Poder é fetiche

Reinaldo Lourenço desfila em preto, branco pedra e vermelho rubi sua coleção inspirada na solenidade das catedrais

Paula Alzugaray

Publicado em: 23/01/2012

Categoria: Crítica, Da Hora

Cinematográfico, o primeiro look do desfile da coleção Outono/Inverno 2012 de Reinaldo Lourenço nos situa em relação as intenções do estilista: estamos na Rue du Jour, na porta da igreja de Saint-Eustache. É domingo de chuva em Paris, hora de missa, o órgão da igreja toca seus primeiros acordes. O luxo e o rigor do estilismo de Reinaldo Lourenço nos faz, efetivamente, acreditar nesse cenário. As primeiras peças em desfile, inteiramente negras (total black, no jargão da moda), destacam, em materiais foscos e brilhantes, o que o estilista sabe fazer como poucos: desenhar curvas inusitadas no corpo feminino.

Rapidamente reconhecemos nos tailleurs acinturados e na ênfase dada à estrutura dos ombros, elementos da alfaiatara dos anos 80. E lembramos que esse é um estilo familiar a Reinaldo Lourenço que, efetivamente, se lançou em 1984. A essa década, portanto, ele recorre com frequência. Dessa vez, a década do rock e de Blade Runner é evocada em conciliação com a estética gótica medieval, outro território favorito não só de Lourenço, mas também de Gloria Coelho. O gótico de fato funciona com anos 80 – The Cure e Siouxie que o digam. No desfile, o uso de botinhas de roqueiro com saias transparentes de crepe georgette funciona tão bem quanto a fusão do órgão gótico com uma bateria industrial, na trilha sonora.

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Abertura do desfile de Reinaldo Lourenço na Faap (Foto: Xinhua/Weng Xinyang)

 

Na seqüência da apresentação, quando cessa o negro, entra em cena a luminosidade do branco (off-white, ou “pedra”), que faz a base de uma estamparia pra lá de fina e delicada, que remete aos vitrais das catedrais. E sob o brilho sutil de minúsculos cristais coloridos, bordados sobre as estampas, as modelos vestem sapatos de strass vermelho! Tudo isso entre capas de príncipes, capuzes de frades e bolsinhas de mão que remetem à porta-incensos.

No set final do desfile, a cena muda. O mistério das figuras que oscilavam entre espiãs da era Blade-Runner ou autoridades religiosas, dá lugar ao exibicionismo de peças em vermelho rubi, cravejadas de pedras brilhantes. Agora as mulheres vestidas por Lourenço parecem mais altos cargos militares – ou esposas deles –, de tantas credenciais que ostentam. E isso faz-nos pensar: por que a moda tem sempre que reafirmar seu comprometimento com a cena do poder? Por que poder é fetiche, na cultura fashion.

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