Prêmio FOCO: Destino São Luís, Ibicoara, Salvador, Vitória, Rio e BH

Alice Yura, Andrea Hygino, Novíssimo Edgar, Iagor Peres, Lucimélia Romão e Priscila Rooxo são os premiados da edição 2022 do programa de residências artísticas

Da Redação

Publicado em: 22/09/2022

Categoria: Arte e Educação, Da Hora, Destaque, prêmios

Iagor Peres, Andrea Hygino, Alice Yura, Brenda Valansi, Hugo Barreto, Novíssimo Edgar, Lucimélia Romão e Priscila Rooxo na premiação [Foto: Bruno Ryfer / Divulgação]

Espetáculo à parte na marcante edição 2022 da ArtRio, o Prêmio FOCO selecionou pela primeira vez em seus mais de dez anos de realização seis jovens artistas para ganharem bolsas-residência em relevantes instituições pelo Brasil. Alice Yura, Andrea Hygino, Edgar Pereira da Silva (a.k.a. Novíssimo Edgar), Iagor Peres, Lucimélia Romão e Priscila Rooxo são os premiados, e a celebração já começou com a exposição de seus trabalhos no setor da feira dedicado ao prêmio, no pavilhão principal da Marina da Glória.

Os seis artistas poderão se dedicar exclusivamente a suas pesquisas durante o período de residência, entre janeiro e setembro de 2023, nas instituições parceiras do Prêmio FOCO esse ano: Despina (Rio de Janeiro), JA.CA (Belo Horizonte), Chão Slz (São Luís do Maranhão), Terra Afefé (Ibicoara, na Chapada Diamantina), Irê – Arte, Praia e Pesquisa (Salvador) e Instituto Das Pretas (Vitória do Espírito Santo).

A comissão julgadora, composta por integrantes das residências e outros curadores, selecionou projetos de pesquisa a serem desenvolvidos no próximo ano, desdobramentos dos trabalhos recentes de cada artista. Na seção FOCO, os premiados apresentaram obras que guardam relação com a proposta futura. Alice Yura, por exemplo, mostrou a fotoperformance O Louco (2022), em que aborda questões de gênero por meio da construção da imagem com um ser masculino, pela ação de se vestir com trajes masculinos depois de muitos anos de sua transição de gênero. A obra foi originalmente exposta em março deste ano no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), no contexto da curadoria de Jaime Lauriano, Lilia Schwarcz e Pedro Meira Monteiro intitulada Essa Minha Letra: Lima Barreto e os Modernismos Negros. 

O Louco (2022), de Alice Yura [Foto: Reprodução IG @yura.alice]

Em seu perfil de Instagram, Yura relata, na ocasião da mostra no MUHCAB: “Quando recebi o convite para participar da exposição Essa Minha Letra, fiquei em choque, achei que haveria sido um engano. Na vdd, o engano foi meu, de achar que não haveria condições ou capacidade de criar um elo e um diálogo com Lima. Uma das propostas curatoriais era ler um texto dele, recebi o conto Mágoa que Rala; nele a personagem entra numa grande questão a partir de um embate entre culpa e redenção. O Louco surge como desdobramento de uma outra performance e esse elo sobre culpa e redenção; se de um lado a loucura desvaloriza e desqualifica, de outro, ela liberta. Esse ser vagante em busca desse rompimento com ideias de pertencimento, posse, violência e poder. Os desafios deste trabalho foram altos, me rever em trajes masculinos foi encarar fantasmas e traumas que só a loucura poderia apaziguar. Tive que esquecer o medo de ser reconhecida como homem e ser um homem que também busca sua libertação”.

Para a bolsa que ganhou na Residência Despina, a artista, que vive e trabalha em trânsito entre sua cidade natal, Aparecida do Taboado (MS), Campo Grande e São Paulo, propõe desenvolver o projeto O Amanhã do Dia Anterior”, uma investigação a partir dos arquivos pessoais de fotografias familiares, gerando o seu apagamento nessas fotos a partir de inserção de pintura com tinta preta ou pelo uso de algum solvente. “A ideia temporal que está ligada ao hoje, nesta proposta, reflete sobre vínculos que poderiam ter sido quebrados por ser uma mulher trans. O que teria sido da minha história e como seria meu futuro se os meus laços familiares fossem desfeitos?”, reflete a artista na apresentação do projeto.

Detalhe da obra Série Tipos de Comer (2022), de Andrea Hygino [Foto: seLecT]

Andrea Hygino (Rio de Janeiro, RJ, 1992) foi premiada com bolsa para a Residência Chão Slz (São Luís, MA) com o projeto Escolares, um desdobramento da pesquisa artística desenvolvida desde 2013 sobre o ambiente escolar, suas memórias, violências, disciplina/adestramentos, repetição, criação e desobediência. A reflexão sobre a relação arte e educação já rendeu à artista, arte-educadora e professora, o Prêmio seLecT de Arte e Educação, categoria Camisa Educação, pela obra Saída de Emergência (em coautoria com Luiza Coimbra) e uma residência na Bag Factory Artists’ Studio, em Joanesburgo, África do Sul, em 2021. 

Na ArtRio 2022, Andrea Hygino expôs os trabalhos Ensino Superior (2022), Série Mordido (2019-2022) e Série Tipos de Comer (2022), em que retrata a desobediência civil-estudantil praticada no contexto de escolas e universidades. As obras apresentadas partem do “entendimento básico da educação como direito civil a ser garantido a todes e do olhar crítico sobre o ambiente educacional dos últimos anos no Brasil”, de acordo com o texto de apresentação.

Cariri-Nagô (2022) e Ketu-Guarani (2022), de Novíssimo Edgar [Fotos: seLecT]

As pinturas têxteis Cariri-Nagô (2022) e Ketu-Guarani (2022), além de uma fotografia sem título, foram as obras escolhidas pelo artista Novíssimo Edgar (Guarulhos, SP, 1993) para a seção FOCO da ArtRio. Premiado com uma bolsa para a Residência Terra Afefé (Ibicoara, BA), sua proposta é o projeto Vínculos Invisíveis: “A intenção primeira é conhecer e criar interlocuções com as encantarias e lugares sagrados da região. A pesquisa se dará a partir das oferendas, dos personagens, dos lugares e das vivências, palácios encantados em dunas e outras tradições em que a identidade do povo dali se assenta. Os costumes das religiões africanas no Brasil sofreram modificações devido à aculturação, à transmissão oral, à miscigenação de raças e à condição de opressão em que viviam as pessoas escravizadas vindas de diversos pontos da África”.

Iagor Peres (Rio de Janeiro, RJ, 1995), que vive e trabalha em Recife (PE), integrante do grupo CARNI – Coletivo de Arte Negra e Indígena, ganhou bolsa para a Residência – Irê – Arte, Praia e Pesquisa (Salvador, BA). Sua trajetória de pesquisa em artes do corpo voltou-se em anos recentes para a investigação de uma materialidade corpórea que possa ser presentificada em objetos na ausência do corpo performático do artista. Estruturas para Campos Densos (2019) foram exibidas na ArtRio junto de obras em monotipia produzidas a partir de pelematerial (a matéria alquímica desenvolvida pelo artista) e finalizadas em cera de carnaúba, que versam sobre as densidades e substâncias visíveis e invisíveis que compõem as relações no espaço. 

Obras de Iagor Peres expostas na ArtRio 2022 [Foto: Reprodução IG @iagorperes]

Seu projeto de residência chama-se A Segunda Forma da Ausência, “desdobramento da pesquisa Estudos para Minha Pele, iniciada em 2017. Nessa pesquisa, questiono as armadilhas que a visão e o mundo aparente carregam. Em um gesto de retirada do meu corpo do foco ou veículo/meio principal da obra, criei a pelematerial, que se apresenta no mundo como uma extensão do meu próprio corpo e ao mesmo tempo uma coisa em si que possui ação e vida independente de mim. Esse material surge pelo desejo de continuar a falar do corpo, com o corpo, mesmo sem minha presença”, escreve Iagor Peres.

MULHERES DO LAR – Mortes Anunciadas (2022), de Lucimélia Romão [Foto: seLecT]

Lucimélia Romão (Jacareí, SP, 1988) realizou a performance MULHERES DO LAR – Mortes Anunciadas, sobre violência de gênero como prólogo para o crime de feminicídio, no dia de abertura da ArtRio. A artista e performer com formação em teatro, coordenadora da área de Artes Cênicas do 33° Inverno Cultural 2022 da Universidade Federal de São João Del Rei – PLANETA FOME, recebeu bolsa de pesquisa a ser desenvolvida na Residência JA.CA (Belo Horizonte, MG), em que vai tematizar os altos índices de violência contra a mulher no Brasil. “Refletindo sobre essa realidade, o projeto traz uma série de fotoperformances que têm a violência doméstica como mote. As imagens serão criadas a partir de ditados populares que maquiam a violência contra mulher, como ‘à mulher casada, o marido lhe basta’; ‘em briga de marido e mulher, não se mete a colher’; ‘do vinho e da mulher livre-se o homem, se puder’; ‘do homem, a praça, da mulher, a casa’; ‘homem de palha vale mais que mulher de ouro’, entre outros”, escreve a artista.

Suporte Caro (2022), pinturas de Priscila Rooxo [Foto; seLecT]

Completavam o espaço expositivo do prêmio FOCO duas séries de pinturas de Priscila Rooxo, ganhadora da bolsa de residência no Instituto Das Pretas (Vitória, ES). Moradora da Baixada Fluminense, subúrbio do Rio de Janeiro, traz em seu trabalho discussões sobre território, gênero e classe social, como o público da ArtSampa 2022 pôde conferir, na mostra solo A Mãe Tá On. Para o projeto da residência, Rooxo planeja trabalhar com escultura e objetos que dialoguem com questões que sua pesquisa artística já aborda. “Para ela, o artista periférico não precisa apresentar apenas pinturas em telas bidimensionais ilustrando fielmente a periferia, pode também explorar novos suportes e técnicas. Seu objetivo é uma arte múltipla e acessível, que chegue em mulheres, pessoas periféricas, com ou sem estudos, e que essas pessoas se identifiquem com as ferramentas e linguagens utilizadas, acessando um público diferente do eixo-centro das artes tradicionais”, informa o texto de divulgação da ArtRio. 

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