Parque Lage arrecada R$ 300 mil em leilão para Queermuseu

Exposição deve acontecer em junho, a despeito do prefeito Crivella, que havia dito que, no Rio, só aconteceria “no fundo do mar”

Márion Strecker
Pessoas se divertem na piscina do casarão do Parque Lage, depois do show de Caetano Veloso. Foto: Renan Lima

Era para ser uma noite festiva no Parque Lage, a quinta passada (15/5/18).  Estava prevista uma exposição com leilão de obras de artistas famosos a preços razoáveis, seguida de um show fechado de Caetano Veloso à beira da piscina. O objetivo era arrecadar fundo para a montagem no Rio da polêmica exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, que o Santander Cultural abriu mas encerrou precocemente no ano passado depois de protestos moralistas.

Mas a noite acabou se tornando de comoção e protesto contra a execução, na véspera,  da vereadora do PSOL Marielle Franco, juntamente com seu motorista, Anderson Gomes. A cerimônia do leilão, que aconteceria no Salão Nobre do casarão do Parque Lage e seria conduzida pela empresária Paula Lavigne e o leiloeiro Jones Bergamin (Peninha), foi cancelada de última hora. Na entrada do casarão do Parque Lage, as pulseirinhas cor de rosa eram distribuídas com fitas pretas, em sinal de luto.

A exposição foi aberta com coquetel nas Cavalariças do Parque, com entrada franca. Foram doadas 81 obras, por artistas como Adriana Varejão, Angelo Venosa, Nuno Ramos, Anna Bella Geiger, Efraim Almeida, Iole de Freitas, Ernesto Neto, Luiz Zerbini, Cabelo, Daniel Senise e Raul Mourão, muitos deles presentes à vernissage. Mas o que se realizou naquela noite foi um “leilão silencioso”. Os funcionários circulavam listas de obras e preços mínimos para o público interessado e recolhiam as ofertas dos possíveis compradores na própria exposição.

  • Vista parcial da exposição #EUQUEROQUEER. Foto: Vera Donato
  • Vista parcial da exposição no Parque Lage. Foto: Vera Donato
  • Vistas parcial da exposição #EUQUEROQUEER, no Parque Lage. Foto: Vera Donato
  • Vista parcial da exposição #EUQUEROQUEER. Foto: Vera Donato
  • "Pouso 3", obra de Efraim Almeida, vendida por R$ 40 mil no leilão de parede do Parque Lage

 

As obras mais disputadas foram Panacea Phantastica, de Adriana Varejão, e Swing Soda, de Raul Mourão. O valor mais alto apurado na ocasião foi com a venda de Pouso 3, de Efraim Almeida, que saiu por R$ 40 mil. O valor total apurado na noite foi de R$ 300 mil. O plano da EAV Parque Lage é prosseguir as vendas e a expectativa é que arrecadem mais R$ 100 mil. A remontagem da exposição Queermuseu está prevista para junho deste ano, nas Cavalariças do Parque Lage.

Mais tarde, naquela noite, ocorreu o show de Caetano Veloso, cujos ingressos foram vendidos a R$ 500 por pessoa e estavam esgotados. Horas antes, no Instagram, a página de Caetano Veloso divulgou que faria um show em homenagem a Marielle, o que atraiu dezenas de jovens ao parque, que ficaram surpresos ao descobrir que o show era fechado. Parte desses jovens promoveu manifestação aos gritos de “Ô Caetano, como é que é? Esse show é homenagem ou não é?”, quando enfim foram autorizados a entrar sem pagar.

Precedeu o show uma breve fala do diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Fabio Szwarcwald, vestido de preto da cabeça aos pés. Ele pediu um minuto de silêncio em homenagem a Marielle e seu motorista Anderson. Na sequência, o curador de Queermuseu, o gaúcho Gaudêncio Fidelis, fez um discurso mais inflamado denunciando não apenas a censura da exposição pelo Santander em Porto Alegre, como outros atos de censura em outras exposições, até o assassinato, ainda não esclarecido, da vereadora na véspera.

  • Caetano Veloso com sua convidada especial Maria Gadu. Foto: Vera Donato
  • Vinicius Cantuária, Caetano Veloso, Marisa Monte e Maria Gadu no show beneficente no Parque Lage. Foto: Vera Donato
  • A pesquisadora Ana Luiza Fonseca, da EAV Parque Lage, em noite de protesto. Foto: Renan Lima
  • O casarão do Parque Lage, que abriga a Escola de Artes Visuais, recebe eventos para arrecadar fundos para montagem da exposição Queermuseu. Foto: Renan Lima
  • O curador de Queermuseu, Gaudêncio Fidelis, discursa antes do show de Caetano. Foto: Renan Lima

 

Caetano abriu o show da seguinte maneira: “Tínhamos combinado de vir aqui para celebrar a inauguração, no Rio de Janeiro, da exposição Queermuseu como um gesto de resistência à obscuridade que nos ameaça, e fomos surpreeendidos por um gesto brutal dessas forças obscuras e o tom da nossa celebração de resistência mudou”, disse ele.

Maria Gadu e Marisa Montes foram convidadas especiais do show. A Maria Gadu coube puxar o coro de “Marielle, presente; Anderson, presente” que ecoou na plateia de cerca de 400 pessoas. Parte da plateia aproveitou para gritar também: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar”. Acabado o show, algumas pessoas aproveitaram para se jogar na piscina de roupa e tudo, em meio às bolas coloridas que ali estavam. 

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