Por que junto é melhor que separado?

Coletivos justificam a escolha por trabalhar em grupo e levantam a importância de atuar coletivamente, enfrentando desacordos e conflitos

Da redação
Registro da performance Cancioneiro Terminal 10mg - Eterno Work in Progress (Foto: Marcelo Mudou)

Mexa, coletivo de performance, São Paulo

Porque qualquer outra escolha seria escolher ignorar que a gente não consegue mais ficar sozinho. Mas não do jeito romantizado. Não há espaço para um sem o juntos. Senão um excessivo ignorar do espaço, do ar, do cheiro que vivemos, ocupamos e produzimos. Não há mais um espaço dado para o luxo de estar sozinho. Não na gente. E entendendo esta ideia romântica do estar juntos, quando conseguimos estar juntos, de verdade e não fantasmagoricamente ou em nossas mentes, o imaterial que resulta desse estar juntos transforma-se em nosso material de trabalho. Aquele que alguma vez escolhemos para trabalhar torna-se muito difícil de negar ou estúpido de tentar reverter. Imaginem criar o des-juntar. O estar juntos é pesado, dá muito trabalho. O estar juntos traz os que estão ofendidos perto dos que escondem investigações secretas e, neste cansativo trabalho de estar juntos, estes dois colidem em algo que nós estamos interessados em performar, como performers de um grupo de performance. Podemos nos encontrar seguros como pessoas que perderam todos os seus privilégios, mesmo sem nunca ter tido noção deles; podemos imaginar uma luta entre uma representante transfeminista e uma feminista que se baseia no material do feminismo, que reclama uma vagina ou um útero. Podemos nos opor a uma travesti que, ofendida, disse que ser transgênero está longe de ser uma doença contagiosa. A gente fica do lado da doença, que longe de ser uma responsabilidade só do doente, é uma responsabilidade social, de um poder incontrolável. A gente pode flertar com o médico que insiste em patologias, decidindo quem sãos os doentes clínicos; a gente quer a prescrição da droga. Nunca sempre dá certo. A gente entende aquilo romântico do juntos, mas a gente está junto porque teve um dia que parar de ignorar que não tinha outra forma possível de estar sozinho neste trem. Todos nós somos como esta Azaleia Branca, temos belezas, purezas, franquezas. Todos os dias exalamos uma pureza referente ao ar livre de cada dia. Até o dia de partir. Ali sozinhos.

O coletivo Micrópolis (Foto: Micrópolis)

Micrópolis, coletivo de arquitetos, Belo Horizonte

Quando começamos a trabalhar juntos, a nossa maior motivação era a possibilidade de experimentar uma tipologia de trabalho que não encontrávamos dentro da universidade e, muito menos, nos formatos dos escritórios que atendem às demandas do mercado formal de arquitetura. A busca por essa outra via, um caminho que naquela época parecia ser ainda um tanto nebuloso e incerto (e hoje nem tanto), só seria possível com um esforço coletivo, por meio do qual foi possível testarmos uma estrutura experimental de trabalho, livre de uma organização hierárquica e das amarras da autoria individual. Hoje entendemos que fazer junto é também dissentir, e uma relação de trabalho horizontal e flexível deve estar disposta a lidar com os desacordos. Afinal, a coletividade é composta de indivíduos com pontos de vista divergentes que se envolvem para elaborar e responder questões comuns, motivados por interesses e afetos compartilhados. Nesse processo, os desacordos e os conflitos são constantes, o que poderia ser encarado como obstáculo. Mas preferimos enxergar isso com uma inquietude produtiva, que nos faz debater, revisar, antecipar problemas e desenvolver a nossa prática constantemente. E essa construção só se consegue fazer junto.

O coletivo Atelier do Centro (Foto: Atelier do Centro)

Atelier do Centro, coletivo artístico,  São Paulo

Acredito que a ideia de “separado” seria, para começar, um equívoco, considerando que mesmo aqueles que construíram qualquer coisa no “isolamento” são devedores de uma tradição, de uma história, de um contexto, e estavam bem cientes que faziam parte de um coletivo, nem que este seja a própria espécie humana – não estavam sozinhos. Não acho que seja uma questão de ser melhor ou pior “junto” ou “separado”, mas acho que a ideia de separado é fantasiosa, já que vivemos e lidamos diariamente com o outro. É extremamente importante sermos capazes de desenvolver a capacidade de dialogar com o mundo, com o que está fora de nós, com o outro, com problemas reais, para não passarmos uma vida girando em torno do próprio umbigo. Nada se constrói sozinho.

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