Portos: Relato de uma travessia curatorial

Exposição no SESC Santos reúne a diversidade artística da Baixada Santista, questionando a distinção entre arte e artefato como datada

Ilana Seltzer Goldstein

Publicado em: 19/10/2021

Categoria: Da Hora, Destaque

Cestaria(ajaká) (2021), de Elida Andreia Escobar Bichinhos (2021), de Thiago Vera Benites da Silva e de Elizeu Werá Tukumbo da Silva (Foto: Bruna Quevedo)

Talvez um dos poucos efeitos positivos da pandemia tenha sido a oportunidade de conhecer melhor aquilo que nos é próximo e que, normalmente, passa despercebido. O Serviço Social do Comércio (Sesc) de Santos, em meio aos questionamentos suscitados pela crise sanitária, decidiu abrir espaço em seu programa de exposições para artistas da região, que contam com poucos equipamentos culturais para mostrar e valorizar sua produção. Foi assim que, em dezembro de 2020, recebi o convite desafiador de fazer a curadoria de Portos – Processos Orientados via Território e Ocupações Santistas. Fui tocada pelo desejo da técnica de programação Aline Stivaletti e da equipe que integra de se aproximarem dos artistas da Baixada Santista, num momento de crise do setor e isolamento social.

Como não seria possível visitar ateliês, nem conversar face a face com os artistas, a seleção foi feita a partir de um levantamento prévio de cerca de trezentos nomes que haviam sido identificados pela instituição, nas cidades de Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe. Examinamos portfólios, enviamos questionários, conversamos por telefone e videochamadas. Sofremos com adoecimentos e perdas, tanto entre os membros da equipe, como entre os artistas.

As imagens e depoimentos que chegavam eram surpreendentemente ricos. Decidi não formular um conceito curatorial a priori, mas mergulhar no conjunto de trabalhos, para que os eixos curatoriais emergissem do próprio material. Na medida em que olhávamos para as obras, notamos que se agrupavam organicamente em torno de alguns temas vinculados ao território, em suas múltiplas dimensões – geopolítica, ecológica, identitária, simbólica, entre outras.

A primeira parte dos trabalhos trata dos deslocamentos pelo mar, de embarcações, da atividade da pesca e de memórias afetivas vinculadas à paisagem praiana. Isso deu origem ao módulo Mar, o primeiro do percurso expositivo.

O navio pintado a óleo por Ludemar Victor, que faleceu de sequelas da Covid-19 pouco antes da abertura, é retratado em posição e ângulo similares ao navio da xilogravura de Renata Salgado. Marcados pela sobriedade, pela precisão da linha e pelo volume, ambos contrastam com as paisagens portuárias chapadas e coloridas de Gilda Martins de Figueiredo e Ildefonso Torres Filho – a mestra e seu aluno. E os quatro trabalhos dialogam com Perequê, instalação de Mauricio Adinolfi composta pela proa de um barco caiçara corroída pelo tempo, com ossos de baleia encontrados no Guarujá pairando acima dela – vestígios estruturais da pesca artesanal e de um modo de vida que vai se tornando raro.

Enquanto Adinolfi esteve no local pessoalmente para acompanhar a montagem, o artista exposto atrás dele, “Seu” Domingos, faleceu durante o planejamento de Portos. Membro de uma família de pescadores, aposentou-se da pesca e passou a vender miniaturas em madeira de embarcações. Diariamente, esculpia e vendia suas esculturas em uma barraquinha. Como inicialmente tivemos dificuldade de encontrá-las e como não identificamos seguidores diretos de seu ofício, decidimos retratar a barraca de madeira, tanto na época em que estava cheia de vida, quanto no estado recente de vazio e abandono. A ideia era trazer o problema da perda da memória para dentro da exposição. Após discutir a questão numa longa e vibrante reunião da equipe, optamos por imprimir sobre um grande tecido transparente fotos de Renê Calazans, que conviveu com o pescador-artista, em Mongaguá, onde ambos residiam. Como sintetiza a arquiteta Tatiana Durigan: “lançamos mão de um jogo de luz que sugere justamente uma imagem em vias de desaparecer, um saber fazer em vias de se apagar”. No final, o produtor local, Wagner Bastos, conseguiu encontrar alguns barcos de “Seu” Domingos no Museu Histórico e Geográfico de Mongaguá, que vieram se somar às fotos da barraquinha.

Barquinho de “Seu” Domingos em madeira caxeta, 2013; retrato de sua barraca, de Renê Calazans (2015). Sem Título (2021) (Foto: Christian Strube)

A vida caiçara também é matéria-prima do trabalho de Izaura Campos, conhecida pela fabricação de luminárias, brincos e pombas do Divino feitos de escamas de peixe. Propusemos que ela mostrasse ao público um pouco da vida no Caruara, comunidade de aproximadamente 6 mil pessoas que fica na parte continental de Santos. Ao longo de muitas conversas, emergiu a ideia de criar uma rede de lembranças e vivências do Caruara. Dona Izaura produziu porta-retratos para mostrar fotos de paisagens do entorno, fez réplicas de flores da Mata Atlântica, representou, com escamas, animais da fauna marinha, além de ter escolhido ready-mades da vida doméstica, como a colher de pau e o bule de café – importante por ser “a primeira coisa que se oferece às visitas”. Tudo foi pendurado numa sobreposição de redes de pesca que saem de um balaio e se espalham pela parede. O fato de o balaio ser de plástico, de os peixes estarem colados sobre discos de vinil reciclados e de o bule ser de metal evidencia as diferentes temporalidades que atravessam qualquer comunidade tradicional nos dias de hoje.

Dona Izaura fez questão de colocar as escamas de peixe em estado bruto perto da instalação, orgulhando-se de sua atividade artesanal. Ao mesmo tempo, contou-nos ter ressignificado seu trabalho a partir da experiência em Portos: ficou feliz ao perceber que pode produzir obras de arte para uma exposição, ao lado de artistas que admira, consagrados no circuito.

Perequê (2021), de Maurício Adinolfi, e Mar (2021), de Izaura Santos (Foto: Bruna Quevedo)

Com efeito, a não hierarquização entre as obras e o tratamento horizontal dedicado a todos os artistas foram dois princípios curatoriais. Os pró-labores foram definidos a partir de parâmetros objetivos (produção original ou empréstimo de obra existente, número de impressões etc.). Por ser antropóloga, tendo a desconfiar de classificações cristalizadas. Se aceitasse a definição corrente no sistema da arte, baseada no desinteresse material, no diálogo com a história da arte ocidental e na assinatura reconhecida pelas instâncias de legitimação, não poderia realizar nem orientar pesquisas sobre artistas autodidatas e indígenas, por exemplo. Assim, em Portos, tratamos a distinção entre arte e artefato como datada e questionável, até porque objetos, imagens e práticas são constantemente reclassificados – inclusive por projetos curatoriais.

Um segundo subconjunto das obras selecionadas trata da vegetação, do relevo e dos animais do litoral Sul paulista, dando origem ao módulo Terra. As frotagens e pinturas de Ana Akaui recriam os veios da madeira, a textura dos troncos e das folhas. Os desenhos com lápis e caneta de Cris Alonso também dão forma a árvores: alegóricas, mágicas e futuristas. As fotografias de Fúlvia Rodrigues captam animais silvestres em liberdade. As pequenas gravuras em metal de Rachel Midori dão a ver a silhueta da Serra do Mar, da mesma forma que a projeção de luz através de um vidro pintado por Lidia Malynowskyj alude à textura das montanhas. As rochas, por sua vez, são evocadas por dois trabalhos monocromáticos de Paulo Climachauska, que incorpora eixos roliços às telas, coloridos com tinta automobilística.

Memórias de uma Árvore Morta (2020), de Ana Akaui (Foto: Bruna Quevedo)

Como se nota pelos sobrenomes dos artistas, é grande a diversidade de origens. A diferença nas trajetórias também é significativa. Para dar apenas dois exemplos, enquanto Cris Alonso nunca havia participado de uma exposição, Climachauska já foi convidado para bienais, dentro e fora do país, e possui obras em acervos de museus brasileiros importantes. O convite a artistas com diferentes perfis e graus de experiência foi uma aposta na possibilidade de o contraste valorizar as especificidades; de o conjunto de obras ser mais representativo; e de os artistas se conhecerem e aprenderem uns com os outros. Em relação ao vínculo com a Baixada, pactuamos que o artista poderia ser nascido, residente e/ou atuante na região.

As Três Montanhas (2015), de Lidia Malinowskyj (Foto: Bruna Quevedo)

Além de trazer visões sobre a paisagem natural, o módulo Terra abriga trabalhos voltados ao enraizamento dos grupos sociais e às disputas por território. Não por acaso, foi aqui que Cristine Takuá e Carlos Papá, da Aldeia do Rio Silveiras, optaram por situar o núcleo indígena dentro da exposição. Eles trouxeram uma concepção muito interessante para seu núcleo: mostram, simultaneamente, a dimensão material e a imaterial da arte indígena. Assim, em frente a animais esculpidos em madeira e tingidos por fumaça, à cestaria trançada, à zarabatana de caçar macacos e ao maracá, tão importante nos rituais, projetam um vídeo produzido em parceria com várias terras indígenas da Baixada, no qual se vê o processo de fabricação das peças, o modo como são utilizadas e a paisagem viva e pulsante em que ganham sentido.

Se os curadores indígenas chamam a atenção para a dimensão ancestral e espiritual do território, a curadoria geral de Portos pensou no território não apenas como área geográfica, mas também como paisagem social e historicamente construída, em que as dimensões política e simbólica são fundamentais. É por isso que a obra de Maurício Ianês, embora externa ao espaço expositivo, integra o módulo Terra. Foram muitas as trocas de mensagens, desde a primeira ideia – depois descartada – de tingir a piscina do Sesc de vermelho, evocando o sangue derramado pela invasão colonial, até chegar à forma atual, com frases formuladas por Ianês, adesivadas no vidro da fachada do Sesc Santos, trazendo dizeres ácidos, como “Toda fronteira é tingida de sangue”. Maurício Ianês se encontra atualmente fora do país, de modo que a equipe de produção foi fundamental, descrevendo as possibilidades e os obstáculos que a fachada do Sesc oferecia, sugerindo alternativas e assim por diante.

Em Portos, o processo de concepção e as escolhas sobre o que e como expor foram, em grande medida, compartilhados. Durante a fase de definições, nas tratativas com fornecedores, na redação de textos e na montagem, foram preciosos o cuidado e a competência da assistente de curadoria Daiane Marques; dos programadores do Sesc Aline Stivaletti, José Osvaldo Teixeira Jr., Alexandra Herbst Matos e Lígia Azevedo; dos produtores Rafael Moretti e Cássia Rossini, do coletivo Nós da Produção, bem como do assistente de produção local Wagner Bastos; da arquiteta Tatiana Durigan; da curadora educativa Flávia Paiva. Sem contar os próprios artistas, que deram sugestões e fizeram adequações, a fim de se alinhar à proposta geral – e às restrições de espaço e orçamentárias. O sociólogo Howard Becker estava coberto de razão quando escreveu que o mundo da arte é uma cadeia de interações, em que cada agente é fundamental para o resultado, e que a autoria única, muitas vezes, não passa de convenção.

Mas voltemos ao percurso expositivo. A divisão do trajeto em módulos é um recurso que serve, principalmente, à organização do pensamento, à estruturação da expografia e à possibilidade de destacar conexões entre subgrupos de obras. Contudo, as separações são, em certa medida, artificiais e os limites, permeáveis. A título de ilustração, o vídeo de Marina Guzzo, profissional de dança e professora universitária, poderia estar tanto no módulo Terra, como em Cidade, onde efetivamente se encontra. Sentindo falta da natureza exuberante durante o isolamento imposto pela pandemia, Guzzo realizou coreografias inspiradas em telas do francês Henri Rousseau, que retratam florestas tropicais imaginárias. Em Floresta#2 , ela constrói gradualmente uma pequena floresta em seu quintal, usando vasos e estantes, cenário e tema de sua performance.

O módulo Cidades abriga outras obras que se referem à arquitetura, à circulação e às questões sociais e ambientais que atravessam a vida urbana na Baixada. Laércio Alves construiu com arame uma miniatura de bonde que permite recuperar muitas histórias. O bonde começou a circular em Santos em 1871, ainda puxado por burros, e perdurou por cem anos. Nos anos 1950, bondes elétricos conectavam Santos e São Vicente, e havia carros para passageiros, cargas, casamentos e até enterros. Porém, todos os exemplares foram destruídos, quando eles saíram de circulação, na década de 1970. O bonde turístico que circula, hoje, pelo centro de Santos, precisou ser importado da Europa. A miniatura que Alves fez para Portos faz parte de seu projeto pessoal de valorização do patrimônio cultural regional.

O Bonde do Amor e da Liberdade (2021), de Laércio Alves (Foto: Bruna Quevedo)

A mesma preocupação com o registro do patrimônio histórico se faz notar nos delicados desenhos que Paulo von Poser realiza com lápis sobre telas, dialogando com fotos antigas de Benedito Calixto. Vale lembrar que Calixto, nascido em Itanhaém, foi provavelmente o mais famoso artista da Baixada Santista. Usava como pontos de partida para suas telas imagens produzidas com uma câmera fotográfica que trouxe de Paris, no final do século 19. As belas fachadas antigas que Marcia Santtos imprime sobre caixas de leite se encaixam na mesma vertente.

Obra de Márcia Santtos (2018) (Foto: Christian Strube)

Outro trabalho voltado à arquitetura histórica é a aquarela da Igreja Santa Cruz dos Navegantes, de Ludemar Victor, um dos raros registros desta edificação que foi derrubada pela maré. Victor trabalhava em bancos, mas sua família tinha uma loja de materiais artísticos, onde, em seu tempo livre, ele dava aulas de pintura. Entre seus alunos, destaca-se a grande pintora abstrata Mai-Britt Wolthers, que integra o módulo Terra. O binômio construção-destruição do patrimônio urbano é performado de modo metafórico por Eleonora Artysenk que, no vídeo Show Me from Behind the Wall, constrói e destrói muros em um loop contínuo.

Na paisagem urbana de Santos, a mureta branca com círculos vazados é emblemática. Ela aparece nas telas dos autodidatas Maria Inês Veríssimo e Tomzé Scala, que retratam o trânsito de navios com o perfil da cidade ao fundo, da perspectiva da mureta. Foi também observando fotos de muretas grafitadas que descobrimos as intervenções urbanas do coletivo (a)gente, formado por Natália Brescancini e Erik Morais. Para Portos eles propuseram pequenas invasões poéticas por meio de lambe-lambes espalhados nas salas, nos pilares e cantinhos, com trechos impressos da escritora Madô Martins e figurinhas que remetem a outras obras ali expostas.

Invasões Poéticas: Lambendo Portos (2021), do coletivo (a)gente. (Foto: Christian Strube)

No módulo Cidades também está o mural Juízo Final, de Jhoni Morgado, que costuma atuar em espaços públicos como escolas, ruas e comunidades. Seu desenho em preto e branco, muito detalhado, com 5 metros de largura, cria uma cena que mistura alusões bíblícas com o cenário apocalíptico atual. Conforme descrição do próprio grafiteiro, do lado direito do painel, há pessoas vestidas de modo simples, que vivem na rua e tentam se proteger do perigo usando máscaras de pano sobre a boca e o nariz. Do lado oposto, estão indivíduos com vestimentas opulentas, detentores do monopólio da salvação, ilustrada por uma seringa. No meio, um personagem lê um livro e outro segura uma balança, representando a Ciência e a Justiça. Ambos trajam vistosas máscaras anti-fumaça.

Juízo Final (2021), de Johny Morgado. Em processo, durante a produção de Portos. (Foto: Wagner Bastos)

Talvez a fumaça venha de uma fotografia documental de Fred Casagrande, ao lado do mural de Morgado, em que um homem foge de um incêndio em uma favela sobre palafitas. Alguns metros adiante, as mesmas palafitas aparecem miniaturizadas, com canoas atracadas, escadinhas e passarelas, pelas mãos de um de seus moradores, Wilson Júnior. Como se nota, o percurso expositivo é pontuado por relações temáticas ou formais entre as obras. E todos os módulos abrigam alguns trabalhos que sinalizam tensões dentro da macrotemática.

Na Folia… Marungo é que é Rei (2021), de Tubarão Dulixo (Foto: Bruno Quevedo)

Há um quarto subconjunto dedicado às relações sociais e à vida coletiva na Baixada. O boneco do personagem jocoso Marungo, construído por Tubarão Dulixo com material reciclado, evoca a importância da Folia de Reis – e de outras celebrações religiosas – no litoral paulista. A sociabilidade é abordada por Kelly Alonso Braga em duas pinturas de pequeno formato em que a pausa para o cafezinho é o tema principal. Situação igualmente prosaica e igualmente fundamental está em uma fotografia de Marcos Piffer, realizada no estádio do Santos Futebol Clube, em que o protagonista é o funcionário que pinta a linha branca do gramado.

Tédio entre Irmãs (2015), de Kelly Alonso Braga (Foto: Bruna Quevedo)

A internalização de regras de conduta que nem sempre fazem sentido é ironizada por Geandré, desenhista de humor com longa trajetória na imprensa. Em Cartum, de 1974, uma pessoa segue cegamente o que lhe mandam. Um interessante contraponto a este desenho é oferecido por outros trabalhos do módulo Retratos, ao questionarem convenções e revelarem a diversidade da Baixada Santista. É o caso do grafite Akasala, de Nenê Surreal, que figura o beijo de duas mulheres e põe em pauta a relação homoafetiva; de Raízes Pesadas, série de três desenhos feitos em cadernos por Raphaela Gomez, que desnudam o corpo, desafiando os padrões estéticos difundidos pela cultura de massa; e também do vídeo Sejamos Notáveis, de Augusto Pakko, retrato potente e poético dos sujeitos subalternizados da periferia.

Raízes Pesadas (2021), de Raphaella Gomez (Foto: Bruna Quevedo)

Há mais tensões dentro deste módulo. Três números do boletim Papo Reto, produzido com e para a população em situação de rua, podem ser vistos em Portos Com desenhos de Mari Lucio, que é também diretora de arte do projeto, abordam temas como a higiene durante a pandemia e o censo da população de rua. Joyce Farias, por sua vez, ajuda a lembrar as origens históricas da desigualdade social entre nós: pinta sombras de figuras da iconografia da escravidão sobre páginas do livro Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre.

Fechando o módulo Retratos e também a exposição, está a intervenção de Luis Marq’s. Além das pichações em alfabeto cifrado – que, conforme Marq’s nos contou, estampam palavras como “solidariedade” e “paz” – ele decidiu acolher em seu espaço outros sete criadores e ativistas sociais que atuam na Vila Margarida, em São Vicente. Fotos de seus convidados foram impressas em lambes, por sugestão do produtor Rafael Moretti. Elas têm um efeito desfocado na altura dos olhos, aludindo ao risco de identificação de pichadores e ao limbo jurídico desta prática. Marq’s pretendia colocar minibiografias dos outros sete em textos escritos, abaixo das fotos. Em vez disso, a equipe propôs que fossem gravados áudios com depoimentos, acionados por QR code junto a cada foto, e que ficassem disponíveis na Rádio Portos. Em tempo: a Rádio Portos é uma plataforma criada pela curadoria educativa, na qual os visitantes podem registrar depoimentos tanto sobre o seu vínculo com a Baixada Santista, como sobre suas impressões a respeito da exposição.

Pixo, Fotografias, Pessoas e Favela (2021), de Luis Marq’s. Foto: Bruna Quevedo.

A ênfase em educação e formação tem sido forte no projeto, em diversas dimensões. Alguns artistas foram aprendizes de outros, presentes na mostra. Vários têm formação acadêmica ou são professores. A curadoria educativa foi contratada desde o primeiro dia, juntamente com a curadoria geral e desenvolveram seus trabalhos em parceria. O processo de concepção de Portos foi também compartilhado com o público. Antes mesmo da inauguração e também durante a mostra, os profissionais envolvidos ministraram cursos para compartilhar os bastidores do processo. Artistas vêm participando da programação paralela. O objetivo é proporcionar encontros entre os criadores locais, bem como fortalecer e qualificar a rede de profissionais da cultura na região.

Essa foi, sem dúvida, uma experiência curatorial singular. O distanciamento social nos levou a criar novas formas de trabalhar em equipe. O mergulho em um projeto novo e desafiador funcionou, para a maioria de nós, como um estímulo motivador em meio à pandemia, restaurando o brilho em nossos olhos. A possibilidade de refletir com liberdade permitiu ousar e experimentar. E o fato de contar com parceiros dispostos a construir em conjunto tornou a navegação prazerosa e, espero, bem sucedida.

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Ilana Seltzer Goldstein é professora do Departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo, onde co-coordena a Cátedra Kaapora, voltada a conhecimentos não hegemônicos. Atuou junto a organizações como SESC e Itaú Cultural, além de exposições como “O tempo dos sonhos: arte aborígene contemporânea”.

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SERVIÇO
Portos – Processos Orientados via Território e Ocupações Santistas
De 17 de junho a 20 de novembro de 2021

Local: Sesc Santos
Rua Cons. Ribas, 136 – Aparecida – Santos/SP
Telefone: (13) 3278 9800

Agendamento: https://www.sescsp.org.br/programacao/225042_PORTOS
Horários de visitação (6 pessoas por visita):
Terça a sexta: 12h45, 14h, 18h30, 19h45
Sábado: 11h, 12h15, 13h30, 14h45
Domingo: 11h, 13h30, 14h45

Vídeos disponíveis

Abertura online

Minidoc bastidores
https://sesc.digital/conteudo/artes-visuais/Portos-documentario-bastidores-libras

Visita virtual
https://sesc.digital/conteudo/artes-visuais/Portos-processos-orientados-via-territorio-e-ocupacoes-santistas-visita-virtual-libras

Mesa Curadoria e Diversidade

 

 

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