Perspectivas do colecionismo de arte contemporânea no Brasil

Nei Vargas analisa as instituições privadas Inhotim, Fundação Vera Chaves Barcellos, Instituto Figueiredo Ferraz e Usina de Arte

Leandro Muniz
A Usina desativada de Santa Terezinha, no município de Água Preta, na zona da Mata Sul de Pernambuco (Foto: Andrea Rego Barros)

O que têm em comum a Fundação Vera Chaves Barcellos (Viamão, Rio Grande do Sul), o Instituto Figueiredo Ferraz (Ribeirão Preto, São Paulo), Inhotim (Brumadinho, Minas Gerais) e a Usina de Arte (Santa Teresinha, Pernambuco)? As quatro instituições brasileiras foram formadas a partir de coleções privadas, tendo como norte a vontade de dar acesso público a trabalhos de arte contemporânea, em cidades fora dos eixos hegemônicos da arte no Brasil. Para saber mais sobre as estratégias de formação de público, construção de relações com suas comunidades e a perenidade desses espaços, a revista seLecT conversou com o historiador Nei Vargas, que atualmente conduz a pesquisa de doutorado Perspectivas do Colecionismo de Arte Contemporânea no Brasil pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRGS, com orientação de Maria Amélia Bulhões.

O pesquisador Nei Vargas (Foto: Gilberto Cardoso)

Qual a sua formação e como decidiu pesquisar instituições formadas a partir de coleções particulares?
No mestrado, entre 2006 e 2008, eu estudei o que chamei de estruturas emergentes do sistema da arte – que no final dos anos 1990 para os anos 2000 eram os museus atrelados a corporações bancárias, como o Itaú Cultural e os CCBBs – e também dois agentes importantes que se fortaleceram, os curadores, na elaboração da conceituação das exposições, e os produtores culturais, responsáveis pela burocracia e execução dos projetos. Tentei entender como eles contribuem no desenvolvimento da carreira de artistas e, desta forma, do próprio sistema da arte. Essa análise foi feita sob a perspectiva conceitual das relações sistêmicas da arte, que inserem e legitimam a produção artística. Minha orientadora é a Maria Amélia Bulhões, que na academia brasileira foi a primeira pessoa a pesquisar esse assunto, concebendo o conceito de sistema da arte na sua tese de doutorado, defendida em 1990 na FFLCH-USP.

No doutorado, seguindo essa mesma lógica de olhar para o passado recente, observei no campo da arte aquilo que passava a se destacar nos processos de legitimação institucional da produção artística. Identifiquei que desde meados de 1980, teve início um fenômeno no panorama institucional, podendo tomar a Saatchi Gallery como ponto de partida, que é a institucionalização de coleções privadas de arte contemporânea. Há um estudo da Larry’s List, agência de produção de conteúdo sediada em Hong Kong, que produziu um relatório em 2014 apontando mais 300 instituições no mundo vinculadas a colecionadores. No Brasil, na arte contemporânea, esse cenário se dá a partir de quatro instituições: Inhotim, Usina de Arte, o Instituto Figueiredo Ferraz e a Fundação Vera Chaves Barcellos. 

Fundação Vera Chaves Barcellos (Foto: Reprodução)

O que aproxima e o que diferencia essas instituições?
Estou estruturando a análise destas instituições a partir de duas linhagens distintas, sendo uma formada pela Fundação Vera Chaves Barcellos e o Instituto Figueiredo Ferraz e outra por Inhotim e a Usina de Arte. As políticas, o funcionamento e as lógicas entre elas guardam muitas similaridades, evidentemente com escalas distintas. No entanto, olhar para essas instituições faz com que seja necessário entender as pessoas que estão por trás delas e como elas constituem suas coleções. 

A Vera Chaves Barcellos é uma artista de trajetória consagrada, com participação em Bienais, como a de Veneza e de São Paulo, e mostras individuais em diversos países. Ao longo de sua carreira, constituiu um acervo baseado em trocas e procedimentos comuns a artistas. Além disso, ela passou a adquirir trabalhos que foram agrupados junto às suas obras e de seu companheiro, o artista chileno Patrício Farias. 

João Figueiredo Ferraz iniciou a coleção, como ele mesmo fala abertamente, e motivo que não é raro entre colecionadores, para decorar sua casa. Começou no início dos anos 1980 adquirindo obras de artistas e segue até hoje, complementando com outros tantos, que resultaram em uma das mais importantes coleções representativas da arte contemporânea produzida no Brasil. 

Ambos têm processos curatoriais que apontam para algumas semelhanças na gestão das instituições. Há aproximações no debate conceitual proposto por exposições, nas estratégias como inserem suas coleções em outras instituições e na forma continuada que seus projetos educativos são realizados. 

Já Inhotim foi fundada por Bernardo Paz, que se desfez de sua coleção modernista para constituir um acervo de arte nacional e internacional, inserindo o Brasil no mapa mundi do cenário institucional das artes. 

Visitantes no Inhotim caminham em direção ao penetrável Magic Square, de Hélio Oiticica (Foto: William Gomes)

A Usina de Arte é conduzida pelo casal Bruna e Ricardo Pessôa de Queiroz, em Água Preta, inspirada na lógica de Inhotim. O processo da Usina é um pouco distinto das demais, por tratar-se de uma coleção que vai sendo constituída ao mesmo tempo em que a própria instituição vai sendo formada. 

O que me interessa observar é o que considero o maior desafio de quem abre uma instituição cultural: resolver a difícil equação que soma o desejo de contribuir com as tensões causadas pelas mudanças culturais que geram em suas comunidades. Ninguém cria instituições como estas sem um desejo genuíno de construir algo importante e renovador, mas as políticas de implantação e funcionamento nem sempre se revelam profícuas, gerando certo desconforto em suas comunidades. Existe uma diferença entre o que é a arte em si, seu poder transformador, seus processos de reflexão e produção de sentidos, e a forma como uma instituição se organiza para criar novos contextos a partir dela. 

Qual seria o perfil dessas coleções? Em Inhotim há obras monumentais de forte apelo fenomenológico, na Fundação Vera Chaves Barcellos existe uma coleção marcadamente conceitual, enquanto O IFF parte de uma produção dos anos 1980 para cá.
A Vera Chaves Barcellos tem uma coleção com artistas nacionais e internacionais, mas o foco tem sido mais local/regional. Nos últimos tempos, ela passou a adquirir espólios de artistas, como o de Cláudio Goulart, gaúcho falecido em Amsterdã em 2005. Ela também apresentou o trabalho de Sílvio Nunes Pinto em 2016, que foi seu funcionário, tinha pouca formação, mas produziu uma coleção excepcional que transita entre artesania e design, com certa influência dadaísta e surrealista. E outros espólios já estão em tramitação, despontando seu diferencial das demais instituições.

João Figueiredo Ferraz, como mencionado, aposta na constituição de um importante acervo de arte produzida no Brasil, embora tenha um pequeno percentual de artistas internacionais. Vejo como destaque sua sagacidade para identificar uma reverberação concreta e neoconcreta na arte contemporânea, o que ficou bastante evidente na exposição de sua coleção no Mube em 2019.

Quando Inhotim traz Jochen Volz ou Allan Schwartz, ele está se posicionando em um contexto internacional, o que é importante como estratégia de visibilidade para a dimensão que Bernardo Paz pretende alcançar. Nossa produção é de extrema qualidade, mas talvez não fosse possível ser uma instituição com reconhecimento internacional só com artistas brasileiros. Como há o grande problema legal, tarifário e de transporte, o colecionismo no Brasil é majoritariamente de arte produzida aqui, com raras exceções. Isso restringe a ampliação de um diálogo entre a produção nacional e a produção internacional, mesmo considerando toda a facilidade de acesso que se tem atualmente. Além disso, Inhotim acaba sendo praticamente a única instituição a oferecer arte contemporânea internacional. 

No caso da Usina de Arte, a coleção apresenta tanto artistas da região com posicionamento nacional, como é o exemplo de Paulo Bruscky e José Rufino, quanto acena para uma tomada internacional com o trabalho de Carlos Garaicoa, cubano radicado na Espanha. Assim como Inhotim, a Usina amplia seu acervo comissionando obras e as dispõe em um ambiente integrado à natureza, constituindo duas coleções: de arte contemporânea e de botânica. Uma importante atitude tomada pela Usina de Arte é o reflorestamento de seu entorno, buscando recuperar as origens da Mata Atlântica antes da produção de cana de açúcar e alterar o microclima da região. 

Em que medida essas instituições se tornam públicas? Tanto no sentido da visitação e da exibição, quanto do ponto de vista patrimonial, pensando sobre estratégias para que o projeto exista a longo prazo, para além de seus fundadores.
Começamos falando de como são instituídas juridicamente. Das quatro instituições analisadas na tese, a única que oferece perenidade e se organizou para o futuro é a Fundação Vera Chaves Barcellos, porque é uma fundação. Juridicamente, fundações estão ligadas a patrimônios. Associações com ou sem fins lucrativos estão associadas a pessoas que instituem algo, o que é frágil do ponto de vista de perenidade. Quando a Vera Chaves criou sua Fundação, doou a ela um patrimônio constituído do terreno, da edificação e da coleção, bem como um fundo que pode-se chamar de endowment a ser usado no futuro. Vera mantém com seus recursos a Fundação, não usa Lei Rouanet e só recorreu a editais públicos no Prêmio Marcantonio Vilaça para aquisições. 

As outras três instituições são diferentes por não oferecerem garantias de que irão existir para sempre, embora tenham a magnitude que têm. Primeiro por seus estatutos jurídicos, pois associações podem se dissolver na medida que as pessoas querem ou falecem, agravando-se com todas as questões implicadas no direito de sucessão. O Figueiredo Ferraz afirmou em entrevista a mim que garante a existência do Instituto enquanto estiver vivo e depois os filhos decidem. Na Usina de Arte esse é um assunto novo pois eles ainda estão envolvidos com o presente. 

Vista da exposição Abertura 1980 no Instituto Figueiredo Ferraz. (Foto Maurício Froldi)

Há um outro problema contido na sua segunda pergunta que agora volta para tratar do caráter público da relação entre essas instituições e suas comunidades. Inhotim e a Usina possuem características muito distintas das outras duas, pois nascem em uma lógica de ocupação espacial aberta, podendo ser analisadas como museus de territórios. Elas surgem com projetos sociais relevantes, mas deveriam ter sido constituídas com bases mais sólidas com as comunidades a elas diretamente ligadas. A comunidade de Brumadinho recorreu ao Bernardo Paz, no fim dos anos 2000, para reivindicar uma participação mais efetiva na Instituição. Ele tentou implementar estratégias que ampliassem essa participação, mas nem todas foram bem sucedidas. Inhotim vem de uma série de episódios recentes que desgastaram sua imagem, como o processo que envolveu Bernardo Paz ao escândalo do Panamá Papers e o episódio do pagamento de dívidas ao fisco estadual com obras de arte. Com o rompimento da barragem no começo de 2019 e o fim das atividades da Vale, Brumadinho acabou se tornando quase que completamente dependente de Inhotim, que de segunda passa a ser a primeira empresa empregadora da região. Quando Renata Bittencourt entra na direção executiva, uma de suas primeiras atitudes é oferecer um passe gratuito e permanente a todos os moradores da cidade, antes restrito às quartas-feiras, o que provoca de forma imediata uma mudança na relação com a instituição. Vejo a presença da Renata como um divisor de águas em Inhotim (confira entrevista da diretora à seLecT). Acompanho sua trajetória e acredito que é uma pessoa que tem muito preparo para reorientar uma instituição a partir dos enfrentamentos pelos quais passa Inhotim.  

A Usina Santa Terezinha, da família de Ricardo, foi uma das empresas do ramo usineiro que entrou em falência nos anos 1980. Como a comunidade local era totalmente dependente da empresa, o fechamento da Usina fez com que a cidade perdesse sua principal fonte de renda. Depois do casamento e uma visita a Inhotim, o casal fundador percebe a possibilidade de fazer algo semelhante vocacionando o espólio da família em uma instituição capaz de rearranjar a economia local, trabalhando a partir da chave do empreendedorismo cultural. No entanto, você imagina chegar um conjunto de obras de arte e ações de produção cultural, como o Festival de Arte na Usina, apartadas do cotidiano das pessoas. Ao mesmo tempo em que isto é profundamente positivo e já começa a acumular bons resultados, gera o desafio a seus fundadores de criarem formas de diálogo e compreensão da comunidade a respeito do que está sendo oferecido a elas. Percebo que, de formas e motivações distintas, a Usina e Inhotim estão se propondo a resolver esta equação e espero contribuir de alguma forma com a tese.  

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