Pedro Moraleida é bem maior do que a polêmica de sua obra

Exposição na galeria Janaina Torres, em São Paulo, apresenta facetas menos conhecidas da trajetória do artista

Juliana Monachesi

Publicado em: 02/04/2022

Categoria: Da Hora, Destaque

Pedro Moraleida - Fluxos Plenos de Desejo

O artista mineiro Pedro Moraleida (1977-1999) ganhou os holofotes da turma artsy paulistana na ocasião da mostra retrospectiva Canção do Sangue Fervente (2019), no Instituto Tomie Ohtake, “onde caímos de joelhos diante da magnitude de trabalhos que compõem sua obra maior, Faça Você Mesmo Sua Capela Sistina”, nas palavras de Ricardo Resende, que assina a curadoria da exposição que abre hoje na Galeria Janaina Torres, intitulada Pedro Moraleida – Fluxos Plenos de Desejo.

A obra de arte total do mineiro, que foi mostrada na íntegra em 2017 na Fundação Clóvis Salgado, em Belo Horizonte (em sua Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard), e teve uma parte significativa exposta no Tomie Ohtake dois anos depois, foi produzida voraz e freneticamente no intervalo de apenas dois anos, do final de 1997 a 1999, ano de sua morte prematura. A dinâmica avassaladora de criação por parte de Moraleida não se restringe ao volume de produção: está presente nas grandes dimensões de muitas de suas obras, na verborragia de cores que o artista ousa combinar com liberdade ímpar, na destreza que empenha para concatenar texto e imagem, e na absoluta insubordinação retórica de seu escritos (sejam estes parte da composição de suas pinturas e desenhos, ou encarnações discursivas em forma confessional, filosófica, de manifesto, de teoria… Moraleida é uma artista total: escritor, músico, pintor, arquiteto da própria Capela Sistina). 

Sem Título – Ave Quadrúpede (Série Amebóide)

A primeira exposição individual do artista mineiro em uma galeria de arte em São Paulo concretiza um processo de oito anos de relação e trabalho entre a Galeria Janaina Torres e a família Moraleida Bernardes. Desta parceria entre a galerista e os pais de Pedro já resultaram diferentes projetos de difusão, catalogação e publicações. “Depois de oito anos trabalhando juntos, sentimos que é o momento de fazer uma exposição na galeria, com o intuito de democratizar o acesso à obra do artista e, principalmente, posicioná-la em coleções institucionais relevantes”, conta Torres.

Na seleção de cerca de 100 obras pelo curador Ricardo Resende, escolhidas dentro de um universo de quase 2 mil trabalhos deixados pelo artista, o visitante encontra facetas menos conhecidas da vasta pesquisa de Moraleida, como as séries Primitiva, Corpo sem Órgãos, Paisagens, Mulheres, O Deslocamento dos Artistas, Deuses, Desenhos com Letras, Amebóide e a série Angústia. “Ricardo decidiu mostrar outras séries, que evidenciam a complexidade dessa produção, ou seja, revelam que a trajetória desse artista não se restringe à escatologia ou à pornografia, como mutias vezes seu trabalho é rotulado”, afirma. A galerista sublinha, inclusive, a importância de “ler Pedro Moraleida” para além das polêmicas, uma vez que mesmo nas obras “escatológicas” existe um deliberado enfrentamento da apatia dominante à sua volta. “Ele construiu um projeto intencional de derrubar o conservadorismo e o moralismo disfarçados de liberalismo que via nas esferas social, política e no sistema das artes”, defende.

Deusa da Gargalhada (Série Deuses)

De acordo com Ricardo resende, “Pedro Moraleida é um artista que poderíamos chamar maldito ou iconoclasta. Sua obra não tem vergonha de ser escatológica, nem de ser a disrupção de si mesma. Sua verve é passível de reconhecimento somente após a morte. Seja por uma maldição, pela língua afiada ou ainda pela ‘insujeição’, como o próprio Pedro Moraleida escreveu, ele figura no grupo especial dos artistas que são descobertos tardiamente, geralmente, quando já não oferecem mais ‘perigo’. Tal qual Bispo do Rosário e Hudinilson Jr. Poderíamos incluir ainda outros, como Leonilson, nesse grupo de artistas – pois, felizmente, existem iguais.  A potência de suas obras viram casos de assombro. Ninguém esperava por Bispo do Rosário, no final dos anos 1980. Foi puro espanto e continua assombrando hoje”. 

Galeria Janaina Torres (Rua Vitorino Carmilo, 427, Barra Funda); abertura 2/4 das 11h às 17h, com visita guiada pelo curador às 16h; em cartaz até 26/5

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