Por que homenagear bandidos

A propósito de duas obras de Hélio Oiticica que estarão na exposição A dança na minha experiência, no MAM Rio, a partir de 12/12

Márion Strecker

N° Edição: 48

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: Destaque, Opinião

Seja marginal seja herói (1968), de Hélio Oiticica (Foto: Jaime Acioli)

Entre os trabalhos mais famosos de Hélio Oiticica estão o objeto tridimensional Bólide caixa no. 18 – B33 “Homenagem a Cara de Cavalo”, concebido em 1965, e a bandeira-poema Seja marginal seja herói, de 1968. As duas obras prestam homenagem a supostos bandidos daquela época e, por isso, frequentemente causam indignação ou espanto. Este texto procura trazer os motivos que levaram Oiticica a fazer esses trabalhos, com informações sobre o contexto político e cultural em que foram criados e escritos deixados pelo artista.

Cara de Cavalo era o apelido de Manoel Moreira (1941-1964), um jovem da hoje extinta Favela do Esqueleto. Ele teria se iniciado na criminalidade quando menino, vendendo maconha na Central do Brasil. Hélio o conhecia. Consta que, aos 23, Manoel Moreira extorquia apontadores do jogo do bicho em Vila Isabel, zona norte do Rio, até ser denunciado por um dos bicheiros e sofrer uma emboscada da polícia.

A emboscada resultou num tiroteio em que o detetive Milton de Oliveira Le Cocq foi morto. Era 27 de agosto de 1964. O detetive Le Cocq teria recebido cinco disparos. O Brasil estava sob ditadura militar. O detetive Le Cocq tinha um bordão: “Bandido que atira num policial não deve viver”, o predecessor de “Bandido bom é bandido morto”, slogan que ressoa até hoje nas polícias e na política brasileira. 

Helio Oiticica e o Bólide Cara de Cavalo (Foto: Divulgação)

Manoel Moreira foi acusado pelo assassinato do detetive Le Cocq. Jurado de morte, foi caçado por 2 mil policiais em quatros estados do país. Pessoas parecidas com ele chegaram a ser mortas por engano.

Cinco semanas depois, Cara de Cavalo foi encontrado na casa de uma família onde ele dormia naquela madrugada, na região dos Lagos. Teve uma morte espetacular. Mais de 100 tiros foram disparados pelos policiais contra ele, sendo que 62 o atingiram, a maioria no abdômen. 

Soube-se mais tarde que Cara de Cavalo havia sido executado pela Scuderie Detetive Le Cocq, um grupo de extermínio que chegou a ter 7 mil associados e só foi considerado oficialmente extinto em 2005.

Na visão de diversos pesquisadores, é da Scuderie Le Cocq que surge o Esquadrão da Morte, organização paramilitar criada na Guanabara (hoje Rio de Janeiro) no final dos anos 1960 que se disseminou pelo país. Era formada por policiais, articulada com políticos e mantida por empresários. O objetivo era eliminar pessoas tidas como perigosas para a sociedade.

Outros grupos de extermínio surgiriam. “Limpar a cidade” passou a incluir eliminar adversários políticos ou econômicos dos contratantes. E assim chegamos ao século 21 com milícias no controle de muitos territórios do Rio de Janeiro atual. Lembremos o recente assassinato da socióloga e vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (1979-2018), entre tantos outros.

Hélio era amigo de Cara de Cavalo. Mas, ao contrário do que pode parecer com seus trabalhos, ele não isentava Cara de Cavalo de erros nem da responsabilidade pelo seu próprio destino. Foi exatamente isso o que Hélio deixou por escrito em seu texto “O herói anti-herói e o anti-herói anônimo”, de 1968. Entretanto, escreveu também que a homenagem surgiu como “momento ético”.

Para o artista, Cara de Cavalo foi um bode expiatório. Tornou-se “símbolo de opressão social sobre aquele que é ‘marginal’ – marginal a tudo nessa sociedade; o marginal“, como sublinhou. O motivo da homenagem “é a maneira pela qual essa sociedade castrou toda a possibilidade da sua sobrevivência, como se fora ele uma lepra, um mal incurável – imprensa, polícia, políticos, a mentalidade mórbida e canalha de uma sociedade baseada nos mais degradantes princípios, como é a nossa, colaboraram para torná-lo o símbolo daquele que deve morrer, e digo mais, morrer com violência, com todo requinte canibalesco (o motivo chave para isso foi o assassinato, numa luta, do detetive Le Cocq, do Esquadrão da Morte, organização policial que envergonharia qualquer sociedade de caráter, composta de policiais assassinos e degradados, que até hoje milita por aí com outras pessoas e outros nomes)”, continua o texto.

Há um “gozo social misto”, escreve Oiticica, “mesmo entre os que se dizem chocados ou sentem ‘pena’. Neste caso, a homenagem, longe do romantismo que a muitos faz parecer, seria um modo de objetivar o problema, mais do que lamentar um crime sociedade x marginal. Qual a oportunidade que têm os que são, pela sua neurose auto-destrutiva, levados a matar, ou roubar etc.”, pergunta-se o artista, para responder em seguida. “Pouca, ou seja, a sua vitalidade, a sua defesa interior, a sobrevivência que lhes resta, porque a sociedade mesmo, baseada em preconceitos, numa legislação caduca, minada em todos os sentidos pela máquina capitalista consumitiva, cria os seus ídolos anti-heróis como o animal a ser sacrificado.”

O poema-bandeira reproduz uma foto de jornal de Alcir Figueira da Silva que, “ao se sentir alcançado pela polícia depois de assaltar um banco, ao meio-dia, jogou fora o roubo e suicidou-se”, na descrição do artista. “Numa outra obra (Bólide caixa no. 21 – B44 – 1966/67), quis eu, através de imagens plásticas e verbais, exprimir essa vivência da tragédia do anonimato, ou melhor, da incomunicabilidade daquele que, no fundo, quer comunicar-se”.

Os anti-heróis, para Oiticica, denunciariam a necessidade de uma “reforma social completa”. Quando não fosse mais preciso sacrificar tão cruelmente pessoas como Cara de Cavalo, “aí então seremos homens e antes de mais nada gente”, concluiu no texto de 1968 em sua linguagem peculiar.

No final daquele ano, seria decretado o Ato Institucional número 5 (AI-5) e começaria o período mais repressivo e violento da ditadura militar brasileira, que suprimiu liberdades individuais, obrigou a imprensa, as artes e os espetáculos a censura prévia, aposentou compulsoriamente professores, perseguiu oponentes, decretou prisão e exílio de dissidentes, institucionalizou a tortura e a morte. Esse período se estendeu até o final do governo Emílio Garrastazu Médici, em 1974, e ficou conhecido como os anos de chumbo.

Márion Strecker é jornalista e editora de conteúdos artísticos do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

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