Poder sobre a terra

A artista Renata Peixe-Boi expande o conhecimento sobre ecofeminismo e plantas alimentícias não convencionais

Luana Fortes

N° Edição: 46

Publicado em: 18/05/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Mesa preparada por Renata Peixe-Boi para oficina no Labverde (Foto: Gui Gomes)

Em um post no Instagram, a artista e educadora amazonense Renata Peixe-Boi compartilha uma imagem que mostra uma planta emparedada entre uma rua e um muro de concreto. “Comida no cimento” é a legenda. Estudante de Agroecologia no Instituto Federal do Amazonas (Ifam), Renata atua nos meandros entre a arte e a educação, procurando difundir o conhecimento a respeito das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) e o que representa o ato de saber mais sobre alimentação autônoma. Tendo em vista a lógica industrial da produção alimentícia hoje no Brasil, os artifícios criados para que ela seja mais lucrativa e a quantidade de desperdício envolvido nos processos de manufatura desses produtos, conhecer mais sobre aquilo que pode nos alimentar é uma atitude sustentável, saudável e política.

Um caminho para conhecer mais sobre o assunto é o livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil (2000), escrito pelo biólogo Valdely Ferreira Kinupp, professor de Renata Peixe-Boi, e o engenheiro agrônomo Harri Lorenzi. A publicação cataloga centenas de frutos, frutas, folhas, flores, rizomas, sementes e outras partes nutritivas de plantas que você, provavelmente, ainda não ouviu falar. Mas, para pessoas que vivem em regiões mais remotas e de difícil acesso, a informação sobre esse tipo de pesquisa tarda mais a chegar. É nesses contextos que trabalha Renata Peixe-Boi.

“A gente começou a participar de eventos fora da nossa instituição, tendo como objetivo a difusão desse conhecimento, que era muito acadêmico, para transformá-lo em algo prático que, de fato, poderia estar presente na mesa das pessoas”, diz Renata à seLecT. Sua metodologia inclui a ida a feiras de rua para ensinar os feirantes e sua clientela como consumir esses chamados “alimentos não convencionais” e realizar oficinas com esse mesmo propósito, além de colaborar com ONGs como a Slow Food, uma organização internacional que se opõe à tendência de padronização do alimento no mundo, defendendo a necessidade de os consumidores se tornarem coprodutores.

Há três anos a artista colabora como pesquisadora convidada no programa de imersão artística Labverde, criado em 2012 pela Manifesta Arte e Cultura e pelo Instituto Nacional de Pesquisa, na Amazônia. Dirigida por Lilian Fraji, a iniciativa seleciona artistas por meio de edital aberto para passar dez dias na Reserva Florestal Adolpho Ducke e participar de expedições guiadas com especialistas das áreas de ciências humanas e naturais. Renata foi indicada por seu professor, Kinupp, que colaborava com o Labverde até então. “Quando ela fez a primeira atividade conosco, achei muito adequado, porque ela tinha uma relação mais holística sobre o assunto. Ela faz uma abordagem muito abrangente, que entende a paisagem a partir dos produtos de consumo alimentar”, diz Fraji.

Nas oficinas que ministra no Labverde, ela faz uma curadoria de PANC e com elas monta uma mesa bonita, diversa e colorida para falar desde os aspectos biológicos e nutritivos dos alimentos até suas lendas e histórias. As mesas são lugares de poder e as discussões que a artista provoca passam inevitavelmente pela valorização da cultura local e pela defesa territorial por meio da soberania alimentar.

“Esse alimento representa uma defesa do território, uma vez que, especialmente na Amazônia, a questão logística é um entrave muito grande, tanto para o escoamento quanto para a chegada de comida”, diz a artista. “A chegada de produtos congelados tem rompido os sistemas locais, substituindo o conhecimento da domesticação da paisagem local pelo capital.” Sempre que realiza oficinas, Renata aproveita plantas e modos de cozinhar específicos da comunidade que visita, e um de seus projetos em andamento é registrar as cozinhas por onde passa.

Prato com Plantas Alimentícias Não Convencionais feito no encontro Amazônia
Foodscapes São Paulo – Reflexões ao Redor da Mesa (Foto: Paula Alzugaray)

Ecofeminismo
Em 2019, a artista esteve em São Paulo para participar da Residência Fonte e de um encontro organizado pelo Labverde Amazônia Foodscapes São Paulo – Reflexões ao Redor da Mesa, junto de outras mulheres, para conversar sobre Ecofeminismo. Sendo ela já estudante de agroecologia e feminista, a relação entre essas duas áreas era um óbvio campo de interesse e logo impactou sua pesquisa. Lilian Fraji foi quem levou o assunto à roda. Desde o princípio, 70% das inscrições do Labverde são de mulheres e a diretora tinha interesse em discutir por que mulheres pareciam ter mais interesse em refletir sobre a natureza.

A base do pensamento ecofeminista estrutura-se na relação entre as opressões do homem sobre a mulher e sobre a natureza. No texto Está a mulher para o homem assim como a natureza para a cultura?, a antropóloga cultural norte-americana Sherry B. Ortner trata sobre as associações da mulher com a natureza a partir de duas instâncias. Primeiro, ainda que a mulher seja um agente participante da cultura, seu corpo é visto sobretudo pela função natural que pode desempenhar, a da gestação. Segundo, pela maternidade e o vínculo com os filhos, a mulher é associada à escala privada, ao ambiente doméstico, enquanto o homem é identificado com a instância pública, a política, as leis, a arte e a religião.

Após uma convincente análise sobre por que associar as mulheres à natureza pode ser algo que as prejudica do ponto de vista da igualdade de direitos, a autora aponta para diversas contraposições e conclui: “Tanto homens como mulheres podem e devem ser envolvidos igualmente em projetos de criatividade e transcendência. Somente, então, as mulheres serão associadas com a cultura no dialético progresso da cultura com a natureza”.

O Ecofeminismo une a causa ambiental à feminista e chama atenção para dados sobre como as mulheres sofrem mais com problemas ambientais, especialmente se forem pobres – de acordo com a ONU, as mulheres enfrentam maiores riscos e encargos com os impactos das mudanças climáticas. Talvez por isso elas também estão mais consistentemente preocupadas com a causa ambiental, de acordo com um estudo da União Europeia de 2014.

“Podemos afirmar que os papéis de gênero femininos se justapõem com a questão ecológica, o que justifica uma ampliação da agenda feminista, a fim de que incorpore também uma visão não antropocêntrica e antiespecista”, aponta a filósofa Daniela Rosendo, em texto da série Ecofeminismo: Mulheres e Natureza, a respeito de uma não hierarquização entre a espécie humana e os animais. A soberania alimentar que Renata Peixe-Boi promove passa também a tratar sobre a autonomia da mulher enquanto geradora de poder, produtora e agente cultural. “Partindo do princípio de que o mais importante para a nossa sobrevivência é a alimentação, a água e o descanso, e que o alimento verdadeiramente vem da natureza, esse conhecimento sobre o ambiente natural nos torna poderosas sobre o território”, afirma a artista.

 

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