Por favor, ligue seu celular

Mariel Zasso

Publicado em: 17/04/2013

Categoria: Entrevista, Reportagem

Confira a entrevista com Ivan Andrade, idealizador do espetáculo teatral que usa celulares para provocar reflexões sobre as relações na contemporaneidade

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Legenda: Ivan Andrade idealizou e dirige o espetáculo Incubadora – Versão Final. (Foto: arquivo pessoal)

As novas gerações já nascem arrastando ícones em telas touch: isso é intuitivo para os “nativos digitais”, e mais ainda comparando essa habilidade com a de quem nasceu antes dos anos 1990. Se a relação com os gadgets eletrônicos muda, muda também a maneira de entrar em contato com os diferentes tipos de narrativas. E assim, mesmo o “bom e velho” teatro se reinventa.

Partindo dessa ideia, e acreditando que é possível fazer uma mescla entre atores, luzes, palcos, projetores e smartphones, o diretor paulista Ivan Andrade criou o espetáculo “Incubadora – Versão Final”, que seLecT anunciou quando da estreia em São Paulo, no início de março.

“Ligue seu celular”: esta é a ordem ao entrar na sala desse espetáculo. O diretor buscou criar, como ele mesmo define, um “drama gamificado”, em que o público ajuda a decidir o andamento da história através de um aplicativo desenvolvido para plataformas móveis. As interações são projetadas no cenário e guiam os personagens para diversos caminhos, dependendo do humor do público.

Para Ivan, esse jogo é também uma reflexão sobre os modos de vida e de convivência na contemporaneidade, inspirada em games de simulação, como o The Sims, em que aparentemente não há nenhum antagonista ou grande desafio para ser vencido, mas sim um roteiro de “felicidade” a ser cumprido. A seLecT entrevistou o diretor para entender as motivações dessa proposta. O espetáculo fica em cartaz até o dia 21 de abril em São Paulo.

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Legenda: Os atores. (Foto: João Caldas/divulgação)

SeLecT: Qual o motivo de propor um teatro-game?

Ivan Andrade: Há algumas décadas estamos vivendo uma revolução sem precedentes: a digitalização das mídias. Faço parte da geração de “screenagers”, jovens nascidos a partir da década de 1980 e influenciados pelas telas, teclados, mouses etc, enfim, todas estas interfaces que nos permitem interagir com a informação e produzir conteúdo. Sem nos darmos conta, os meios de comunicação moldam nossa sensibilidade, nossa percepção e nosso comportamento. Por isso, ainda como estudante de artes cênicas, eu me interessava em estudar os impactos destas novas mídias na narrativa teatral. Eu estava, sobretudo, instigado em compreender melhor como as pessoas, sempre conectadas ao ciberespaço, estavam se relacionando com as convenções teatrais, uma expressão artística presencial e basicamente contemplativa. Isso me levou a uma pergunta mais profunda: qual seria a função do teatro neste novo contexto cultural? Depois de algumas experiências mais performáticas, comecei a observar os jogos digitais e percebi que é muito comum games se utilizarem de narrativas para se tornarem mais cativantes. Curiosamente, ao passo que o teatro vem renovando a narrativa, chegando a se auto-denominar “pós-dramático”, os games cada vez mais se apropriam de elementos dramáticos, se auto-denominando “storytelling media”. Isso me chamou muita atenção e vislumbrei um “drama gamificado” que usasse o celular como interface. Inicialmente, a ideia me pareceu uma loucura, mas resolvi encarar. É um experimento artístico arriscado que nos expõe muito. Não sabemos o que pode resultar disso.

seLecT: Qual seria o papel do teatro neste contexto cultural de mídias digitais?

Mais do que nunca o teatro é necessário! Estamos sempre conectados, lidando com várias informações simultaneamente, numa horizontalidade permanente de ícones, janelas, mensagens de texto, pop-ups, buscas etc. O teatro é o oposto disso, é o espaço da verticalidade, da metáfora, do estranhamento, da fantasia. Seu vigor está no presente compartilhado com a plateia. Não podemos nos esquecer que as imagens digitais são simulações. Embora pareçam idênticas à realidade, precisamos saber que elas não representam o real, mas um modelo de realidade purificado por fórmulas matemáticas, são algoritmos que tomamos como realidade. O teatro vai na contramão desta assepsia do digital. O teatro, pelo menos aquele que me interessa, nega a ilusão da representação em prol da imaginação, é um acontecimento poético que surge do encontro de corpos, por isso é uma troca quente. A fábula não é necessariamente seu ponto de partida nem o objetivo final, mas sim a exploração lúdica. Neste contexto da cultura da interface, onde tudo é interativo, consideramos que o ato de contemplar é passivo. Isso é um equívoco absoluto. Contemplar nos permite divagar, fantasiar, fazer as nossas próprias conexões. É atividade pura!

seLecT: Quais foram suas inspirações para criar este “drama gamificado”?

Mais do que contar uma estória, a principal característica de um game é permitir que alguém o jogue, o que se chama de jogabilidade. Além dos jogos que têm um objetivo e um desafio para o jogador, eu fiquei atento àqueles que tivessem também alguma semente narrativa. Vamos chamar de “jogos de personagens” aqueles em que o jogador entra como protagonista, controlando um avatar ou mais. Existem muitos exemplos deste tipo, os games de aventura, de luta, de corrida etc. Existe aí um processo de “identificação encarnada” muito peculiar dos games. Na contramão, vamos chamar de “jogos de simulação” aqueles que interagimos com um mundo virtual e contemplamos o resultado das nossas ações à distância. Neste caso, somos apenas observadores, o prazer está em acompanhar o comportamento que emerge das nossas escolhas. Um exemplo básico é o velho “Sim City”, em que administramos uma cidade e assistimos como os diversos elementos interagem entre si. Em “The Sims”, o jogador cria e controla a vida de personagens virtuais com o objetivo de manter sua felicidade. Ou seja, é uma mistura de jogos de personagem com jogos de simulação. Neste último, não existe desafio nem antagonista muito claros. Parece um jogo inofensivo, porque não estimula a violência nem tem cenas impactantes como vários outros. Mas é um jogo extremamente persuasivo, que estabelece um conceito de felicidade e propõe um modo de vida tido como natural. Fiquei inquieto com o sucesso deste simulador da vida rotineira, um jogo que permite criar personagens prosaicas. Por que as pessoas se interessariam em simular uma outra vida banal como nosso próprio cotidiano? Este jogo foi um sucesso por muitos anos. Acho que atualmente não atrai mais tanto, mas o fenômeno é muito curioso. Então, decidi jogar isso para a cena. Daí criar um simulador de sociedade. O espectador se torna interator e estimula a rotina de três personagens. A partir de então, observa as reações, o que muda naquele ambiente em função da intervenção.

seLecT: Como é a reação do público ao espetáculo?

No início, o público fica interessado em interagir com a cena independentemente do que esteja acontecendo. Eles não estão interessados no espetáculo em si, mas em testar seu funcionamento. O cenário é impactante e os espectadores ficam curiosos em entender como as informações circulam, como os atores reagem aos estímulos, o que é bem compreensível, afinal é tudo muito novo. Demora um pouco até que comecem a jogar com os acontecimentos que se desenrolam à sua frente, a prestar atenção na ação dramática, no que está sendo discutido. Alguns espectadores continuam nesta fase de interagir sem saber o porquê. É incrível como somos condicionados aos aparelhos e insistimos em considera-los simples ferramentas do cotidiano! Achamos que o dominamos, mas na verdade, eles definem nosso comportamento, se tornam mais importantes do que o mundo que nos rodeia. Esta é uma prova cabal: muitas vezes, interagir é mais importante do “por que” interagir. Passado o impacto, a maior parte do público se envolve pelas situações apresentadas, se encantam pelos atores, pela maneira como eles se reagem às intervenções, como lidam com os imprevistos. Evidentemente, uma apresentação é sempre diferente da outra. Isso sempre acontece no teatro, tudo influencia o aqui-agora da encenação. Mas de modo geral, os atores precisam buscar o frescor ao refazer a cena pela milésima vez, criando a ilusão de que a ação surge no momento da apresentação. No caso desta peça, em que o público age sobre a cena, um espetáculo é radicalmente diferente do outro. Nunca se repete a mesma sequência de cenas, e a ação realmente nasce diante do espectador. O jogo acontece no presente e tudo depende das características de cada público. Eles simpatizam pelos personagens? Eles querem jogar a favor ou contra o simulador? Eles acreditam naquele modelo de sociedade? Isso tudo potencializa a presença dos atores, afinal, existem muitas possibilidades narrativas. Para nós é um pouco amedrontador, porque ninguém sabe o que vai acontecer. Muitas vezes, os espectadores ficam com vontade de voltar, porque ficam insatisfeitos com suas escolhas ou como o espetáculo foi conduzido pelo público. Querem ver outro final. Este é um sentimento comum nos jogos, queremos jogar várias vezes para experimentar outras possibilidades da mesma estória.

seLecT: O que muda na criação das narrativas teatrais quando você deixa o público influenciá-la ao vivo?

Games não apresentam uma sequência de eventos, mas estabelecem uma relação com o jogador que faz emergir um conjunto heterogêneo de eventos a partir de um banco de dados. Esse mecanismo expande a noção da narrativa fundamentada na mímese, como é o caso do teatro. No teatro, um drama que narra o cotidiano de uma família, por exemplo, dá informações e uma sequência de ações envolvendo seus membros. Este encadeamento ocorre de forma rígida. Nos games, ao contrário, a sequência se reorganiza a partir de estímulos do interator. Isso exige um texto com várias possibilidades armazenadas que o espectador atualiza durante a apresentação, isto é, uma dramaturgia potencial. Às vezes, os eventos são desconexos ou repetitivos, isso depende da destreza do interator. O sentido surge do encontro com o público. Isso não quer dizer que não exista um discurso ou uma reflexão. Não nos colocamos à deriva, não se trata de improvisação. É uma experiência dialógica, precisamos estar atentos ao estímulo que vem de fora. O ator precisa estar em pleno estado de jogo, vencer todos os automatismos e vícios da profissão em prol do encontro real com o espectador. Contraditoriamente, precisa estar atento para não se tornar refém do público, querendo agradar todas suas vontades. Não se trata de servilismo, em hipótese alguma. Discordar também é dialogar.

seLecT: Como os espetáculos teatrais devem se posicionar frente à tecnologia? Deve-se mudar a forma de fazer teatro?

As novas tecnologias sempre influenciam a arte, por isso não faz sentido resistir às mídias digitais ou encará-las como antagonistas do teatro. A maquinaria cenográfica, a iluminação, o cinema, as projeções, tudo isso transformou o espetáculo ao longo da sua história. Como lidar com essas novas mídias? O teatro pode tanto se utilizar destes novos recursos, quanto alterar qualidades mais sutis da cena: num mundo saturado de informações, como é o diálogo entre os personagens? Como o personagem se apresenta? Existe um personagem, uma entidade psicológica simulando um ser humano? Agora, que estamos habituados a uma convivência mediada pela interface, como o ator se coloca diante do espectador? Como lidar com os espectadores que se conectam e enviam mensagens durante uma cena trágica? Enfim, são inúmeras questões sem resposta. É impossível formular uma receita de como o teatro deve se posicionar. Eu, por exemplo, estava interessado na invenção de uma dramaturgia que se transformasse com a ação do espectador. Esse foi o primeiro passo deste trabalho. Foi a minha maneira de problematizar a relação do teatro com a tecnologia. Da próxima vez, posso trabalhar com um texto linear, numa relação de espectador tradicional, e lidar com a questão de maneira completamente diferente. Mas não podemos esquecer que os espectadores mudaram.

Serviço:

Incubadora – Versão Final

Sábados e domingos, até 21 de abril. às 19 horas

Local: Caçamba Cultural – Rua Muniz de Souza, 517 – Aclimação.

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