Paradigma da potência: a experiência da/na Maré

Existe reconhecimento de que há cultura em espaços periféricos, mas essas manifestações são marcadas por juízos estigmatizantes

Jailson de Souza e Silva
Abertura da exposição de arte contemporânea Travessias 5: Emergência (2017), com curadoria de Moacir dos Anjos, no Galpão Bela Maré, no Rio de Janeiro (Foto: Fábio Caffé, Cortesia Automática)

O reconhecimento de que há cultura nos espaços periféricos é evidente; mais que isso, as manifestações desses grupos sociais nesse campo – na forma musical, de dança, escultura e outras similares – são referências identitárias do país.

Todavia, o mesmo não ocorre quando se levam em conta as manifestações de sujeitos das periferias em várias linguagens artísticas. Nesse caso, a representação é marcada por juízos estigmatizantes, sendo afirmada a impossibilidade de um trabalho de “excelência” por essas pessoas. Por isso, seu teatro é denominado “amador”; a pintura é “naïf”; a literatura é “marginal” e a música é “brega”, ou criminalizada, como no caso do funk.

O fenômeno acima descrito ocorre porque a arte dita “profissional” continua sendo uma das principais formas de distinção e legitimação na sociedade contemporânea. Considera-se natural, por exemplo, que um Teatro Municipal, normalmente um prédio de grande valor arquitetônico e alto custo de manutenção – paga pela sociedade por meio de impostos –, seja reservado apenas para espetáculos representados como eruditos, tais como as óperas e os concertos. Mas a utilização desses espaços para obras de autores populares é considerada quase uma heresia. Da mesma forma, a presença desses tipos de linguagens artísticas nos territórios periféricos ainda é muito rara, com muitos considerando que elas não seriam “assimiláveis” pelo povo. Os espaços e as linguagens, portanto, seriam para seres sociais desiguais por natureza. Os exemplos, como é sabido, são muitos.

No quadro exposto, evidencia-se que iniciativas dedicadas à democratização das linguagens são necessárias para a superação das desigualdades que atravessam a sociedade brasileira. Para isso se faz necessária a superação das representações usuais sobre os espaços periféricos, que se sustentam no que chamamos de Paradigma da Ausência. Graças a ele, os olhares e percepções dirigidos para as favelas, por exemplo, são marcados pelo desconhecimento do que ali existe de fato. A partir de um juízo sociocêntrico, pois construído por grupos que não vivem aquela realidade, apreende-se a favela apenas como um espaço da violência, da carência, da criminalidade, no limite, do caos.

Oposto a isso, propomos um olhar centrado no que chamamos de Paradigma da Potência. Nele se revela a capacidade de olhar para as favelas e espaços similares, sem idealização, a partir das práticas sociais dos seus viventes: inventividade, criatividade, sociabilidades, manifestações artísticas/culturais, as diferentes formas de beleza, dentre outros aspectos centrais.

Modelo Vivo Maré (2013-2017), de Pedro Évora, maquete em processo que em 70 m² já reproduz 70% do complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro; foi montada nas edições 2, 3 e 4 do Travessias em oficinas de arquitetura (Foto: Gabi Carrera, Cortesia Automática)

 

Comunicação crítica
Nossa experiência na Maré(1) demonstra o sentido dessa proposição. O primeiro trabalho que fizemos de forma direta no campo artístico foi a construção da Escola Popular de Comunicação Crítica – Espocc, no início deste século. Nela temos formado centenas de fotógrafos, dentre outros profissionais, tendo muitos uma obra de rara qualidade e atuando profissionalmente nesse campo. Eles passaram a construir um olhar sobre a favela, no qual o registro do cotidiano se faz significativo, para além das formas tradicionais que acentuam apenas as situações de violência(2). 

Nesse tipo de trabalho, a questão da convivência com diferentes sujeitos da cidade é uma estratégia relevante. A experiência da Companhia de Dança Lia Rodrigues demonstra as possibilidades dessa interação: desde quando Lia trouxe sua companhia para a favela – há cerca de 14 anos – numa parceria com a Redes da Maré, ela registra que seu trabalho se tornou ainda mais denso, criativo e engajado. Graça a essa parceria, foi criado o Centro de Artes da Maré – CAM, um espaço de produção e difusão artística de excelência e relevância para a cidade.

Ao lado do CAM temos o Centro de Artes Visuais Bela Maré. Ele foi criado na perspectiva de ampliar o acesso e a produção dos moradores das periferias à arte contemporânea e permitir que moradores de diversas partes da cidade (re)conhecessem a favela a partir de um espaço de excelência artística. Ouvimos de muitos a expressão de um sentimento de estranhamento, e mesmo de oposição. Fomos chamados, inclusive, de “elitistas” (sic) por priorizar uma linguagem artística que não teria relação com a realidade da favela e que o povo precisa é de educação, saúde ou de preservar suas manifestações de origem popular e não de expressões artísticas “alienadas” e “alienadoras”.

Esse tipo de juízo reducionista sobre o que os grupos sociais periféricos necessitam orienta, inclusive, a política pública. Logo, não é casual que um equipamento de custo tão elevado como a Cidade das Artes esteja localizado na Barra da Tijuca, bairro das classes econômicas mais ricas e de difícil acesso para grande parte da população carioca. Felizmente, o sucesso das iniciativas e o envolvimento progressivo dos moradores e moradoras da Maré e muitos outros bairros da cidade nas atividades do Polo Cultural da Maré revelam que o acesso às linguagens artísticas mais diversas é um imperativo para a construção da democracia. De fato, temos clareza de que a política cultural nos permitirá construir elementos que estimulem a percepção integral dos sujeitos da cidade, a importância da convivência na diferença e a superação das diversas formas de violência que se apresentam em nosso cotidiano urbano.

Violência como a sofrida por Marielle Franco, que se tornou uma ativista social a partir de projeto educacional desenvolvido por nós, demonstra até onde pode ir a barbárie. E ela, no que concerne aos grupos sociais das periferias, em geral negros, decorre da falta de reconhecimento dos nossos direitos fundamentais, assim como das formas como as hierarquias sociais são reproduzidas. Fazer com que as artes deixem de ser formas de legitimação dessas práticas e sejam postas a serviço da construção de uma cidade mais justa, humana e fraterna é o caminho que temos buscado construir a partir da Maré, para a cidade, para a humanidade inteira.

(1) O complexo da Maré é o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, sendo constituído por 16 comunidades, onde vivem 140 mil pessoas. Esse conjunto fica próximo do Aeroporto do Galeão e da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ali nasceram as organizações sociais Observatório de Favelas; a Redes da Maré; e o Instituto Maria e João Aleixo; dentre outras.

(2) Cf. https://youtu.be/Rc7LLI0QDBM

Jailson de Souza e Silva é fundador do Observatório de Favelas, diretor-geral do Instituto Maria e João Aleixo e professor associado da Universidade Federal Fluminense.

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.