Paulo Bruscky: o artista que escreve

“Sempre fiz o que quis, como quis, onde quis, quando quis. Arte não foi feita para pedir permissão a nada”, vaticina

Márion Strecker
O Que É Arte? Para Que Serve? (1978), registro de ação realizada por Paulo Bruscky na Livraria Moderna, no Recife (Fotos: Cortesia do Artista, Galeria Nara Roesler)

“Sempre fui funcionário público. Faço o que me dá na telha. Já fui preso três vezes. Sou o artista mais recusado do Brasil.” Dito assim, não dá para desconfiar que o autor dessas frases é um renomado artista com 50 anos de carreira, projeção internacional e obras em acervos de instituições como a Tate Modern (Londres), o MoMA (NY), o Guggenheim (Bilbao) e agora também o Centre Georges Pompidou (Paris), onde está com exposição de mais de 100 obras, em cartaz até abril de 2018.

“Não faço obra por encomenda. Vendi minha primeira obra recentemente”, conta o artista pernambucano Paulo Bruscky, nascido em 1949. Desde 2008, ele é representado pela Galeria Nara Roesler. “A edição dos livros e a galeria têm me levado muito para o exterior, isso ajudou bastante na divulgação. Eu nunca tive ansiedade de nada, mas é bom alcançar isso em vida”, disse ele à seLecT, por telefone, na semana em que montava a exposição no Pompidou, com ajuda de sua filha Raíza e um assistente da curadora Catherine David, que estava em viagem.

Poema visual Brasil: dePUTAdo$ (1997)

Bruscky começou a carreira publicando desenhos em jornais, na adolescência, antes de estudar jornalismo. Aos 17, começou a expor e ser premiado em salões de arte. Aos 19, trabalhava em pesquisa no então Instituto Joaquim Nabuco, quando foi preso numa passeata. “Aí me demitiram como comunista”, conta ele, que nunca foi filiado a partido algum, embora tenha enorme preocupação política, muitas vezes expressa em sua obra. O convite virtual de sua exposição no Centre Pompidou é um poema visual sobre desaparecidos políticos, da série Pelos Nossos Desaparecidos, dos anos 1970.

Ele havia participado do movimento poema/processo no fim dos anos 1960. Diz que tem mais amigos da literatura e da música do que das artes visuais. “Eles entendem mais o que faço.”

No começo dos anos 1970, Bruscky tornou-se um expoente da arte postal, que ele prefere chamar de Arte Correio e sempre defendeu como modalidade de arte “antiburguesia, anticomercial e antissistema”. Logo articulou-se com o movimento internacional de arte postal e manteve intensa correspondência com membros dos grupos Gutai e Fluxus. “Arte é feita para circular” é uma de suas máximas.

  • Arte Correio de 1985 com o carimbo Hoje, a Arte É Este Comunicado
  • Arte Correio Silence, Homenagem a John Cage (1993
  • Arte Correio Poema de Repetição (1978)

“A Arte Correio surgiu numa época em que a comunicação, apesar da multiplicidade dos meios, tornou-se mais difícil, enquanto a arte oficial, cada vez mais, acha-se comprometida pela especulação do mercado capitalista, fugindo a toda uma realidade para beneficiar uns poucos: burgueses, marchands, críticos e a maioria das galerias que exploram os artistas de maneira insaciável”, escreveu em texto original de 1976, reeditado inúmeras vezes e disponível no Canal Contemporâneo. “Na Arte Correio, a arte retoma suas principais funções: a informação, o protesto e a denúncia.”

Amsterdam Erótica (1982)

Sem permissão
Bruscky organizou com Ypiranga Filho a 1ª Exposição Internacional de Arte Correio no Brasil, em 1975, no Recife. A 2ª Exposição, no ano seguinte, no edifício-sede dos Correios, foi fechada pela censura. É também dos anos 1970, em plena ditadura militar, sua participação no Salão dos Nus, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, em Olinda. Seus trabalhos eram roupas de mulher jogadas, atiçando a curiosidade do público. Ou então uma foto intitulada Exposição De Uma Pessoa Vestida, Sendo Vista Por Uma Pessoa Nua, Sendo Vista Por Várias Pessoas Vestidas (1978). A foto, claro, trazia uma pessoa nua vendo a imagem de uma pessoa vestida pendurada na parede. “Teve o Salão dos Nus mais de uma vez, mas terminou logo por causa de censura”, diz ele.

Bruscky foi fotógrafo, como o pai, e chegou a ser correspondente fotográfico de uma agência norte-americana. Também manteve uma coluna semanal sobre artes visuais num jornal de Pernambuco. Foi quando cursava a faculdade de jornalismo que o artista prestou concurso para o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Entrou. Uma vez formado, fez concurso para o cargo de técnico de comunicação social. Também passou. E assim se sustentou como funcionário público a vida toda. “Me aposentei como técnico”, conta.

“É por isso que tenho tanto trabalho com coração. Porque, no hospital, fiquei amigo de médicos de várias áreas. Sentimentos: Um Poema Feito Com o Coração, meu eletrocardiograma, de 1976. Venho trabalhando desde 1972 com eletroencefalograma como obra. Isso é uma droga, é um trabalho que fiz com caixa de remédio. Usei radiografia. Fiz trabalhos com poesia visual com coisas de chumbo penduradas no meu corpo. Isso tudo, para mim, foi muito rico”, conta. Como tinha meu emprego para me garantir, sempre fiz o que quis, como quis, onde quis, quando quis. Nunca submeti meu trabalho a nada, nem à censura. Arte não foi feita para pedir permissão a ninguém. Só é arte se ela não se submeter a nada”, afirma.

Além de colaborador da imprensa, Bruscky tornou-se um anunciante sui generis, publicando classificados. Seus anúncios já serviram para procurar edifício que abrigasse a Sede Oficial para Suicídios, anunciar projetos como um Concerto Celulasonial (com sons de 100 celulares tocando ao mesmo tempo), Pintura Bifocal (com pintores e público usando lentes bifocais), Arte Paisagem (10 mil bolas brancas nos arrecifes de Genipabu, RN), Disco Antropofágico (desaparece ao ser tocado) e Air Art (composição de nuvens coloridas para o céu de Nova York).

  • Anúncio classificado publicado no jornal francês Libération sobre o projeto Le Ciel du Pompidou, criado em 2017 durante estada de Paulo Bruscky em Paris
  • Classificado de Máquina Tradutora no Jornal de Anúncios de Recife, 1984

O anúncio de jornal mais recente foi no Libération. O Céu de Pompidou é o nome do projeto. “Foi inventada uma tinta em Londres que você pinta de dia e, quando começa a escurecer, ela vai acendendo. A intensidade é de acordo com o céu estar mais claro ou mais escuro. Vou arrumar um patrocínio, vou pintar toda a área externa do Pompidou e vai ser uma surpresa para o pessoal que fica sentado ali, brincando. Quando for escurecendo, eles vão ver, é brilhoso, fica parecendo um céu, fica luminoso, fica feito um céu de várias cores, o público vai ser pego de surpresa”, contou, entusiasmado.

Tempo à frente da crítica
É em cadernos, que ele chama de Banco de Ideias, que Bruscky vai anotando suas fartas ideias. Algumas ideias ficam no caderno por anos até serem materializadas, como A Plateia, o filme que ele ainda não fez. Outros são projetos que vão se desdobrando no tempo, na geografia ou na forma. Em Paris, em outubro, continuou a criar sua série Dedetizado Contra a Arte, que já tinha feito aparição relâmpago em setembro, durante a última ArtRio. “Eu tô dedetizando monumentos e museus, artistas do passado”, conta. “É uma série grande para uma exposição grande, que eu vou fazer, talvez, no Recife.”

Texto e humor são componentes recorrentes em seu trabalho.

Bruscky também gosta de dissecar e desvirtuar qualquer mídia com que trabalha. Assim desenvolveu uma série de Ferrogravuras, que são gravuras feitas com um ferro de engomar roupas. Ou o Poema de Repetição, em cujo áudio ele repete o título do poema por longos oito minutos. (seLecT expandida: Confira três poemas sonoros do artista).

  • Ferrogravura (1977), gravuras feitas com ferro de engomar roupas sobre papel
  • Ferrogravura (1977), gravuras feitas com ferro de engomar roupas sobre papel
  • Ferrogravura (1977), gravuras feitas com ferro de engomar roupas sobre papel
  • Paulo Bruscky realiza Ferrogravura

 

A expressão Hoje, a Arte É Este Comunicado aparece por uma semana, em 2013, em letreiro do Cinema São Luiz, no Recife, numa ação realizada em parceria com Márcio Almeida (Foto: Márcio Almeida)

A reflexão sobre o que é arte é outro assunto recorrente em sua obra. Hoje, a arte é esse comunicado – esta é uma expressão utilizada em diversos trabalhos de Bruscky, a começar por carimbos em arte postal, inclusive num múltiplo que “descomemorou” os 50 anos do golpe de 1964. A frase também apareceu no letreiro de um cinema no Recife, em 2013, numa parceria com o também artista Márcio Almeida.

Em palestra na ArtRio 2017, Paulo Bruscky disse espontaneamente que, quando começou sua carreira, no Recife, simplesmente não havia críticos em atividade na cidade. A observação soou como o lamento de um artista interessado em interlocução. Ledo engano. No dia seguinte, questionado, Bruscky respondeu que “ainda bem” que não havia críticos para atrapalhar. Em trabalho de 1978, ele reuniu numa caixa antiga muitos pares de óculos igualmente antigos, com o rótulo O Olhar dos Críticos de Arte. Soa uma provocação, para ressaltar que os artistas vivem num tempo à frente da crítica.

Hoje, Bruscky acumula uma obra imensa, criada com técnicas e materiais tão variados quanto cartões e cartas, carimbo, fotografia, vídeo, xerox, fax, jornal, CD, livro, performance e instalação, para citar algumas. Coisas encontradas na rua também servem como material. “Arte, para mim, é uma forma de ver, não só de fazer”, diz ele, que já assinou descartes encontrados em caçambas de lixo.

O artista em seu ateliê no Recife; atrás dele, sua obra Alto Retrato (1978), fotografia.

 

Ele mantém no ateliê, no Recife, uma coleção estimada em 70 mil itens, entre trabalhos próprios e outros. É dele a maior coleção de arte postal do Grupo Fluxus existente na América do Sul, por exemplo. Esse arquivo pôde ser visto durante a 26ª Bienal de São Paulo, em 2004, sob o nome O Ateliê Como Arquivo. A experiência foi traumática para o artista. “Foi o ateliê todo para a Bienal, piso, móveis, tudo. O vazio e a solidão foram grandes. Eu não quero mais passar sem o meu eu por nenhum período.”

Um projeto, já apresentado duas vezes ao Itaú Cultural e ainda sob análise, é a digitalização do seu fabuloso arquivo.   

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