Por que você pagaria por uma residência artística?

Laura Belém, Daniel Jablonski, Bruno Mendonça, Flora Leite e Juliana Cerqueira Leite respondem à pergunta

Da redação
Flora Leite (Foto: Beatriz Leite)

Projetos autointitulados como residências artísticas muitas vezes cobram do artista para que ele possa participar de seu programa – às vezes, até mesmo uma taxa de inscrição. Teoricamente, o que o artista recebe em troca é um ateliê, maior visibilidade e diálogos produtivos. Será que essas promessas de fato se realizam? A seguir, artistas que já participaram de residências de arte respondem à pergunta. 

Flora Leite
São Paulo, 1988. Vive e trabalha em São Paulo
Programas de residências apresentam-se, sobretudo, como situações intensas de interlocução e, através do diálogo com outros artistas ou outros agentes do meio, tendem a abrir novas possibilidades de trabalho para o desenvolvimento da pesquisa. No entanto, dentro de um contexto de produção competitivo e desigual, as residências tornaram-se, em alguns casos, mais uma etapa de institucionalização, inserção e visibilidade. Nós, artistas – já acostumados a pagar para trabalhar em troca de capital simbólico –, muitas vezes consentimos um sistema que é estruturalmente nocivo: ainda que a participação em determinados programas possa se apresentar como muito frutífera em termos de produtividade ou de continuidade do trabalho, a demanda contínua de investimento financeiro por parte do artista não só continua sendo um dos principais crivos de atuação no meio, como também nos exige frequentemente uma posição de autoexploração.

Laura Belém (Foto: Robert Tina Braun)

Laura Belém
Belo Horizonte, 1974. Vive e trabalha em São Paulo
Eu não pagaria por uma residência artística. Já participei de algumas, em países distintos, e nunca paguei para participar. Pelo contrário, muitas vezes as residências foram a maneira que encontrei de viabilizar meu trabalho e pesquisa. Como eu não contava com ajuda financeira de terceiros e tampouco podia depender do mercado, devido à natureza experimental e instalativa do meu trabalho, sempre optei por residências que pudessem viabilizar a minha estada num local, juntamente com uma bolsa de produção. No decorrer da minha carreira, concentrei-me em buscar programas que me possibilitassem esse tipo de suporte e que fizessem sentido para a minha pesquisa. Esses programas são mais competitivos, mas eles existem. O outro motivo é que entendo as residências justamente como lugares de fomento; locais que possam oferecer espaço, tempo, interlocução e financiamento para o artista se concentrar em sua produção e dar “voos” experimentais. No momento, estou participando como convidada de uma residência na Alemanha. Fui convidada pela Wildbad Art Residency, em Rothenburg ob der Tauber, para uma estada de três meses, com o propósito de criar uma escultura pública para o Parque Wildbad. Meu trabalho será uma instalação com elementos escultóricos e um áudio de quatro canais, que conta com a colaboração da poetisa germano-suíça Nora Gomringer. Nora e eu compartilhamos algumas questões, como memória e oralidade, e ela também se interessa pelo som. Estou muito feliz, pois, além dessa colaboração preciosa que nasceu nesta residência, este será o meu primeiro trabalho público permanente.

Daniel Jablonski (Foto: Acervo Pessoal)

Daniel Jablonski
Rio de Janeiro, 1985. Vive e trabalha em São Paulo
Quer aconteçam no coração de Manhattan, quer em uma comunidade pesqueira na Islândia ou no interior de um contêiner em um cargueiro atravessando o Pacífico, residências artísticas hoje compartilham um mesmo pressuposto: novos contextos de trabalho incitam novas formas de trabalho. Isto é, de certa forma, verdadeiro, e já tive a oportunidade de verificá-lo algumas vezes. Mas é também necessário situar a questão para além de meu testemunho de artista. Pois esse deslocamento, antes excepcional, constitui hoje o modo de funcionamento do establishment da arte, sempre mudando seu foco para outro lugar. Ora, quando a exceção se torna a regra do jogo, também as residências passam a fazer parte desse roteiro institucional a que todo artista com alguma pretensão em sua carreira tem de cumprir. Tal itinerário, é claro, é sempre acordado tacitamente, nunca de forma explícita. Assim como o fato, aparentemente “trivial”, de que caberá aos mesmos assumir os custos de uma legitimação que, a bem da verdade, poderá não vir jamais. Desse ponto de vista, perguntar “Por que você pagaria por uma residência artística?” é apenas uma forma periférica de me perguntar como artista “Por que pago para trabalhar?”

Bruno Mendonça (Foto: Fagner Damasceno)

Bruno Mendonça
São Paulo, 1987. Vive e trabalha em São Paulo
Acho que essa questão das residências é algo que deve ser analisado caso a caso, pois envolve diversas camadas sociopolíticas e econômicas. Posso dar um exemplo bem prático sobre isso: quando fui residente, em 2017, de um espaço xis, inseri a residência dentro do orçamento do meu projeto para a Trienal de Artes do Sesc, pois havia para mim naquele momento essa necessidade. Ou seja, a atividade institucional pagava o espaço xis – que se inseria nesse formato de residências pagas. Mas, se fosse outro espaço (nacional ou internacional) que, infelizmente, não tivesse as mesmas articulações e dependesse quase exclusivamente de políticas públicas para suas atividades e, somado a isso, apresentasse uma proposta política que me interessasse muito, talvez eu pagasse, como já o fiz. Lógico que neste caso abro também um campo de diálogo, ou seja, “eu te pago e você me ajuda com isso…”. Esse “isso” pode ser uma hospedagem amiga, comida etc. O que quero dizer é que devemos analisar as estruturas e os contextos, pois acredito no artista como trabalhador e acho que, dependendo do espaço com o qual eu esteja negociando, não concordo em pagar por ele. Sabemos que muitas residências oferecem todo um capital, simbólico ou não, mas, pensando que o artista é também um elemento nessa economia abstrata das artes, acho que temos de pensar criticamente quando isso vale a pena.

Juliana Cerqueira Leite (Foto: Acervo Pessoal)

Juliana Cerqueira Leite
Chicago, EUA, 1981. Vive e trabalha entre São Paulo e Nova York
O ideal é não ter de pagar por uma residência artística. A importância da residência pode ser afetada negativamente pelo pagamento. As residências que oferecem mais apoio financeiro costumam ser as de maior renome internacionalmente, com um processo de seleção mais exigente. Residências pagas também podem perpetuar o ciclo negativo, onde quem tem mais dinheiro tem acesso a mais oportunidades como artista. Eu já paguei por residências quando precisava trabalhar ou conduzir pesquisa em uma cidade onde eu não tinha muita conexão com a comunidade artística local. A residência paga frequentemente não é mais cara se comparada com o aluguel de um espaço como ateliê temporário. Em muitas cidades simplesmente não existem residências que venham com apoio financeiro e, em geral, para a artista itinerante costuma ser bem difícil encontrar espaços comerciais onde seja possível produzir arte por um ou dois meses. Através da residência a artista tem um espaço, e também é introduzida em uma comunidade que seria difícil engajar sozinha. Nesses casos de deslocamento por projetos temporários vale muito a pena esse tipo de residência. Em outros casos, um currículo com muitas residências pagas pode ser visto como produto de uma aceleração carreirista, algo que contamina muito o cenário da arte contemporânea atualmente. 

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