Pintura dialética

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 07/05/2014

Categoria: Crítica, Review

Bruno Dunley não se prende a fórmulas e busca equilíbrio entre racionalidade e instinto em trabalhos de produção recente exibidos na Galeria Nara Roesler

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Legenda: O artista de 30 anos entre telas que estarão na mostra, com abertura nesta quinta

Em sua pintura, Bruno Dunley está sempre em busca do equilíbrio entre a razão e o instinto, sem evitar a beleza. “A pergunta é: que beleza é essa? Não há aqui um padrão, uma forma pré-estabelecida”, ele diz. De fato, nas telas que apresenta na Galeria Nara Roesler (veja galeria de imagens), a beleza surge de movimentos insuspeitos e do desconforto, na desarmônica elegância que se vê em cada peça, geralmente distinta em forma das que a circundam.

Seu trabalho ganha mais consistência na mesma medida em que abandona certezas da pintura ao longo da História da Arte. “Estou sempre me colocando em relação com essa trajetória. Retomo questões e tento compreendê-las da minha forma, trazer isso para os trabalhos.”

Daí sua pintura ser dialética, tensa, em constante embate com o passado mas também com a atualidade, numa tentativa “de colocar uma visão não só da arte, mas do mundo em que vivemos”.

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Legenda: Obra sem título, realizada neste ano (foto Everton Ballardin — © Galeria Nara Roesler)

A inteligência da pintura de Dunley está na eficiência com que seus procedimentos – grossas camadas de tinta superpostas e trabalhadas; contraposição de geometria, figuração fugaz e abstração gestual; recente uso da cor – usam e ao mesmo tempo recusam a sintaxe própria de seu gênero. “Nossas relações com o mundo, e também com a pintura, são mediadas por signos pré-estabelecidos, por códigos já existentes.” Ele parece procurar novas formas de lidar com esses códigos estanques.

Para o espectador, as obras vibram sozinhas e em conjunto, deixando claro o caráter não taxativo e a indagação diante de um mundo que assiste ao desmantelamento de verdades absolutas. “Eu sempre me pergunto para onde estou caminhando com meu trabalho. É algo que vou descobrindo ao longo do processo e, mesmo quando chega a algum lugar, não tem uma resposta definitiva.” 

Mesmo seu Chroma Key, que é “por excelência o plano que aceita, que absorve qualquer imagem”, subverte completamente essa noção na superfície verde sutilmente esgarçada por pontos escuros de um subplano, em sua materialidade ao mesmo tempo vigorosa e corrompida.

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Legenda: A obra Chroma Key, subversão do plano que absorve qualquer imagem (foto Everton Ballardin — © Galeria Nara Roesler)

Essa inconclusão, evidente nas decisões tomadas para depois serem corrigidas, nas falhas dos monocromos, na negação da exclusividade temática, é o que conecta o artista de 30 anos a seu tempo e ao ser humano, dividido entre o que pode ou não controlar, entre a razão e o desejo.

Por meio de sua obra, Dunley sugere uma alternativa ao modelo assertivo do mundo globalizado. Na tentativa orgânica de escuta desses dois hemisférios, não há conforto, não há definição de cânone ou resposta conciliatória. Mas há beleza, uma outra beleza.

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