Políticas estéticas

Guilherme Kujawski

Publicado em: 19/04/2014

Categoria: Especial Arte e Política, Reportagem

Artistas procuram desconstruir a produção cultural da ignorância

A chamada “arte política” é frequentemente visitada por artistas que pretendem fazer com que suas obras “vazem” da esfera artística e produzam efeitos práticos no mundo real. Mas é importante questionar qual o alcance da expressão e qual a eficácia do conceito atrelado ao objeto – lembrando que este é originalmente um objeto estético. Tal é a provocação elaborada pelo filósofo francês Jacques Rancière, que apontou para os paradoxos da arte contestatória, atualmente preocupada exclusivamente em impor um projeto ético-político. Para ele, os artistas-críticos de hoje precisam se desvincular do clássico paradigma mimético-ético, de conteúdo puramente pedagógico (por exemplo: “ensinar” o espectador a não se identificar com o “lado negro da força” de uma narrativa) e partir para projetos discordantes de absorção sensória. Com efeito, os artistas precisam enxergar o psicossocial, principalmente em sua dimensão sensorial, como uma questão política.

O paradigma mencionado por Rancière é um legado direto da arte cênica grega, em que o autor da obra esperava, da parte do espectador, a imitação dos valores “corretos” apresentados no palco. Porém, segundo Rancière, a convocação a uma ação não deveria ser a prioridade em um projeto de arte política atual, mas sim a subversão da percepção condicionada pelo poder dominante e situado dentro de um horizonte estético normativo. É exatamente por essa razão que a arte política contemporânea é quase majoritariamente ineficaz, quase toda reduzida a dualismos “pop-dialéticos”. Note, por exemplo, a obra Los Intocables, de Erik Ravelo, artista cubano e Diretor de Criação da Fabrica, centro de pesquisa da Benetton. Nessa obra, um libelo em defesa do direito à infância, crianças são “crucificadas” em padres, milicianos e símbolos da junk food. Desperta, no máximo, uma indignação imediata. Não somos levados, por exemplo, a iniciar um abaixo-assinado na Avaaz.org contra a prostituição infantil durante a Copa do Mundo de 2014. Nesta obra, um familiar senso estético continua exatamente no mesmo lugar; e o espectador não se emancipa – como era de se esperar.

Entretanto, há exceções. Há exemplos de artistas que praticam a política da arte independentemente do paradigma mimético-ético. Nesses casos, a técnica não é usada como um meio para a ampliação dos sentidos nem como um trampolim para a passagem ao ato, mesmo porque o artista é cônscio de que a sua obra não pode afetar a vida das pessoas tanto quanto a vontade dos donos do poder; ela mira um componente psicossocial e procura desconstruir um “acordo” sensorial coletivo. Qualquer ato político começa com a mudança da maneira como percebemos o real que nos é ofertado, de como, por exemplo, podemos interpretar o conceito estético do sublime como uma luta pela liberdade e pela verdade. Por esse motivo, privilegiamos aqui o dissenso estético, ou uma experiência assimétrica passível de quebrar o feitiço da produção cultural da ignorância. Afinal, um verdadeiro projeto de arte política deve revelar que o que mais conecta as pessoas é o compartilhamento de um senso de alienação.

https://www.youtube.com/watch?v=3uVisCpf8sU

Legenda: Border, 2001, Hans Op De Beeck

Nessa projeção de imagens de raios-X de um caminhão vislumbramos a carga legal e uma carga “ilegal”: um grupo de pessoas que, pelo diálogo, parecem ser imigrantes árabes, provavelmente refugiados de guerra. O contraste entre os corpos compartimentados e os anseios por amplidão espacial não é mediado, não se rende ao apelo da representação, como se a imagem da emissão eletromagnética atravessasse diretamente o corpo do espectador. Não há uma agenda, ou uma pretensão de ação política direta. Há apenas a formalização estética de uma esperança perdida.

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Legenda: My Dear Malevich, 2007, Tom Chambers

Ao analisar a obra Quadrado negro sobre fundo branco (1915), óleo sobre tela do artista ucraniano Kazimir Malevich, o filósofo Slavoj Žižek lembra que a suposta simplicidade da pintura – indicado no próprio título – é ilusória: por detrás da dupla moldura (a moldura das duas formas e a moldura do quadro) há uma terceira, mais insidiosa, voltada ao enquadramento compulsório dos sentidos por um sistema homogêneo. A discrepância entre as molduras, segundo Žižek, nunca é superada. A forma que o artista estadunidense Tom Chambers encontrou para corrigir tal lacuna sensorial foi ampliar indefinidamente uma foto P&B do pintor suprematista até encontrar, entre os pixels reticulados, “variações” de sua obra original.

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Legenda: Postcards from Google Earth, 2010, Clement Valla

A série de Clement Valla é apontada como exemplo máximo da chamada New Aesthetic, “movimento” que pretende criar novas relações entre o espectador e as imagens geradas digitalmente. Aquecido no forno do South by Southwest (festival de cinema, música e tecnologia que acontece anualmente em Austin, Texas) e incensado pelo escritor de ficção científica Bruce Sterling, a nova estética apresentou, inicialmente, propostas apolíticas. Mas há nos cartões postais de Valla um algo-fora-da-ordem que rompe a nossa falsa familiaridade com as supostas imagens de satélite do Google Earth. Na verdade, não são glitches em uma representação, mas o resultado da conjunção de fatores infelizes no processo de produção da imagem. Não é a distorção em si que inicia o processo de estranhamento, mas sim a origem absoluta de uma nova forma de observação do real.

https://www.youtube.com/watch?v=3uVisCpf8sU

Legenda: Strike, 2010, Hito Steyerl

Nesse trabalho, a artista alemã Hito Steyerl testa a idéia do ponto de ruptura literal, quebrando uma tela de LCD desligada para criar um padrão abstrato irregular. É como se Steyerl partisse para o confronto direto com a substância da própria interface, sem questionar as formas de representação simbólica. A “escultura” também remete aos detritos gerados pelos artefatos tecnológicos, um tipo de lixo quase sem possibilidade de reciclagem. Curto e incisivo, o filme nos lembra sobre a realidade física que sustenta as imagens técnicas, geralmente associadas a processos subjacentes inatingíveis pela consciência humana.

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Legenda: Overhead of NSA, 2013, Trevor Paglen

Um dos interesses do artista norte-americano Trevor Paglen é registrar por meio de câmeras astrofotográficas imagens de “black sites”, locais reservados ao complexo militar e programas de inteligência. A intenção de seu recente projeto, uma série de fotos aéreas de agências como a NSA (Agência Nacional de Segurança), é criar um vocabulário visual que insira o visível no invisível, mas sem que haja uma “tradução” em linguagem coloquial de noções abstratas sobre o que seja um Estado de Controle. Outro aspecto “político” da obra é que as imagens estão em domínio público, podendo ser replicadas ou mesmo alteradas por qualquer interessado.

*Artigo publicado originalmente para a versão iPad da edição #17

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