Parada em frente ao móbile

O tema de Calder é o universo e, como tal, ele nos apresenta seus móbiles para serem olhados e não para serem tocados, como pede o neoconcretismo brasileiro

Elisa Stecca
Sem Título (1947), de Calder, em exposição no Itaú Cultural (Foto: Calder Foundation, New York/ Art Resource, New York © 2016 Calder Foundation, New York/ AUTVIS, Brasil)

Até 23/10, o Itaú Cultural recebe a exposição Calder e a Arte Brasileira. É uma oportunidade de ouro para mergulhar no universo de um artista maior, fundamental para o século 20 e cuja influência ainda estamos tentando mensurar.

Alexander Calder teve o valor – de pouquíssimos – de inventar algo dentro do imenso universo artístico e, com sua criação, mudar a maneira com que nos relacionamos com uma obra de arte e que percebemos como um trabalho ocupa o espaço.

A exposição é especialmente bem-vinda por nos permitir um contato íntimo com peças importantes, pelas quais somos imediatamente arrebatados. Não bastassem todas as qualidades estéticas que envolvem os móbiles selecionados para a exposição, eles apresentam soluções técnicas, rebites, junções e articulações, que exibem um processo sofisticado de equilíbrio entre pesos e levezas e a primorosa construção de uma ideia.

A coerência em Calder é tamanha que nos trabalhos do início ao fim da carreira – de 1946 a 1974 – sua consistência é a mesma, com o mérito de não ser maneirista e repetir fórmulas. Cada peça é surpreendente.

O curador Luis Camillo Osório propõe um olhar interessante sobre a relação do artista com o Brasil e sua influência na produção nacional, sobretudo sobre artistas do chamado Neoconcretismo, por um viés bastante sutil, na direção do lúdico, da liberação dos limites espaciais e da interatividade com o, até então, espectador. Um ponto de vista que abre espaço para o diálogo e reflexões, no enriquecedor processo de argumentação.

Esta lá, por exemplo, o Brasil como tema em suas pinturas São Paulo (1955) e Santos (1956), mas também perpassando toda a sua obra com bom humor, musicalidade e sensualidade. Talvez, em última instância, a afinidade maior de Calder seja mesmo com a nossa alma.

Osório selecionou artistas muito importantes de épocas  diversas da nossa história da arte para dividirem o espaço expositivo. Suas relações com o trabalho de Calder podem ser bastante explícitas como ocorre, por exemplo, no cinético Abraham Palatnik e na fase geométrica de Hélio Oiticica e de Lygia Clark. Em outros momentos, essas relações são um pouco mais nebulosas – talvez fruto de uma visão bastante pessoal do curador.

Oiticica, no caso, é uma espécie de exemplo ideal da premissa do curador, com seu caminho bem ilustrado por seus guaches, desenhos espaciais e finalmente, os Parangolés.

Já em Lygia Clark  é interessante perceber como, em determinado momento, as direções se separam diametralmente: Calder olha para fora, para o espaço sideral, e Lygia para dentro, partindo do tato e da pele em direção às sensações, o sentimento, as emoções. Por outro lado, existe Ernesto Neto, com um trabalho com plantas, tropicalista, que eventualmente convida à interatividade.

Particularmente, não vejo nos móbiles essa proposta de grande mudança do papel do espectador. O tema de Calder é o universo, o movimento e o ritmo dos planetas e, como tal, ele nos apresenta seus móbiles, para serem olhados, como contemplamos o céu, para serem percebidos em sua sutileza e não para serem tocados.

Finalmente, é muito instigante pensar que, se Calder foi para o Neoconcretismo o elemento desconstrutivo, em sua própria obra ele faz o percurso inverso. Calder, o americano que trabalhara no circo e investigava o “informal” em estampas, desenhos e figuras em arame, viu seu universo expandir por meio do trabalho do artista Piet Mondrian. Ao visitar o atelier/casa do artista holandês em Paris, em 1930, foi ele também arrebatado pelo minimalismo de cores, formas, indicando um caminho de limpeza e construção, uma certa contenção benéfica no lirismo. Após a visita transformadora, Calder constrói, peça a peça, sua poesia de contrastes entre o lúdico e o rígido.

Exposição para não se deixar passar.

Elissa Stecca é graduada em Licenciatura Plena pela FAAP, artista, designer, joalheira e autora do livro Hoje é o Dia Mais Feliz da sua Vida

Com este texto, escrito especialmente para seLecT, abrimos espaço às indagações, reflexões e paixões que a arte incita em nossos leitores

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