Pessoas que não sabem usar o celular

Bombril do século 21, o celular tem 1001 utilidades, mas não é penico, minha gente! Aprenda a usar ou cale-se para sempre

Emília Vandelay

N° Edição: 7

Publicado em: 09/09/2012

Categoria: A Revista, Crítica

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Ilustração: Maya Mesina

Dia desses estava eu no D.O.M para saborear os hypados pratos de Alex Atala. E me irritei. As pessoas pagam uma fortuna para comer lá, mas deixam a comida esfriar, pois têm de fotografar os pratos e imediatamente postar tudo no Instagram. Acho um tédio ficar vendo minha timeline no Facebook entupir de comida, seja lá a hora que for. Outro dia acordei com uma panturrilha de porco, do restaurante do Eder Santos, estampada na minha tela. Tenha dó!

Como se não bastasse, todos atendiam telefonemas, entre um post e outro, e respondiam com um “alô” de altíssimos decibéis, interrompendo minha linha de raciocínio para adivinhar os temperos exóticos de minha minilula cozida ao creme de beterraba.

E essas pessoas que sempre, mas sempre, precisam fazer aquela derradeira ligação, antes de o avião decolar, para avisar que está no jato e que este está prestes a decolar? São as mesmas que, tão logo o avião pousa, ligam desesperadamente o aparelho – apesar dos avisos para mantê-lo desligado até o lobby – para fazer aquela ligação inaugural pós-voo e dizer “o avião já pousou, estou indo buscar a minha mala”. Parece que, para alguns seres, o celular é um dispositivo de narração passo a passo da vida, como se a sua existência precisasse de legendagem simultânea.

Tudo bem. O celular é uma espécie de Bombril do século 21 e tem 1001 utilidades. Entre tantas outras, a de ser um ótimo player de música. Mas pessoas com complexo de hub, que ouvem música no último volume, são insuportáveis. E os que perguntam “de onde falam?”. Erram no português e na etiqueta mais básica da cultura da mobilidade. Como assim de onde “falam”? Do meu carro, da cama, de um precipício… E só uma pessoa por vez pode usar um mesmo aparelho, energúmeno. Agora, aquele tipinho que liga trocentas vezes por engano no seu celular e não se conforma que está com o número errado merecia uma solitária como a dos filmes americanos. Alguns dessa espécie, aliás, têm um componente raivoso que vai crescendo em equivalência ao inconformismo com o fato de você não ser o Pedrão, e sim a Emília… Medo.

Pode ser meio antiquado, mas não me acostumo com gente que usa fone de ouvido com microfone para atender o telefonema. Sempre acho que alguém está em meio a um surto esquizofrênico do meu lado até eu entender que a pessoa está no telefone. E quando falam gesticulando? O problema é que eu acho que estão falando comigo e quem acaba falando sozinha sou eu.

Tem também essa praga da humanidade 2.0 que assola banheiros públicos. Você está ali, no auge das tarefas íntimas, e, de repente, é assombrado por vozes do além que, entre descargas e torneiras alheias, não se constrangem de brigar com os namorados, passar a lista do supermercado para a empregada e até fechar negócio!

E sabia que 4% das pessoas usam celular fazendo sexo? Sério! Eu ficaria mais satisfeita se soubesse que é algum aplicativo que transforma seu multitudo em vibrador. Mas não, é gente que só pensa naquilo. Digo, no celular.

Para encerrar. A pior: mulher em estado de clemência, fazendo inalação no PS, entre uma aspirada e outra, estrebuchando, fala ao celular. Cuidado, você pode morrer assim…

*Publicado originalmente na #select7.

*Emília Vandelay é formada em jornalismo pela Unisinos, cursa o Master of Arts Program in Cinema Studies na Universidade de Toronto, Canadá.

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