Portunhol sem fronteiras

Paula Alzugaray

Publicado em: 01/12/2011

Categoria: Ensaio, Reportagem

O portuñol é pessoal, intransferível e tem desdobramentos inesperados: o portunhol selvagem e o transportunhol borracho

Portunhol

Detalhe da capa de Tripa de Cadela, de Xico Sá, um dos livros em portunhol do catálogo da Dulcineia Catadora, editora Cartonera de São Paulo que também edita livros de artistas (foto: Divulgação)

No Brasil, se habla muito mais portunhol do que se avista o mar. Isso, a julgar pela extensão de 16.886 quilômetros de fronteiras com nove países da América Latina, ante apenas 7,3 mil quilômetros de costa. O portunhol, esse idioma transnacional, sem dicionário, academia ou regras ortográficas, se desdobra em tantos portunhóis quanto há turistas e clandestinos cruzando as divisas. O fenômeno é típico das traduções apressadas e literais, similar a outras contaminações linguísticas, como o guaranhol, o spanglish ou o chinglish, que até virou nome de peça de teatro, em cartaz na Broadway a partir de 11 de outubro. (Acesse e confira o slideshow produzido pelo New York Times). 

Mas com todo poder criativo dos outros, não há páreo para o potencial artístico, literário e cômico do portuñol. “Existe el portuñol de la frontera y el portuñol del viaje”, explica a artista argentina Ivana Vollaro, autora de documentário e série de trabalhos sobre o tema. “Los habitantes que limitan con Brasil como país vecino tendrán su portuñol regional, que seguramente no será el mismo del que vive en Buenos Aires y viaja a Rio de Janeiro. Los intentos ocasionales de relacionarse en una ciudad turística varían indudablemente en una frontera.” 

Entre as irrupções criativas das fronteiras, talvez a de maior projeção seja o portunhol natural de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul. Ali nasceu o portunhol selvagem, obra e criação do escritor Douglas Diegues. O portunhol selvagem é como Ponta Porã (MS, Brasil) e Pedro Juan Caballero (Amambai, Paraguai): uma conurbação. Se as malhas urbanas de ambas as cidades se expandiram até a fusão completa, o português brasileiro, o espanhol paraguaio e o guarani ali transbordaram seus limites, alagando-se, autodevorando-se e autodestruindo suas marcas identitárias. “El portunhol es bisexual. El portunhol selvagem es polisexual. El portunhol es meio papai-mamãe. El portunhol selvagem es mais ou menos Kama sutra. El portunhol es urbano y post-modernus. El portunhol selvagem es rupestre y post-porno-vanguardista. El portunhol es binacional. El portunhol selvagem es transnacional” define Douglas Diegues, autor do primeiro livro de sonetos salbajes jamais publicado nestas paragens, Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas (Travessa dos Editores, 2003).

“Ele é o Jack Kerouac da nação portunholesca” define Ronaldo Bressane, autor de, Cada Vez que Ella Dice Xis (Yiyi Jambo, Assunção, 2008), publicado pela Editora Cartonera, de Douglas Diegues. “Tomei contato com o portunhol selvagem quando fui morar em Cuiabá aos 8 anos e achei demais aquela mistureba de línguas malfaladas. Muito tempo depois, conheci o Douglas Diegues, que me convidou para escrever no portunhol, que é o mais democrático dos idiomas, uma vez que cada um tem o seu” diz Bressane, autor da primeira reportagem escrita na “língua do futuro” para, um jornal brasileiro, O Estado de S. Paulo, onde narra sua experiência no Encuentro Mundial del Portunhol Selvagem, disponível em http://bit.ly/nrzwvq.

Talvez existam tantos portunhóis quanto manifestações literárias sobre o tema. Cada autor, de fato, personaliza o seu idioma, já que essa é uma língua mutante, que se faz no calor da hora. “Sobram identidades para o portunhol selvagem. es uma lengua selvagem, indomable. Es uma viagem a las origenes de las lenguas que hablamos en los tropicos”, diz Diegues. Outra de suas múltiplas identidades se traduz em Transportuñol Borracho (Dulcineia Catadora, São Paulo, 2008), de Joca Reiners Terrón, em que o portunhol recebe o aporte de outras tradições literárias, como o inglês, o alemão e o japonês. “Transportunholei Hans Magnus Enzensberger, Ikkyu Sojun, Malcolm Lowry, todos poetas borrachos”, diz Terrón, natural de Mato Grosso, que, segundo ele, é um “lugar onde as línguas se misturam lindamente, como dois animais fazendo amor”.

Os escritores de portunhol selvagem dizem que Assunción é a capital da ficção. Deve ser, já que recebeu um encontro mundial sobre o idioma. mas há muito mais portunhol para além das transcriações desses poetas das selvas urbanas guaranis da tríplice fronteira. Até pernambucano do Vale dos Cariris já se aventurou nessa seara: é o jornalista Xico Sá, que publicou Tripa de Cadela & Outras Fábulas Bêbadas (Dulcineia Catadora, São Paulo, 2008).

Há portunhol além das fronteiras da literatura. Na obra de Ivana Vollaro, ele invade o território da arte e da poesia visual. Em 2000, quando realizou uma residência artística no Rio de Janeiro, a artista iniciou uma pesquisa sobre o portunhol a partir da invenção de um sinal gráfico. Ela criou um Ñ em que o acento espanhol ganha a forma de um h, remetendo ao som do nh, em português.

A imagem gráfica é uma síntese das duas línguas, uma tentativa de uni-las sonora e visualmente. “El portuñol es como un ‘entre’, algo que une, una tercera margen que va y viene”, diz. “El portuñol más interesante es el de la persona que sabe las dos lenguas, que puede hacer esa síntesis y disfrutar el error. Lo que más me interesa es el error como forma de creación y comunicación”, diz a artista, que compara o ato portuñolesco com o impulso inventivo do escritor mineiro Guimarães Rosa e do artista argentino Xul Solar, que criou o neocriollo, mistura de castelhano e português, com incrustações do inglês e do guarani. “Como dice Oswald de Andrade, miremos a “la contribución millonaria de todos los errores”, aponta.

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