Passos seguros pelo desconhecido

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 30/07/2014

Categoria: Crítica, Review

Em sua nova exposição, Carlos Vergara imprime leveza ao conglomerado do mundo por meio de combinações cromáticas insuspeitas, que redefinem a ideia do belo

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Legenda: Vergara em seu ateliê, trabalhando nas obras da exposição atual

Quando o artista atinge um certo nível de maturidade, sua produção parece fluir suavemente, sem tropeços nem atropelos, não importa o caminho trilhado. Ele pode não saber para onde está indo, mas tem segurança suficiente para curtir a viagem sem tentar controlar suas etapas, até que o processo se concretize em obra. Esse é o caso de Carlos Vergara.

Não à toa, o pintor e escultor de 73 anos chama seu ateliê de “play”, corruptela de playground usada no Rio de Janeiro, onde vive atualmente. Pelo menos quando não está em jornadas ao redor do mundo, seja no Cazaquistão ou na Turquia. Para ele, ir ao ateliê é ir brincar.

Suas obras em cartaz em São Paulo traduzem bem esse estado de espírito, que na indefinição do destino final procura imprimir na tela uma anti-iconografia subversiva àquela a que o olho humano está habituado. A ideia é encontrar uma beleza calcada no estranhamento, obrigando a visão a sair do conforto.

“O olhar humano é o sentido mais prejudicado, é o que precisa de mais trabalho do cérebro para se desvincular do utilitarismo. A audição, por exemplo, é pega de surpresa: uma música vai entrando pelo ouvido e, quando você percebe, já está arrebatado. O nosso olho não. Ele está sempre ocupado em perceber o ambiente para conduzir o corpo em segurança, medir, julgar cor, tamanho, volume, perspectiva. Para para tirá-lo desse automatismo, é preciso um esforço de pensamento”, define Vergara.

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Legenda: Obra sem título de 2013

No retrato dos manguezais da Barra da Tijuca, (RJ) ele viu a possibilidade de ressignificar a paisagem natural para fazer o olhar trabalhar. “As grandes dimensões dessas obras, além de serem uma postura política de reafirmação da pintura, obrigam o espectador a olhar várias vezes, trecho a trecho, aproximando-se e afastando-se, para conseguir visualizar a paisagem toda. Não dá pra ver o quadro inteiro de uma só vez, é preciso fazer esse exercício de recompor a imagem.”

Partindo de fotografias que ele mesmo sacou da região, descoberta numa visita ao filho, partiu para a criação de paisagens cujos contornos afirmam-se mais pela fluidez cromática que por linhas contentoras, em processo que mescla monotipia, pintura livre e aplicação de volumes, em materiais como carvão triturado e pó de mármore. As cores da aquarela diluem-se e vazam dos planos idealizados pelo artista, num balanço delicado entre aquilo que ele deseja e o que realiza de fato. “Digo que pintar é metade como um jogo de dardos, que atingem o alvo, e metade como um jogo de dados, que é puro acaso.”

Mesmo quando a linha surge em relevo na cola aplicada diretamente sobre a lona, que pode ser branca ou preta, é só um elemento a mais. Aumenta o ruído visual em vez de organizar, translúcida ou fagocitada pelo pó de carvão que, soprado, lança sombras sobre as cores e amalgama-se à viscosidade. Elementos coloquiais, como prédios de escritório típicos da bourgeoisie tijucana, são distorcidos em reflexos nas águas, irreconhecíveis.

Observar a coincidência da proposta e do resultado mostra que a segurança de ir livre pela experimentação traduz-se em prazer para o espectador. A beleza encontrada nas obras recentes de Vergara não é impositiva, nem superlativa, mas conquista o olhar pela sutileza. Necessita de observação e pausa, e por isso tem a capacidade de desconstruir as premissas utilitárias que comandam a visão, trazendo um respiro para o cansaço da formatação cotidiana. Nessa parceria com o acaso, Carlos Vergara chega aos 73 jovem e atual, em relação com o tempo presente.

Carlos Vergara, até 26/8, Bolsa de Arte, R. Mourato Coelho, 790, São Paulo

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