. O texto propõe um exame do projeto celebratório de Regina Vater em suas relações com a natureza. Porém, sua prática ecológica supera a questão ambiental e instaura, na maneira como as celebrações reinventam sociabilidades, outras dimensões – como sugeri em outro momento, no texto Regina Vater: Quatro Ecologias.

Golias (1985) (Foto: Cortesia Galeria Jaqueline Martins / José PelegrinI)

Naquele domingo de celebração, era primavera nos EUA. Era também tempo de política bélica, de Guerra Fria e corrida armamentista. Quando a exposição A Celebration for the GOoD Time acontece em São Paulo, é tempo de milícia e população armada no Brasil. A mostra apresenta uma produção artística que atravessa as décadas de 1980, 1990 e 2000. Provoca uma sensação de absurdo ao constatar a repetição de crimes e violências no mundo contemporâneo, reforçando o interesse em pensarmos o uso da palavra tempo, e os sentidos atribuídos a ela, na obra de Vater.

Um segundo ponto de partida para abordar a exposição pode ser localizado, então, em Dobras do Tempo (1987-88), fotografia no gênero natureza-morta, uma composição com concha e ovo, em remissão ao passado e o futuro: a petrificação – o que se cristalizou –, e o potencial – o que está por acontecer.

Na tensa expectativa pelo dia de amanhã vivida pelo visitante da mostra, Dobras do Tempo conduz à instalação Rama Dourada (1992), que elabora mais uma dissertação sobre a repetição. “Até hoje estamos contando a mesma história: a aventura do herói, essa história humana narrada desde tempos imemoriais, que veio em verso e prosa desde a Babilônia”, diz Regina Vater à seLecT. A obra reporta-se ao Gilgamesh, poema épico mesopotâmico escrito em torno de 2000 a.P., considerada a obra de literatura mais antiga da humanidade, que narra uma saga que se repetirá em Eneida, poema épico latino escrito por Virgílio, no século 1º a.P.: a busca da imortalidade. Aqui, Regina presta homenagem à sua própria ancestralidade, na figura de seu parente Manuel Odorico Mendes (São Luís do Maranhão, 1799 – Londres, 1864), o primeiro tradutor das obras de Virgílio e Homero para o português.

A instalação é composta de plumas de pássaros e uma escultura de bronze na forma de uma “rama dourada” – o salvo-conduto recebido pelo herói épico para entrar no mundo subterrâneo –, envoltas por um manto, ou tenda, de tecido verde, representação dos mistérios da Floresta Amazônica. “A onça, um dos bichos que eu gosto de trabalhar, é um animal protetor de todos os xamãs, do Texas até a Patagônia, porque consegue ver na escuridão e protege os xamãs para penetrarem na alma dos seres humanos”, diz a artista. A visitante pensa então que as pedrinhas que brilham no chão da tenda poderiam ser associadas às onças – que guardam o fogo ancestral no brilho dos olhos. Com uma narrativa que toca as cosmovisões indígenas, a obra parece jogar um pouco de luz sobre as incertezas que afligem o tempo atual.

Registro do evento A Celebration for the GOoD Time, Central Park, Nova York/NY, 1983 (Foto: Cortesia Galeria Jaqueline Martins / José PelegrinI)

Amazônia
A exposição encontra um terceiro recomeço em Golias (1985), instalação em grande escala, de raro poder de síntese e agressividade incomum na poética da artista. É composta de três elementos – um casco de tartaruga, uma pedra e uma pintura – tensionados por uma corda. A imagem sugerida é de um estilingue puxado pela tartaruga: a pedra é o projétil, e o alvo, a pintura de um olho, apropriada de um desenho de Pablo Picasso. “Golias é uma cultura nativa que aponta para um símbolo colonizador”, diz Vater.

Se Picasso se apropriou da máscara africana sem nunca ter visitado a África, Vater foi à Amazônia, nos anos 1970, e se assustou com a escalada de destruição ambiental e de turismo predatório que encontrou. Comprou um cocar indígena com penas de pássaros no aeroporto de Manaus e realizou uma série de trabalhos sobre o trânsito, o tensionamento e a crise entre culturas. Desde seu lugar de fala – carioca, descendente de bascos, alemães, cristãos-novos de Portugal e da etnia indígena Paraguassu – Regina Vater produziu ao longo das décadas seguintes pesquisas artísticas conduzidas por estudos em antropologia, filosofia e literatura, e por interlocuções com indígenas.

Cargo (1992), posicionada no corredor central da galeria, criando um obstáculo entre duas salas, é um desses desdobramentos, composta de uma fileira de caixinhas com penas artificiais, com as palavras impressas: “import” e “export”. “Aquilo é a fronteira que existe entre as culturas: você só vai entender se passar para o lado de lá”, diz.

A tensão cultural instalada em Golias conduz a toda uma série de obras sobre o jabuti – yauti, em tupi –, outro animal central nas pesquisas da artista sobre o que chama de “civilizações de raiz” africana e indígena, em histórias que atentam para a fruição do tempo. Entre elas está incluído na mostra o estudo do projeto da instalação Yauti Marandua (Estórias do Jabuti) (1984), em grafite sobre papel, que demonstra todo um corpo de ideias ainda por realizar – como aponta o ovo das Dobras do Tempo.

A Celebration for the GOoD Time,
Galeria Jaqueline Martins,
Rua Dr. Cesário Mota Jr., 443,
São Paulo, até 30/10

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