Poema enjoadinho

Paula Alzugaray

Publicado em: 03/06/2014

Categoria: Editorial, SeLecT#18

Herdeiros é o tema da nova edição da revista seLecT: legados de Hudinilson Jr., Volpi, Portinari, Lygia Clark, Leonilson… Tem também Bienal da Bahia, exposição de Muntadas sobre futebol, ensaio fotográfico de Cássio Vasconcellos sobre a crise da água em São Paulo e muito mais.

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“Filhos são o demo, melhor não tê-los (…) Chupam gilete, bebem shampoo, ateiam fogo no quarteirão”, reclamava Vinicius de Moraes no Poema Enjoadinho (1953). Reclamaria muito mais se levasse em conta as peripécias de alguns filhos, sobrinhos, netos, irmãos ou mesmo pais depois que se tornam os gestores da obra artística e literária de seus parentes. No Brasil, a lei garante aos familiares direitos até 70 anos depois da morte de seus entes queridos. Mas a lei não garante que obras-chave da arte brasileira sejam asseguradas como patrimônio.

“No futuro, para ver arte brasileira, talvez a gente tenha de viajar. E isso não é bom”, afirma Paulo Herkenhoff, diretor cultural do Museu de Arte do Rio (MAR) em entrevista à Plataforma, nova publicação sobre o sistema de arte brasileiro realizada pela seLecT em parceria com o projeto Latitude (ABACT/Apex-Brasil).

Não são poucos os casos em que o patrimônio brasileiro vai a leilão por falta de recursos para sua manutenção, ou é vítima de exploração comercial. Um caso emblemático da atualidade é a obra de Hudinilson Jr., capa desta edição de seLecT e objeto de reportagem de Márion Strecker. Falecido em agosto de 2013, o artista representa uma situação que, lamentável e invariavelmente, se repete no Brasil e no mundo: artistas que, em vida, enfrentam muitas dificuldades e dependem de favores de amigos, e que depois de mortos viram fenômenos de mercado. A repórter Luciana Pareja Norbiato dá seguimento à cobertura das tensões entre famílias, instituições e mercado em outra reportagem em torno dos grandes legados de Volpi, Portinari, Lygia Clark e Leonilson.

Dois ícones da arquitetura brasileira passam por penúrias, aponta Giselle Beiguelman em ensaio sobre o estado de tensão permanente entre o vigor da natureza tropical e a cultura, o informal e o institucional no País. A memória histórica que se desconfigura tanto na FAU-USP, obra-prima de Vilanova Artigas, quanto no Arquivo Histórico da Bahia, muito precariamente instalado em um solar do século 16.

seLecT contribui para o debate sobre a nossa memória ao propor outros padrões de parentescos – tarefa do crítico Mario Gioia na curadoria Afinidades. Ou trazendo à luz legados distantes do mainstream, como o de Daniel Santiago, atuante desde os anos 1970, que veio a realizar sua primeira individual apenas em 2012, no Recife, aqui apresentados em um portfólio, com texto e seleção de Mirtes Marins de Oliveira.

Diversos outros artistas desconhecidos dos grandes centros são destacados pela curadora e crítica Lisette Lagnado, do elenco da 3ª Bienal da Bahia, uma bienal que interrompida pela ditadura, tem a missão de qualificar o passado (resgatar uma memória histórica e cultural submersa) para erguer outra realidade.

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