Pintura para Nelson Leirner

Pequena homenagem ao artista e professor, falecido aos 88 anos, em 7/3, no Rio

Paula Alzugaray

Publicado em: 09/03/2020

Categoria: Da Hora, Destaque

O artista Nelson Leirner Foto: Paula Alzugaray)

Primeiro dia de aula. Nelson Leirner entra na sala, amassa um maço de cigarro, coloca-o sobre a mesa e pergunta: “Isso é arte?”. Estamos em algum momento dos anos 1980, talvez duas décadas depois do artista ter enviado para o júri do Salão de Arte Moderna de Brasília um porco empalhado e ter questionado publicamente, em texto publicado no Jornal da Tarde, os critérios que levaram o júri a aceitar tal obra. A pergunta é colocada para uma classe de estudantes do segundo ou terceiro semestre do curso de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo. “Ficava aquele silêncio e qualquer coisa que a gente respondesse, ele dizia o oposto. Se a gente falasse que era arte, ele dizia que não, que era um maço de cigarro, que era lixo. E se a gente dissesse que não, ele dizia que claro que era arte, porque ele tinha decidido que era arte. E ainda colocava mais problemas, questionando: ‘Tudo o que um artista velho de barba branca diz que é arte, é arte?’ E a gente saía com essa duvida na cabeça”, conta a aluna Dora Longo Bahia.

O Porco (1967), de Nelson Leirner, enviado ao 4º. Salão de Arte Moderna de Brasília e aceito (Foto: Isabella Matheus)

Aula de Desenho 4 ou Desenho 5. Leda Catunda, na sala de aula. Os alunos fazem os exercícios propostos durante cinco aulas seguidas. Na quinta sessão, ele pergunta para a classe: “Por que vocês fazem tudo o que falo? O que que são esses desenhos?!”. Na hora da avaliação, ele diz pros alunos colocarem os desenhos em uma pasta e empilharem as pastas sobre a mesa. E pergunta: ‘O que vocês acham que parecem essas pastas aqui?’. Alguns alunos dizem que é arte, outros dizem que são exercícios… e ele diz: ‘É lixo. Se vier a moça da limpeza, vai levar embora’”, conta Leda Catunda. “Ele primeiro acabou com a gente, depois propôs que nós nos déssemos notas. Aí perguntou: quem acha que merece cinco? Quem acha que merece seis? Eu não falei até a hora que chegou no nove! Muitos alunos saíram chorando”, conta Leda Catunda.

Nelson Leirner deu aulas de pintura, escultura, modelagem, desenho, análise e técnica de materiais expressivos. Mas para Leda Catunda, ele introduziu a performance. Para Dora Longo Bahia, a dialética. Eu me arriscaria a dizer que, para mim, ensinou a crítica.

Tive com Nelson Leirner aulas de pintura, nas quais ele nunca me deixou pintar. Não havia sombra de tranquilidade ao encontrar Nelson Leirner. Era um desafio após o outro, até termos desconstruídas por completo qualquer pálida convicção que pudéssemos ter do mundo ou de nossas próprias ideias. Mas Nelson Leirner é o único professor de quem sempre lembro.

Muitos anos depois, fui encontrá-lo na rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico. Ele faria 80 anos, em janeiro de 2012 e eu produzia o primeiro número da revista seLecT (leia matéria sobre o artista). Ele tinha que estar presente no número 01, que levantava a bandeira do “Abaixo a originalidade”. Nelson Leirner foi o primeiro artista brasileiro a sistematizar o trabalho com a prática de apropriação de objetos do cotidiano e a desestigmatizar a noção de cópia ou plágio. Seu primeiro gesto nesse sentido foi a série Apropriações (1962), formada por assemblages de objetos recolhidos em caminhadas pela cidade. Depois viriam as homenagens a Duchamp e as apropriações de Monalisa a Yayoi Kusama.

  • Quadro a Quadro - Cem Monas (2012), de Nelson Leirner (Foto: Beatriz Cunha)
  • O Anjo Exterminador (1984 - 2014), de Nelson Leirner (Foto: Cortesia Galeria Silvia Cintra + Box 4)
  • Stripencores (2009), de Nelson Leirner (Foto: Edouard Fraipont)
  • Adoração (1966), de Nelson Leirner (Foto: Cortesia Galeria Silvia Cintra+Box4)
  • Boetti Descontruído (2018), trama de lã de Nelson Leirner (Foto: Divulgação)
  • Nelson Leirner - Cem Monas (Foto: Divulgação)
  • Construtivismo Musical (2011), de Nelson Leirner, no estande da Galeria Silvia Cintra + Box 4

Naquele almoço memorável no bistrô em frente à sua casa, tive com ele longa conversa, que seria compilada na matéria “Quero ser Nelson Leirner” – uma apropriação do título da exposição realizada na Casa da Xiclet anos antes, em 2002. “Foi uma das maiores emoções que tive”, me contou Nelson. “Eu me tornei um trabalho naquele momento. Se eu fosse receber uma medalha de honra ao mérito no Palácio do Governo, não ficaria tão emocionado nem tão eufórico como me marcou essa homenagem da Xiclet”.

Desde então, Nelson se tornou um leitor atento e fiel do meu trabalho como editora de revista. Ele, que foi o visionário autor da “Banca de Jornal” (2008), antecipando o fenômeno da derrocada das bancas e da banalização da informação com uma instalação que reproduzia um quiosque repleto de quinquilharias – em vez de jornais e revistas –, veio a implicar logo com o excesso de ‘movimento das páginas’ do projeto gráfico e editorial da seLecT dos primeiros anos. Quanto mais crítico, melhor, pensava eu, sobre os comentários de Nelson Leirner. Sem colocar em xeque toda convicção e o valor das coisas, de que valeria continuar produzindo uma edição após a outra?!

Desde aquele dia, meu professor, implacável, nas visitas que lhe fiz em casa ou nas vernissages de suas exposições, passou a me questionar sempre por que, afinal de contas, eu havia parado de pintar, já que era uma ‘excelente pintora’?!!!

Paulistano, nascido em 1932, Nelson Leirner foi professor da Faap, de 1977 a 1997, quando se mudou para o Rio de Janeiro para coordenar o curso básico da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, até 1998. Dentro ou fora da sala de aula, foi mestre e mentor de várias gerações de artistas brasileiros. Seu impulso iconoclasta destruía tudo. Mas, contraditoriamente, Leirner tornou-se um mito. Uma espécie de repetição de sua instalação Adoração (Altar para Roberto Carlos), de 1966.

Alunos e artistas envelhecem. Nelson Leirner nunca.

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