Perfeito carioca

Uma das figuras centrais do Modernismo nacional, Di Cavalcanti ganha exposição que evidencia seu papel na criação do imaginário brasileiro

Camila Régis
Bailarina de circo, óleo sobre tela, 1938 (Foto: Divulgação)

“Ser um autêntico carioca é possuir a dignidade de existir sem ambições supérfluas. É bastar-se a si mesmo, na certeza de ser um privilegiado do destino. Deus deu o alimento sonho ao carioca”, escreveu Emiliano Di Cavalcanti. Um dos grandes nomes do Modernismo brasileiro e agente importante para a Semana de Arte Moderna de 1922, o artista, criado em São Cristóvão, tomou o cenário suburbano fluminense, o samba, o carnaval e as mulheres como temas de seus trabalhos. Escreveu sobre a cidade no livro Reminiscências Líricas de um Perfeito Carioca – publicado em 1964, por ocasião do quarto centenário do Rio de Janeiro –, no qual fala do “alimento sonho”, e pintou cenários que mais tarde seriam consagrados pela historiografia como símbolos da brasilidade. Parte dessa produção dedicada à sua terra natal, entre outras obras, integra a mostra Di Cavalcanti – Conquistador de Lirismos, na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo.

Responsável por outras quatro exposições sobre o artista, entre elas a mostra do centenário de Di, em 1997, a curadora Denise Mattar selecionou cerca de 50 obras produzidas entre 1925 e 1949. As datas foram demarcadas, segundo Mattar, devido à relevância desses anos na trajetória do pintor. “Quando ele participa da Semana de 1922, seu trabalho está mais vinculado à caricatura do que às artes plásticas. Em 1923, ele vai à Europa e isso muda a visão sobre seu próprio trabalho. Dois anos depois, volta ao Brasil e começa a fazer o que conhecemos como Di Cavalcanti. Ele escolhe como tema o povo”, explica em entrevista à seLecT. Em 1949, o artista estreita laços com muralistas mexicanos, o que muda radicalmente sua produção. Essa quebra marca justamente seu retorno ao Rio de Janeiro e fim do ciclo de 24 anos escolhido por Mattar.

Dividida em eixos temáticos que não seguem necessariamente uma cronologia, a mostra tem como traço marcante elementos intimamente interligados na história do pensamento social brasileiro, como raça, miscigenação, identidade nacional – e, de certa maneira, a relação desses aspectos com o regionalismo carioca. O período de datação das obras deixa essa característica mais evidente, já que a preocupação com a formação “de um povo brasileiro” torna-se mais pulsante entre meados do século 19 e o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas. Nesse sentido, o conjunto de obras ganha um caráter essencialmente político, criado por quem observa um Brasil (e por associação, um Rio) popular, gigantesco e mestiço. “O Rio de Janeiro do Di Cavalcanti não é a zona sul”, finaliza a curadora.

Serviço
Galeria Almeida e Dale
Rua Caconde, 152, Jardim Paulista, São Paulo
Até 28 de maio
De segunda a sexta, 10h às 18h; sábado, 10h às 14h
(11) 3887-7130

 

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