Pastel de vento

Começa a temporada de livros de brinde de fim de ano. A maioria, de uma inutilidade assombrosa

Angélica de Moraes

Publicado em: 24/12/2011

Categoria: A Revista, Crítica

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Como no pastel de feira, o essencial é o recheio. A massa (ou a capa) pode ser linda, sequinha, estalando. Mas, na primeira mordida, revela-se o vácuo: não há nada consistente para mastigar ou ler. Na seara dos livros de brinde de fim de ano – também chamados de coffee table books, ou seja, livros para a mesinha do café na frente do sofá –, a pobreza franciscana das ideias contrasta com os prósperos orçamentos a eles destinados.

Esses exemplares ornamentais de uma cultura idem proliferam nas antessalas do poder, nos sultanatos da administração pública e, claro, nos ares rarefeitos dos topos das carreiras executivas (ou CEOs) da iniciativa privada. Exatamente os que patrocinam esses mimos aos clientes e correligionários. Patrocinam? O grosso dos recursos para essas bobagens impressas chega via renúncia fiscal. Mas nós, cordatos contribuintes da
Receita Federal, sabemos que jamais fomos consultados se renunciaríamos a destinar nossos suados impostos a coisas mais úteis.

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No programa de tv Seinfeld, da NBC, o hilário personagem Kramer apresenta seu coffee table book a respeito de livros de mesa que também se transforma em coffee table

Reza a lenda que esse objeto, o livro de enfeite, atingiu seu auge em terrasde Pindorama quando certo banqueiro (atualmente despejado de sua mansão e condenado a 21 anos de prisão) resolveu adotar o mimo dos livros parrudos, pesados. Daqueles que, mesmo quando cumprem a útil missão de documentar uma bienal de arte, são tão inamovíveis como menires. Ninguém se anima a levar na mala ou enviar pelo correio. São lápides da cultura
nacional.

Aliás, os enormes livros pastel de vento são paradoxais. Mesmo quando veiculam fotos de comoventes intenções ecológicas, causam severa devastação na cobertura vegetal do planeta. As artes visuais são vítimas frequentes dessas pretensiosas criaturas de papel e tinta. Mas a verdadeira arte e seus critérios de análise aparecem neles em gotas tão homeopáticas e insossas quanto as essências químicas que simulam a baunilha natural. Aperto o botão delete para esses absurdos encadernados.

*Publicado originalmente na #select3.

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