Parcialmente nublado… na Ucrânia

Juliana Monachesi

Publicado em: 07/11/2012

Categoria: Reportagem, visuais

A artista Flávia Junqueira expõe resultado de residência e narra sua experiência de fotografar em set ucraniano

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Legenda: Flávia Junqueira em ação em Gorlovka, na Ucrânia

Foi inaugurada ontem a sexta e última edição do ano do Nova Fotografia 2012, programa de exposições fotográficas do MIS, em São Paulo. A artista Flávia Junqueira exibe imagens ambientadas em um decadente Palácio da Cultura da era soviética na cidade ucraniana de Gorlovka. Também integram a mostra individual da artista as séries AnteSala e Balões, que retratam intervenções com balões coloridos realizados no hall de entrada de antigos prédios de Paris, e Sonhar com uma Casa na Casa.

Em junho deste ano, a artista mostrou os primeiros resultados de sua pesquisa em Donetski, na Ucrânia, na exposição Partly Cloudy, organizada pela fundação Izolyatsia – etapa final de um programa de residência artística iniciado em julho de 2011, sob a orientação de Boris Mikhailov. Mikhailov, não custa lembrar, é autor da série de fotografias mais impactante da 25ª Bienal de São Paulo (2002), que retratavam o desamparo glacial de mendigos das ruas de Moscou. 

Oito novas séries fotográficas criadas durante a estadia dos artistas selecionados para o programa em Donetski foram então expostas em diversos espaços da fundação. Os artistas em questão: Richard Ansett (Reino Unido), Nuno Barroso (Portugal), Marina Black (Canadá), Marco Citron (Itália), Homer (Sasha Kurmaz, da Ucrânia), Flávia Junqueira (Brasil), Natasha Pavlovskaya (Rússia), Alexander Strinadko (Ucrânia). Na ocasião da mostra em Donetski, Junqueira concedeu uma entrevista ao site da seLecT, que reproduzimos abaixo.

Como foi a orientação com o Mikhailov? Ele é um puuuuuuta artista!

Flávia Junqueira – A orientação com o Boris foi uma oportunidade bastante única. Raramente encontrei no Brasil a possibilidade de me comunicar e mostrar minha pesquisa para artistas internacionais deste peso. Normalmente é difícil até mesmo com os grandes artistas brasileiros, imagine com algum que é de fora de nosso contexto!!! Conhecer ele foi um privilégio, a residência como um todo foi única. O Boris fez uma palestra mostrando os trabalhos dele para todos os artistas em um primeiro momento, e, no segundo dia, tivemos a possibilidade de conversar com ele melhor, individualmente. A orientação foi focada no projeto que cada um havia enviado para a residência. Assim ele podia pensar o trabalho teórico enviado como projeto em paralelo à prática vivida por cada artista lá em Donestski. Para mim foi especialmente bacana conversar com ele, notar que muitas das sugestões que ele me apontava já haviam sido apontadas por outros professores e artistas aqui de São Paulo. A experiência da residência em Donestki para mim foi muito forte para entender até que ponto os limites com a fotografia podiam ser rompidos ou não.

E como funcionou o programa de residência? Ou seja, quanto uma experiência dessa impacta a produção?

Flávia Junqueira – A experiência, como disse, de fato causou um impacto em mim. Na verdade, acredito que qualquer experiência que mude a rotina já cause um impacto grande. As residências internacionais são sempre ótimas porque nos deslocam totalmente de uma zona de conforto. A lingua é outra, a cidade, os costumes, e você normalmente nunca tem a comodidade da produção que você tinha anteriormente. Nesse ponto a experiência me ajudou muito. Os costumes da Ucrânia são bem diferentes, e como fiquei em uma cidade de interior o encontro com a cultura foi realmente maior, pois não havia quase nada conhecido, era tudo sempre muito típico do local. A produção cresceu no sentido de que encontrei uma cidade que se relacionava muito com o que eu buscava em minha pesquisa, o que eu desejava imbutir no meu trabalho naquele momento: Uma cidade com resquícios de memória do comunismo e, ao mesmo tempo, totalmente dominada pela atualidade do consumo, dos objetos simples e fáceis etc. E uma cultura bastante mista, cheia de contradições de tempo e espaço, quase um filme, uma história, um lugar inexistente.

O que mais te chamou a atenção na Ucrânia? Você já tinha estado em algum lugar tão distante (geográfica e culturalmente) do Brasil?

Flávia Junqueira – Eu nunca havia ido a um lugar tão distante culturalmente e geograficamente. Donestki era diferente em tudo: comida, roupas, costumes, horários etc. O que mais me chamou a atenção foi a cidade de Gorlovka, um pouco mais no interior, onde encontrei uma mansão completamente abandonada. Entrei dentro dessa casa e descobri que ali dentro havia muita história. Era um clube da ex-União Soviética que abrigava os filhos dos funcionários no comunismo. Era um clube de cultura, com teatro, biblioteca, sala de dança, cinema, entre outros. Ele havia sido abandonado em 1951 e desde então estava lá. Foi possível encontrar intactas cadeiras, livros, películas de cinema, entre muitas outras coisas.
Este foi o espaço em que decidi fazer meu trabalho, a série Gorlovka 1951. É possível conhecê-lo no meu site: www.flaviajunqueira.com.br

Serviço

O QUÊ: Gorlovka 1951, exposição de Flávia Junqueira
ONDE: Espaço Nicho do MIS (Avenida Europa, 158, Jardim Europa, tel. 0/xx/11/2117-4777)
QUANDO: De terça a sábado, das 12 às 22h; domingos e feriados, das 11 às 21h; até 06 de janeiro

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