Política e imagem no Brasil contemporâneo: máquina de produções de absurdos

Autor de Diário da Catástrofe Brasileira elenca o combate ao nazifacismo e táticas midiáticas que retirem o inominável de cena como recursos urgentes para evitar a repetição do deserta de 2018

Ricardo Lísias

N° Edição: 54

Publicado em: 28/09/2022

Categoria: A Revista, Ensaio

A SITUAÇÃO

1.
Alguns dias antes do primeiro turno das desastrosas eleições de 2018, comecei a juntar material da propaganda eleitoral daquele ano. Meu impulso surgiu depois da reportagem de Patrícia Campos Mello1 mostrando a forma particular como o candidato vencedor estava seduzindo possíveis eleitores2. Sem dar importância aos meios tradicionais, o atual presidente usava um único recurso, o compartilhamento maciço de mensagens nas redes sociais e aplicativos de comunicação. A maioria absoluta desse material tinha um único modelo: uma imagem acompanhada de legenda, com graus variados de explicação.

A peça mais compartilhada pela campanha vencedora foi a hoje mitológica “mamadeira de piroca”. Arrisco dizer que esse tenha sido o material de propaganda mais visualizado em toda a história eleitoral brasileira. Aqui, uma de suas muitas variações:

Depois de meses de trabalho e milhares de imagens arquivadas, cheguei a várias conclusões, analisadas em detalhe no livro Diário da Catástrofe Brasileira – Ano I – O Inimaginável Foi Eleito3. A principal merece destaque: o neonazismo4 venceu a eleição de 2018 no Brasil porque, além de ter se aproveitado de um processo jurídico que na verdade era uma eficaz performance com objetivos políticos5, fez uma campanha de natureza desconhecida – de todos os seus adversários, sem falar de cientistas sociais, críticos, comentaristas etc. Todo mundo ficou paralisado e, em certa medida, apalermado. Isso está mesmo acontecendo?, perguntávamos sem parar.

Ao contrário do que muita gente pensa, não há novidade alguma nas tais fake news. Antes chamávamos a mesma coisa de mentira, que sempre esteve presente na propaganda política brasileira. Em 1982, nas primeiras eleições diretas para governador dos estados desde o golpe de 1964, circulou o seguinte santinho:

Já estavam presentes o apelo religioso (atrelado ao pânico moral), a agressão baixa aos adversários e a mera inverdade. A propósito, Franco Montoro venceu a eleição6.

A diferença na estratégia de difusão, por sua vez, é algo bem novo: antes, o papel iria para o chão, a chuva logo o levaria e o maior estrago era um entupimento. Com exceção de historiadores e colecionadores, as pessoas olhavam para esse tipo de coisa uma ou duas vezes e esqueciam. Agora, a mentira aparece em um dispositivo eletrônico. É possível preservá-la sem grandes custos, olhar para ela várias vezes por dia e, inclusive, repassá-la para inúmeros contatos, o que aumenta exponencialmente a eficácia da propaganda.

2.
Quatro anos depois, o uso das imagens na campanha continua intenso. O tema principal mudou. Ninguém mais tem dúvida sobre o que o nosso mandatário é capaz de fazer. O mínimo que dá para dizer agora é que as cartas estão todas à mesa. Os eleitores que pretendem votar pela renovação do mandato do atual presidente farão isso conscientes de aprovar um governo acusado de genocídio. Seu representante, candidato à reeleição, zombou de pessoas com falta de ar, agrediu mulheres e desrespeitou todas as premissas básicas de cuidado com o meio ambiente. Nos fóruns internacionais, nosso presidente é tratado como uma anomalia cognitiva.

O governo brasileiro também esteve em contato próximo com todo tipo de político autoritário. Já na minha primeira pesquisa, identifiquei um grupo internacional, organizado, com agenda conjunta e, inclusive, a mesma máquina de propaganda. Aqui, por exemplo, dá para ver a coincidência estética do material de campanha, o que denuncia o contato próximo dessa gente. Essa imagem circulou logo no início de 2019, quando o presidente eleito estava formando seu ministério:

No quadro seguinte, o super-herói é Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, um governante autoritário, cuja semelhança física com Hamilton Mourão, vice-presidente brasileiro, é bastante perturbadora:

E este é Recep Tayyip Erdogan, representante turco do grupo:

3.
Como a mamadeira de piroca demonstra muito bem, a campanha vencedora de 2018 baseou-se, em larga medida, em estímulos sexuais. No geral, o candidato aparecia com parte do corpo à mostra, reproduzindo a imagem-padrão do “homem bombado”:

Tínhamos, na eleição passada, insinuações sexuais um pouco mais diretas, também:

(Além das linhas de fuga da imagem e das mãos ousadas da moça, o leitor deve reparar que há um pênis mal escondido no canto inferior esquerdo, estranha e perversamente perto da boca do jacaré…)

Os exemplos se multiplicam aos milhares. Há material de fundo misógino e homofóbico, também. Prefiro não reproduzir esse tipo de coisa.

4.
A construção da imagem do presidente brasileiro como um homem com bíceps avantajados, acostumado à luta, serviu também para aproximá-lo de seu campo ideológico. Muito se falou sobre o resgate de um nome que já se tornara parte do anedotário nacional, o impagável Enéas Carneiro7. O candidato foi à selva perigosa do passado para resgatar seu inspirador:

Além de especialista em resgate, nosso presidente é também lutador e, cheio de camaradagem viril, resolveu dividir o tatame com seu similar norte-americano:

5.
Durante os primeiros anos de governo da extrema-direita, o previsível aconteceu e vários de seus apoiadores moralistas acabaram desmascarados. O vereador carioca Gabriel Monteiro infernizou a vida de médicos (invadindo hospitais e acordando-os em horários de plantão), construiu uma imagem de defensor do cidadão bem-comportado e zeloso do bem público, e agora circulam vídeos em que ele, por exemplo, acaricia uma criança.

Enquanto concluo este texto, o ex-deputado estadual Arthur do Val, vulgo “Mamãe Falei”, renunciou ao mandato na Alesp, depois de ter ido à fronteira da Ucrânia e, todo pimpão, enviado áudios a um grupo de “amigos”, dizendo que as refugiadas de guerra “são fáceis porque são pobres”. Obviamente, o grau de perversão aqui é gigante: o youtuber sente tesão em uma zona de guerra!

Do Val é outro que construiu sua vida por meio de imagens e performances moralistas. A mais famosa é a que documenta sua invasão a uma reunião de mulheres, disfarçado de vagina ambulante. Da forma como compôs a fantasia, o ex-deputado deixou o rosto mais ou menos no ponto do prazer feminino. Enfim, não vou me aprofundar na análise psicanalítica da perversão, só evidenciar que ele estava querendo que alguém lhe lambesse a cara para ver se gozava. Às vezes, o ridículo é do mesmo tamanho do desejo…

6.
As imagens de cunho sexual, ao menos até o momento ( junho de 2022), circulam pouco nos meios de propaganda da extrema-direita. O motivo não está na contradição entre o que falam e o que fazem os apoiadores do presidente. A sua base não se preocupa muito com qualquer tipo de dissonância. Ao contrário, alimenta-se dela. Vale lembrar que, atualmente, seu candidato é um homem cristão:

Que ao mesmo tempo já inspirou esse tipo de coisa:

Vale dizer ainda que o conceito de ironia foi completamente neutralizado pela extrema-direita. A imagem a seguir, por exemplo, circulou no momento em que o presidente brasileiro resolveu visitar seu colega russo, dias antes de Vladimir Putin ordenar a invasão à Ucrânia:

Sintomaticamente, a montagem foi impulsionada nos grupos de apoio ao presidente e, ao mesmo tempo, nos de oposição. Como a ironia exige um raciocínio mais amplo que o mero passar de olhos em uma imagem (é preciso pensar por um pouco mais de tempo), o princípio de economia de energia mental que acompanha esse tipo de propaganda age e os apoiadores do presidente não percebem o artifício, até porque acreditam mesmo que ele teria algum tipo de influência na guerra da Ucrânia. Retomo a reflexão anterior sobre a contradição para lembrar que a supressão da necessidade de raciocínio, trocada pelo conforto da adesão imediata, é uma das conquistas mais eficazes da propaganda da extrema-direita.

Quando notou que a ironia não estava dando certo, a oposição precisou complementar a imagem:

7.
A explicação para o súbito relaxamento do sexo na campanha da extrema-direita é de dupla natureza. Em primeiro lugar, o líder machão, com o corpo masculino forte e intacto, é agora inverossímil. Nesses quatro anos, revelou-se um homem absolutamente fora de forma e doente. Ele não consegue se relacionar nem com uma Ema:

O lugar das Forças Armadas no imaginário da extrema-direita também é responsável pela diminuição do ímpeto sexual no material de campanha, não apenas se orgulha de ter feito parte da tropa (escondendo com cuidado sua saída vexaminosa do Exército), como enche os fardados com cargos de vários escalões e tem no seu governo inúmeros ministros sem nenhum tipo de intimidade com a pasta que administram. O auge foi o “ministro da Saúde” Eduardo Pazuello, que, aliás, vai redigir o programa de governo para a campanha à reeleição.

Esses mesmos militares andaram consumindo uma fortuna de dinheiro público com Viagra e próteses penianas. Desse jeito, fica mesmo difícil manter a postura de macho viril:

Por outro lado, a extrema-direita não pretende salvar nenhum tipo de reputação, não quer se mostrar potente e muito menos se ver livre de qualquer insinuação. Trata-se simplesmente de estratégia político-eleitoral. Ao primeiro sinal de constrangimento, o rumo muda e não se fala mais nisso. O sexo arrefece:

A segunda razão é bem menos lúdica: estamos em outra fase política.

A instalação do neonazismo no Brasil pode ser dividida em três etapas, sempre tendo como base o autoritarismo e o conservadorismo, que têm a mesma idade que o país. Em primeiro lugar, movimentos de pressão obtiveram notoriedade a partir de ações filmadas, posteriormente muito difundidas, que podem ser, com algum ajuste, aproximadas das disposições formais de certas performances contemporâneas. O Movimento Brasil Livre, por exemplo, obteve grande publicidade ao atacar exposições de arte como o QueerMuseu em 2017. Já o Escola Sem Partido tinha por alvo professores que dessem o azar de estar no seu amplo radar, também difundido pela internet. Além do assédio on-line, havia invasões de aulas e processos jurídicos e administrativos. Há o registro ainda do suicídio de algumas vítimas dessa gente. Não posso me aprofundar nisso aqui, valendo apenas um registro: a Operação Lava Jato foi outro desses movimentos, usando o Poder Judiciário como plataforma.

Depois de ganhar amplo alcance – sempre através de meios eletrônicos – esses grupos conseguiram legitimidade por meio do “debate”. Um dos grandes erros da oposição ao neonazismo foi se colocar no mesmo patamar do que combatiam, o que garantia vários graus de normalidade. O raciocínio que os extremistas fizeram é simples: se estão argumentando conosco, é porque mereço existir…

Assim, portanto, que inúmeras vertentes do nazifascismo obtiveram licença para existir, a próxima fase tomou força: agora seria preciso entrar no debate eleitoral. O atual presidente da República foi, também ele, naturalizado ao receber o mesmo tratamento que os outros candidatos, nenhum deles –a propósito– neonazista. Não foi só isso: na verdade, ele obteve apoio de amplos setores da sociedade. Eleito, inicia-se a terceira fase, que não tem prazo para terminar e está sempre se reforçando: a fixação do neonazismo nas instituições e no resto do país.

Por isso, o líder precisa ser um homem trabalhador e esforçado:

Um senhor de respeito, cordato e, inclusive, amoroso:

Assim, muitas famílias podem admirá-lo.

8.
O presidente brasileiro tem realizado periodicamente uma manifestação com características bem definidas: a tal “motociata”. Ele reúne algumas centenas de apoiadores, quase todos homens, e anda de moto por alguns quilômetros, com uma jaqueta de couro e a cara feia.

A princípio pode haver aqui certa contradição com o declínio do sexo na campanha. Não é isso: como muita gente deve infelizmente saber, quem se esforça demais para mostrar masculinidade está com problemas de potência.

Na verdade, o objetivo de tais motociatas é oferecer nova possibilidade de entranhar mais ainda o neofascismo no Brasil. Elas produzem um símbolo que remete o presidente brasileiro à figura de Benito Mussolini, que fez esse tipo de 95 cortejo algumas vezes.

Pelo menos até aqui o que substitui o sexo na campanha da extrema-direita é… Jesus. A religião esteve muito presentena campanha de 2018, só que não era dominante. Agora, a proporção é inversa:

Para quem ainda não estiver satisfeito:

9.
Outra característica formal da campanha da extrema-direita é a repetição ad nauseam da mesma imagem, com variações maiores ou menores. Esta circulou logo depois que o presidente indultou o deputado federal Daniel Silveira:

Vale lembrar que o próprio Silveira está no centro de outra imagem muito compartilhada durante a campanha de 2018: aquela em que ele, com outros dois candidatos, quebra uma placa em homenagem a Marielle Franco. Eles não saem mesmo do foco.

Longe de falta de criatividade, o aproveitamento é engenhoso. Em primeiro lugar, serve para fixar a ideia de que temos um presidente-herói, um homem que reconhece seus seguidores fiéis e se arrisca por eles. Depois, a repetição forma um grupo de personagens: é esse o nosso exército. A sensação é de lealdade e pertencimento. Por fim, percebe-se um trabalho continuado e profissional. Não há aqui nenhum tipo de improvisação ou precariedade. Essa gente conhece muito bem o mundo contemporâneo.

Por isso é um erro enorme achar que esse movimento político é coisa de loucos ou burros, quando não os dois juntos. Desde a eleição de 2018, o presidente brasileiro é visto como uma figura tosca, desgovernada e sem nenhum tipo de projeto. Enquanto isso, ele fez uma campanha inédita e bem-sucedida, aparelhou toda a máquina federal, isolou seus inimigos, constrangeu continuamente os outros Poderes e, é chato dizer, foi conseguindo tudo o que queria.

Para quem se utiliza de imagens e gestos visuais o tempo inteiro, a maior conquista do governo extremista é justamente… a cegueira de boa parte da população. Até aqui pouca gente enxerga ou, o que dá no mesmo, admite que o Brasil é governado por um grupo de pessoas cuja ideologia é muito clara: matar o maior número possível de brasileiros.

Tem dado certo.

A OPOSIÇÃO

1.
O primeiro fragmento dessa segunda parte é cheio de obviedades, o que não deixa de ser um sintoma: agora, é prudente explicar com clareza até os argumentos mais básicos. Isso precisa ser feito quando centenas de milhares de pessoas morrem porque o chefe do Poder Executivo não faz, ele mesmo, o óbvio.

Opor-se ao atual presidente não significa necessariamente defender qualquer política de “esquerda”. Acho que comida não deveria ter custo. Por outro lado, quando alguém afirma que “não existe almoço de graça” (chavão da direita das últimas décadas), não está dizendo que alguém deve deixar de comer. Quando um político diz que não estupraria uma mulher porque ela não merece (frase que o presidente brasileiro dirigiu a uma deputada), afirma que há um determinado grupo de mulheres que merece ser estuprado. Trata-se de um simples raciocínio lógico, e eu me sinto constrangido ao escrevê-lo. O Brasil degradou-se demais. Fazer oposição ao atual presidente significa colocar-se em um lugar civilizatório que acredita que estupros em absolu- tamente nenhuma hipótese podem ocorrer.

2.
Esta é uma grande dificuldade para a oposição a esse tipo de político: como está abaixo de qualquer debate, sempre que seu nome, ou o rosto, ou uma menção qualquer a ele toma proporção, ele ganha. O assunto não importa, nem mesmo se for uma crítica bem realizada. Destruir a economia do país foi apenas uma das tantas atitudes graves que o presidente brasileiro fez. Mesmo assim, ele consegue manter um patamar eleitoral competitivo. Portanto, material como este só serve para fortalecer a sua imagem:

Como se situa ideologicamente em um patamar impronunciável (ele não deveria existir), o presidente brasileiro sabe que tem uma vantagem enorme: a partir do momento em que pôde ser um candidato, vencê-lo é dificílimo. A propósito, desde a sua primeira campanha, ele nunca deixou de ser eleito.

Nos padrões minimamente civilizatórios, uma pessoa como [] e todos os que integram ou integraram sua equipe deveriam ser presos e julgados por crimes contra a humanidade. Meu sentimento de horror enquanto continuo este texto só aumenta. Sinto asco. É outra vantagem dessa gente: são tão asquerosos que apenas tomar notícia de sua existência é um dano à saúde mental.

Peço força e frieza aos leitores: um homem que disse que pessoas negras são pesadas em arrobas foi eleito presidente do Brasil com 57.796.986 votos e agora tem chances bastante reais de ser reeleito.

3.
Na campanha de 2018, não foi o uso de imagens no contexto político eleitoral que deixou todo mundo perplexo, como vimos com o exemplo do pacto com o diabo de que Franco Montoro foi acusado. A questão é antiga. Além disso, manifestações políticas sempre inspiraram trabalhos artísticos engajados. Os movimentos de maio de 1968 são apenas um exemplo.

O pasmo deve-se, em primeiro lugar, à habilidade com que a extrema-direita usou os novos recursos eletrônicos de difusão. Ainda assim, a surpresa maior não pode estar aqui: a Mídia Ninja, que espalha conteúdo de oposição ao governo extremista, sempre foi reconhecida pela enorme habilidade com os meios digitais. O nome do grupo não é à toa.

O que nos paralisou foi o fato de os apoiadores do presidente brasileiro serem capazes de descer tão baixo. É possível que essa gente seja realmente tão machista? Vão votar em uma pessoa assim tão homofóbica? O Brasil vai mesmo fazer isso?

Sim, o Brasil fez mesmo isso.

A paralisia apagou da cabeça de muita gente o fato de que o Brasil, desde antes do sucesso eleitoral da extrema-direita, é o país que mais mata transexuais do mundo. Por aqui, crimes misóginos são corriqueiros. O ambiente foi preparado por muitos anos.

A reação em 2018 foi patética e tentou focar em algo que parecia para muitos de nós óbvio: quem realmente vai preferir um miliciano a um professor? A equação era elementar: se estão descendo tão baixo, vamos nos elevar. A ingenuidade deu o tom, a régua e o compasso:

4.
Durante seu mandato, o atual presidente brasileiro desrespeitou os princípios democráticos básicos, colaborou para a destruição do meio ambiente, recolocou o Brasil no mapa da fome, fez a economia desandar como há muitos anos não acontecia e, entre outras conquistas, comandou uma das piores administrações da pandemia do mundo. Além de tudo isso, conseguiu pautar todos os debates. Como uma impressionante máquina de produção de absurdos, a cada declaração alucinada, conseguia todas as atenções – das manchetes dos principais jornais, passando pela escalada do noticiário televisivo e chegando aos trending topics do Twitter.

Impressiona muito ver que, mesmo na campanha atual, ele continua estampando o material de seus adversários: Esse tipo de propaganda não é efetivo: os apoiadores do presidente já estão há anos recusando o que chamam de “internacionalismo”, o que, portanto, não separa qualquer importância ao G7. Quanto à terceira imagem, o ensino de história é um dos mais atacados pela extrema-direita. Portanto, seu líder ser criticado por esses professores é um mérito para ele.

5.
Na campanha de 2018, além da oposição entre o professor, que entrega livros para seus alunos, e o representante das milícias, que só pensa em armas, outra vertente importante da propaganda da oposição foi a citação inteligente, que exigia do leitor um grau de conhecimento:

Há, obviamente, aqui certa ligação com a fetichização do livro. Vale lembrar que um movimento organizado por intelectuais e artistas divulgou o nome dos livros com que as pessoas estavam indo votar. A campanha repetiu-se nas eleições para prefeito e vereador, em 2020. Agora, na campanha de 2022, a citação cultural continua:

Há também material de campanha que exige certo conhecimento técnico. Por mais elementares que sejam, vamos lembrar que, durante a pandemia, muitas crianças ficaram sem ensino remoto, pois não tinham acesso à internet. Este é um exemplo:

Enfim, se apenas as classes menos escolarizadas tivessem votado em 2018, o atual presidente não teria sido eleito. Caso a campanha de viés intelectualizado pretenda atingi-los – mostrando-lhes que os detentores do poder cultural estão do outro lado –, ela é um erro de base. Por outro lado, se estiver sendo veiculada justamente para aqueles com formação educacional maior, de novo não funciona: em 2018, eles sabiam de tudo isso, foram às urnas e elegeram isso que está aí.

Pessoas que foram impedidas de ir à escola podem perfeitamente votar bem melhor do que a grande maioria dos diplomados.

6.
Não sei qual é a reação mais precisa ao neonazismo. Nós o deixamos ir longe demais, o que torna tudo bem mais difícil. Do mesmo jeito, acredito que precisamos ter a coragem da clareza. Realmente, fizemos isso conosco. Por outro lado, a situação é cansativa demais para ser enxergada com a nitidez que a situação exige. Os neonazistas vivem para isso, e o esgotamento que nos abate é outra das suas vantagens.

No campo eleitoral, talvez a melhor ideia seja de fato impedir que os neonazistas continuem pautando todos os debates. É preciso cortar nomes, riscar rostos, afastar ideias e desaparecer com propostas neonazistas. Precisamos terminar com tudo isso e preencher os espaços que ficarem vazios com o que funciona: política.

7.
Até porque um dos principais objetivos da extrema-direita é manter-se no poder o máximo possível de tempo. A campanha pela reeleição começou assim que seu líder foi eleito presidente da República. Na verdade, ele quase não fez outra coisa durante seu primeiro mandato.

A oposição, por outro lado, organiza sua campanha enquanto encerro este texto. Minhas conclusões, portanto, são parciais. Até aqui, o ex-presidente Lula tem estado na dianteira das pesquisas. A distância dele para qualquer outra alternativa não nazifascista é tão grande que dá para dizer com segurança que este quadro não deve mudar. Atentos, os responsáveis pela propaganda estão produzindo enorme quantidade de material visual para circulação em dispositivos móveis e redes sociais. Por enquanto, o tom geral tem sido o do humor,

alternando também com boa quantidade de comparações mais diretas, como esta:

ou sem citações:

Como vimos, quando não cita o nome do candidato extremista, a oposição consegue ser mais efetiva e produzir material estratégico e de maior capacidade de engajamento. Entre os apoiadores, Marcelo Freixo tem sido fiel ao seu estilo alto-astral-cult e muitas vezes tira de seus adversários o formato das histórias em quadrinhos:

Com isso, Freixo acaba restrito a seus próprios eleitores, sem conquistar maior alcance. A propósito, essa dificuldade ele enfrenta há vários pleitos. Guilherme Boulos, por outro lado, adota um tom mais agressivo, ainda que recorra, às vezes, à comparação direta:

Boulos também usa um humor mais escrachado:

Como ficou claro na eleição para prefeito em 2020, Boulos é um dos líderes que mais conquistam novos apoiadores. De resto, ao menos no material de maior difusão, não se encontram sexismo, apelo religioso ou culto à violência como o atual presidente sempre fez. As imagens mais agressivas ainda estão nos muros das cidades, como acontecia nas eleições anteriores a 2018:

O FIM
Todo o nosso apoio e admiração à arte que se politiza. Quanto ao neonazismo, política que se apropria da arte, o único termo possível é combate:

NOTAS
1. A matéria inicial, que se desdobrou em inúmeras outras, e esta: Empresarlos bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp – 18/10/2018-Poder-Folha (uol.com.br).

2.0 livro foi publicado pela Editora Record em 2020. No ano seguinte, publiquei o segundo volume da minha análise, Um Genocídio Escancarado. Algumas das imagens que apresento aqui estão no livro de 2020,

3. Adoto aqui o mesmo procedimento das minhas análises da situação política brasileira: por razões de saúde mental e para evitar propaganda gratuita, não cito nunca o nome do atual presidente da república. Quando me parecer inevitável, substituirei o sobrenome que se tornou onipresente no Brasil por []. Do mesmo jeito, não usarei em momento algum as conjunções adversativas. 

4. Ainda durante a campanha de 2018, um debate tomou conta dos meios intelectuais: o atual presidente, então candidato em processo de naturalização, é ou não neonazista? (Havia, lógico, a variação que citava o fascismo). Muitos argumentos foram lançados, de todas as naturezas possíveis: não tem campo de concentração, não estamos na Europa dos anos 1930, não vamos banalizar o nazismo, ele apoia Israel etc. Aos poucos, conforme o presidente e seu entourage, eles próprios, faziam gestos e adotavam termos nazistas, o debate caiu no vazio. Sim, são neonazistas. Vale observar aqui como muito tempo foi e é perdido com discussões elementares e, no limite, desimportantes. Nesse texto, adotarei a terminologia “neonazista”, que me parece a mais adequada. Como sinônimo, uso “extremista” e “extrema-direita”. A essa altura, só os próprios neonazistas discordarão de mim. 

5. Neste texto e em outros lugares, defendo que a propaganda através da circulação maciça de imagens tornou-se majoritária (e decisiva) na vida eleitoral brasileira. Programas de governo, por exemplo, já não fazem muita diferença. Além das imagens, há ainda a performance. Políticos sempre fizeram ações teatrais pontuais para, depois, difundi-las. Agora, esse tipo de coisa se tornou programático: a performance é formalmente planejada para invadir o espaço político, obter ganhos eleitorais e vantagens em espaços da sociedade. Essa questão merece melhor desenvolvimento. 

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