Paranoia reloaded

Marion Strecker

Publicado em: 19/09/2013

Categoria: Ensaio, Reportagem

Conhecer a extensão do poder político, econômico e policial sobre sistemas como Google e Facebook alimenta o delírio persecutório contemporâneo

Lenora

Legenda: Fragmento da obra Procuro-me (2000-03), de Lenora de Barros

As palavras, sempre as palavras. Quando eclodiram as manifestações de rua no Brasil, em junho, vimos ressurgir uma série de termos que estavam em desuso, como “vândalos”, “baderneiros”, “arruaça” e “alienado”. Quando Edward Snowden, técnico de informática, ex-agente da Agência Nacional de Segurança dos EUA e ex-funcionário da empresa de inteligência Booz Allen, revelou que a segurança americana tinha acesso a servidores de empresas de internet como Google, Facebook, Microsoft e Yahoo, foi chamado não apenas de traidor, mas também de herói e delator. Essas palavras carregam um partido, uma carga moral. Por mais que tentemos nos ater a um significado específico, a memória de uso da linguagem traz consigo pesos e valores, lembra contextos outros, aproxima personagens de diferentes períodos da história.

Vândalos eram um povo germânico, oriundo de duas tribos distintas da região da Escandinávia, que, ao menos desde o século 2º, alternava períodos de guerra e de paz com o Império Romano, no continente europeu, no Mediterrâneo e no Norte da África. Seu reino entrou em colapso no século 6º, quando foram rendidos pelos bizantinos e acabaram por se misturar com outros povos e desaparecer como etnia. Restou o sentido pejorativo, que seria uma alusão aos métodos violentos com que assaltaram e saquearam Roma no ano 455, destruindo obras de arte. No Brasil do século 21, vandalismo virou sinônimo de quebra-quebra, arrastão, incêndio criminoso, apedrejamento e roubo, sendo usado a torto e a direito por rádios, tevês, jornais, governantes, políticos e boa parte da população, sem paciência, interesse ou vontade de diferenciar um tipo de violência de outro.

Evocamos a memória dos vândalos quando poderíamos ter evocado os bárbaros, também em seu sentido pejorativo. A palavra “bárbaro” vem do grego e quer dizer simplesmente “não grego”, ou qualquer povo cuja língua materna não era o grego. Foi uma alusão aos persas e sua língua que os gregos entenderiam como “bar-bar-bar”, mas que serviu também para designar os romanos ou qualquer estrangeiro. No Império Romano, veja só, tornou-se sinônimo de “não romano” e, por extensão, “incivilizado”.

Entre os séculos 5º e 8º, a palavra serviu para identificar povos bem distintos, como os hunos, os godos e os gauleses, cuja principal semelhança era o fato de terem invadido o Império Romano. O inferno são sempre os outros, como escreveu Jean-Paul Sartre (1905-1980). E foi assim que o agente de segurança americano Edward Snowden se transformou num contraespião, expondo ao mundo as práticas de invasão de privacidade do governo dos EUA contra cidadãos que usam serviços de empresas daquele país, como o Facebook ou o Google. Depois de revelar a trama a Glenn Greenwald, um nova-iorquino que mora no Rio de Janeiro e é colunista do jornal inglês The Guardian, Snowden fugiu do Havaí para Hong Kong e de lá para Moscou, onde vagou pelo aeroporto por conta de seu passaporte americano cancelado, sem poder entrar nem sair da Rússia. A Rússia, por sua vez, se recusou a entregar o rapaz, apesar dos insistentes pedidos de Washington, sob o argumento de que os dois países não mantêm tratado de extradição.

Enquanto este artigo era escrito, Snowden estava com seu destino indefinido e pedia asilo político a mais de 20 países com a ajuda da advogada Sarah Harrison, da equipe jurídica do WikiLeaks. O jornalista e ativista australiano Julian Assange, fundador do Wikileaks, por sua vez, continuava refugiado na embaixada equatoriana em Londres, depois de ter vazado, entre outros, documentos sigilosos militares e diplomáticos norte-americanos.

Não, não estamos mais na Guerra Fria, embora os conflitos internacionais de ordem política, militar, econômica, tecnológica e ideológica não tenham desaparecido da face da Terra. Poder e hegemonia permanecem na ordem do dia. O Prism confirma essa hipótese e não deixa dúvida de que, possivelmente, sempre estarão, como provavelmente estão desde que o mundo é mundo.

O novo estatuto da paranoia

Prism é o codinome do programa ultrassecreto de vigilância que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos mantém desde 2007 para obter informações sobre alvos específicos e vigiar a comunicação em tempo real, ou seja, ao vivo, enquanto acontece. O Prism seria capaz de fornecer à agência e-mails, conversas em áudio e vídeo, vídeos, fotos, conversas usando tecnologia de voz sobre IP (Internet Protocol), arquivos transferidos, informações sobre logins e outros dados de redes sociais, além de registros de ligações telefônicas. Quando o escândalo veio à tona, as grandes empresas de tecnologia afirmaram em uníssono, sob ceticismo internacional, que respeitam as leis americanas e que não dão acesso direto a seus servidores para o governo, como foi aventado.

O fato é que agora sabemos a extensão do poder tecnológico, político, econômico e policial dos sistemas que usamos cotidianamente, tantas vezes na maior inocência. A privacidade já era. Sejamos todos paranoicos de novo, como fomos durante a Guerra Fria e durante a ditadura militar brasileira. Ou vamos parar de valorizar a privacidade, como os jovens e os ultrajovens parecem fazer hoje em dia, nossos jovens e doces bárbaros, agora na acepção positiva do termo que entre nós também virou sinônimo de “legal” e “bacana”. Outro termo negativo que ganhou conotação positiva é justamente “maluco”. Isso aconteceu bem antes de sair o novo DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), publicado pela Associação Americana de Psiquiatria em maio último. O polêmico DSM-5 traz centenas de categorias de patologias mentais. É fácil se identificar com muitas delas, ainda mais porque não há clareza na linha demarcatória que separa o transtorno mental da normalidade. Problemas leves se resolveriam espontaneamente, sem necessidade de diagnóstico ou tratamento. Paranoia é um dos mais antigos conceitos na história da descrição de estados mentais. Na tragédia grega, serviu para descrever o amor apaixonado de Édipo por Jocasta e também o estado de Orestes depois que assassinou sua mãe, Clitemnestra.

O conceito mudou ao longo do tempo e ficou mais popular no século 19, quando passou a ser entendido como um estado mental caracterizado por mania de perseguição. O neurologista austríaco Sigmund Freud (1856- 1939), mais conhecido como o pai da psicanálise, afirmou que “os paranoicos são capazes de construir com surpreendente engenhosidade e sutileza os maiores absurdos”. Um diagnóstico moderno é de transtorno delirante, que se manifesta com sensações angustiantes, como estar sendo perseguido por forças incontroláveis, ou ser escolhido para uma missão importante, como salvar o mundo (neste caso, chamado de delírio de grandeza). Entre características relacionadas à personalidade paranoide estão ainda a desesperança, o distanciamento emotivo, a hipersensibilidade a críticas e o pessimismo.

Agora temos o DSM-5, quinta versão do documento publicado pela Associação Americana de Psiquiatria desde os anos 1950 e que serve de referência para médicos, indústria farmacêutica, seguros de saúde e para o sistema judiciário americano, além de influenciar a alocação de verbas para pesquisa. O DSM-5 não lista o transtorno de personalidade paranoide como um tipo específico, mas continua a listar características que permitem descrevê-lo como um comportamento injustificadamente desconfiado, hostil ou de aversão à intimidade.

O DSM-4-TR, do ano 2000, descrevia o transtorno de personalidade paranoide como um padrão cujo diagnóstico poderia ser feito em pacientes que apresentassem ao menos quatro dos seguintes comportamentos: 1) Suspeita, sem base real, de estar sendo explorado, maltratado ou enganado por terceiros. 2) Preocupação infundada com a lealdade ou confiabilidade de amigos. 3) Relutância em confiar em outras pessoas por medo de que informações possam ser usadas contra si. 4) Interpretar significados ocultos humilhantes ou ameaçadores em observações ou acontecimentos benignos. 5) Guardar rancor persistente, apresentando dificuldade de perdoar insultos, injúrias ou deslizes. 6) Interpretar elogios de forma negativa. 7) Perceber ataques ao caráter ou reputação que não são notados pelos outros, reagindo rapidamente com raiva ou com contra-ataque. 8) Ter suspeitas recorrentes, injustificadas, quanto à fidelidade do cônjuge ou parceiro sexual.

Entre as inúmeras críticas que o DSM-5 vem sofrendo está o fato de que ele define os transtornos mentais com base em sintomas, em vez de fundamentá-los em causas biológicas. Cientistas buscam razões para os transtornos mentais há décadas. O fundamento biológico seria o Santo Graal da psiquiatria.

O elogio à paranoia

“A ideia de que se possa mapear a mente é reconfortante, pois com um mapa sabemos onde estamos e para onde ir”, disse numa recente visita ao Brasil o neurocientista português António Damásio, professor na Universidade do Sul da Califórnia que atualmente estuda a diferença entre as estruturas do cérebro humano ligadas aos sentimentos e aquelas relacionadas às emoções. Damásio prepara um livro sobre aquilo que acontece no cérebro e permite criar cultura e civilização, artes, justiça e moralidade. O neurocientista se pergunta o que há nas artes que contribui para o nosso bem-estar. Vale lembrar, porém, que nem toda arte pretende produzir bem-estar. Às vezes ocorre justamente o contrário. E a graça pode ser essa.

O elogio à paranoia apareceu explícito no começo dos anos 1930, quando o pintor surrealista catalão Salvador Dalí (1904-1989) decretou que a paranoia era uma atividade criativa. Por causa dessa ideia, em 1931, o psicanalista e psiquiatra francês Jacques Lacan (1901-1981) o procurou para uma entrevista. O entusiasmo foi mútuo. Lacan escrevia sua tese de medicina “Da Psicose Paranoica em suas Relações com a Personalidade”, concluída em 1932. Dalí desenvolveu o que veio a chamar de Método Paranoico-Crítico, uma técnica de criação artística baseada na habilidade do cérebro de perceber ligações entre coisas cuja racionalidade não está propriamente vinculada. Em outras palavras, seria um “método espontâneo de conhecimento irracional baseado na objetividade crítica e sistemática das associações e interpretações de fenômenos delirantes”. O resultado da aplicação: imagens ambíguas que permitem múltiplas interpretações.

Psicose em massa

O poeta francês André Breton (1896-1966), conhecido como o pai do surrealismo, aplaudiu a técnica de Salvador Dalí e afirmou que ela constituía um “método de primeira importância, perfeitamente aplicável à pintura, à poesia, ao cinema, à elaboração de objetos surrealistas, à moda, à escultura, à história da arte e, inclusive, a qualquer tipo de exegese”. Um fenômeno mais recente foi descrito na Wikipedia como paranoia cibersocial. Imagine uma ameaça sem base na realidade que seja difundida por redes sociais, existindo unicamente nesses meios de comunicação. O fenômeno afetaria a realidade de um grupo, comunidade ou sociedade, causando temor ou algum estado maior de pânico nas pessoas que recebem, difundem e tratam de prevenir os fenômenos anunciados que poderiam afetá-las. Seja um novo vírus de computador, seja o que for. A consequência seria um ato de paranoia massivo, sem fundamento real, que poderia evoluir para uma psicose de massa.

Seria essa a contemporaneidade?

Ensaio publicado originalmente na edição impressa #13.

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