Predestinação é loucura

João Paulo Quintela

Publicado em: 18/09/2015

Categoria: Crítica

Produção em vias de transcendência, a obra de Arthur Bispo do Rosário atende a uma voz divina que o incita a uma reconstrução de mundo objetiva

Cama Romeu E Julieta

Legenda: Cama Romeu e Julieta, que Bispo do Rosário teria dedicado a uma psicanalista (Foto: Rodrigo Lopes/Divulgação)

A caminho do Museu Bispo do Rosário, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, percebe-se ainda hoje a vontade de distância e isolamento em relação à loucura. Na exposição Um Canto, Dois Sertões: Bispo do Rosário e Os 90 Anos da Colônia Juliano Moreira, a curadoria de Marcelo Campos busca outro movimento, um movimento de aproximação. O que vemos é a transformação do afastamento em vínculo, da loucura em razão de ser.

Japaratuba, cidade natal de Bispo, e a Colônia Juliano Moreira, onde passou sete anos trancado em uma cela realizando a maior parte de sua produção, tornam-se lugares contíguos, ligados por sua obra. A cultura popular, o bordado e as tradicionais festas de Reis da pequena cidade no interior de Sergipe reverberam no território imersivo da loucura dos anos de internação na Colônia. Dez artistas convidados ampliam o discurso criado pelo trabalho do Bispo. No primeiro andar, por exemplo, a instalação sonora de Felipe Julian e Sandra Ximenez cria um ambiente de contato entre diversos elementos sonoros relacionados ao universo do artista.

A insanidade mental pode parecer o campo da falta de significação, mas, ao contrário dessa de- riva, a obra de Arthur Bispo do Rosário atende a uma demanda de produção específica, guiada por uma voz divina que o incita a uma reconstrução de mundo objetiva, a ser apresentada no dia do juízo final. Assistindo ao filme de Hugo Denizart sobre a vida e obra de Bispo, O Prisioneiro da Passagem, ouvem-se frases entrecortadas como “manda que eu faço a mesma coisa do lugar que passei”, um indicativo do método criativo de Bispo. Seu trabalho parte dos modos de vida e dos vestígios materiais ao seu redor. Caixas de esparadrapo, sandálias e tecidos extraídos do próprio uniforme dos internos são alguns dos materiais usados para transcrever a realidade apreendida por Bispo. São operações de reescritura e reconfiguração do real que buscam viabilizar a futura leitura divina. Uma produção em vias de transcendência.

Envolto pela própria obra, Bispo ativa relações de arte e vida percorridas por artistas como Beuys, com sua figura xamânica, seu uso da matéria orgânica, sua narrativa fantástica, o feltro, a gordura, e por Hélio Oiticica, seus parangolés, estandartes e a apropriação das manifestações da cultura popular.

O canto de Bispo, esse lugar da exposição que não é Sergipe ou Jacarepaguá, é o ponto de congruência capaz de anexar o delírio ao trabalho ou fazer do trabalho um delírio.

Serviço

Um Canto, Dois Sertões: Bispo do Rosário e os 90 Anos da Colônia Juliano Moreira até 3/10, Museu Bispo do Rosário, Estrada Rodrigues Caldas, 3.400, Colônia Juliano Moreira, Taquara, Jacarepaguá, RJ

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