Presente mais que absoluto

Giselle Beiguelman

Publicado em: 14/02/2014

Categoria: ensaio, Reportagem

A internet não esquece, mas o Facebook não nos deixa lembrar. Produzimos e publicamos em escalas de petabytes em serviços que podem desaparecer a qualquer momento. Que memória estamos construindo nas redes?

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Legenda: Nessa instalação, que questiona o futuro da fotografia, o holandês Erik Kessels fez o download de todas as fotos publicadas no Flickr durante 24 horas

As redes não têm tempo. Nelas prevalece um regime de urgência permanente. A publicação mais recente é, supostamente, mais relevante que a anterior. O que conta é o agora. E esse agora é de uma intensidade cada vez maior. Experimente encontrar aquele comentário tão importante postado por seu amigo 30 dias atrás no Facebook, aquela foto que você “curtiu” em algum dia remoto de 2012, ou aquele evento tão marcante, no qual você compartilhou um vídeo nos idos de 2008. Nem tente. A não ser que você seja dotado de uma extrema paciência de Jó, turbinada por uma sorte de dar inveja ao Gastão do Walt Disney, não vai encontrar.

Tornou-se senso comum dizer que a internet não esquece. Os escândalos relacionados à vigilância eletrônica assinam embaixo. Mas isso está longe de significar que tenhamos direito de lembrar o que queremos e quando queremos sobre nós mesmos. O Facebook, a maior das redes atuais, não nos permite acessar nossa memória, apesar de, paradoxalmente, ser o lugar central por onde escoamos boa parte da nossa história pessoal e onde fatos marcantes recentes, como as manifestações de junho, no Brasil, a Primavera Árabe e a eleição de Obama, foram estrategicamente articulados.

E não pense que sua alardeada Busca Social vai resolver o enigma do “onde está aquilo que eu postei”, pois não é essa sua função. Ainda em versão fechada para teste e só disponível em inglês (é preciso cadastrar-se e ficar em uma lista de espera), tem como objetivo fomentar buscas contextuais, como “que músicas meus amigos estão escutando agora”, “restaurantes em Londres em que meus amigos estiveram”, “pessoas que curtem ciclismo e que são da minha cidade”. Em síntese, é uma busca semântica e não factual. Seu mote é o presente e as relações dedutíveis a partir do seu círculo de amizades e não a consulta retrospectiva de caráter arquivístico.

Não que os modelos de catalogação e recuperação de dados tradicionais sejam melhores ou os únicos possíveis. Eles são engendrados historicamente e respondem a formas de poder e a instâncias políticas, sociais e culturais que definem os critérios de conservação, as formas de institucionalizar os lugares da memória e o que fica ou não para ser contado como história. Não à toa, o protagonista de um dos mais geniais contos de Jorge Luis Borges – O Livro de Areia – escolhe justamente a Biblioteca Nacional para perder o livro que o atormentava. Colocá-lo em uma prateleira qualquer era como ocultar uma folha em um bosque. Jamais poderia ser reencontrado.

Overdose documental

Mas essa escala humana e contida por instituições é abalada hoje por uma overdose de produção documental sem precedentes na história. Se há alguma dúvida com relação a essa afirmação, façamos uma comparação entre os volumes de dados armazenados no acervo da maior biblioteca do mundo – A Biblioteca do Congresso Norte-americano – e a Wayback Machine, um serviço do Internet Archive que arquiva a internet diariamente. A Wayback Machine, que é uma pequena parte do Internet Archive, contém 3 petabytes de dados (o que equivale a cerca de 700 mil DVDs lotados). A Biblioteca do Congresso, se tivesse todo seu acervo de livros digitalizado (32 milhões de volumes) teria 32 terabytes arquivados, considerando-se 1 megabyte por livro escaneado. A Wayback Machine foi criada em 1996. A coleção de livros da Biblioteca do Congresso é de 1815. A Wayback Machine cresce 100 terabytes por mês, o que praticamente é três vezes, em bytes, todo o acervo bibliográfico da Biblioteca do Congresso acumulado em quase 200 anos.

Esses dados quantitativos, apesar de impressionantes, não contemplam o manancial de conteúdos postados nas redes sociais. Entre o momento em que você abriu esta página e leu estas poucas palavras, 100 horas de vídeo entraram no YouTube. Estamos em novembro de 2013 e é isso o que acontece em 1 minuto na internet. Nesse mesmo espaço de tempo, cerca de 3.025 fotos foram postadas no Flickr, enquanto outros 20 milhões de imagens são visualizadas nesse mesmo serviço e 3.600 imagens são compartilhadas no Instagram. O Facebook, um “planeta” de 1,15 bi de pessoas, registra, em um dia, a média de 650 milhões de publicações diversas. Dessas, 350 milhões são fotos. Dos 500 milhões de usuários do Twitter, quase 300 milhões estão em atividade, postando diariamente uma média de 400 milhões de mensagens.

A maior parte desses registros diz respeito a eventos fugazes e todos os analistas de marketing social são unânimes em mostrar que posts com fotos são os mais populares. Várias pesquisas mostram que a maior parte do conteúdo compartilhado refere-se à própria pessoa. Em diversos estudos de psicólogos afirma-se que há uma relação direta entre narcisismo, comportamento exibicionista e uso frequente de redes sociais. Para Paula Sibilia, do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense, a questão é mais complexa e ambivalente. Em seu livro O Show do Eu: A Intimidade Como Espetáculo (2008), ela perguntava:

“Será que estamos sofrendo um surto de megalomania consentida e até mesmo estimulada? Ou, ao contrário, nosso planeta foi tomado por uma repentina onda de extrema humildade, isenta de maiores ambições, uma modesta reivindicação de todos nós e de ‘qualquer um’? O que implica esse súbito resgate do pequeno e do ordinário, do cotidiano e das pessoas ‘comuns’? Não é fácil compreender para onde aponta essa estranha conjuntura, que, mediante uma incitação permanente à criatividade pessoal, à excentricidade e à procura constante da diferença, não cessa de produzir cópias descartáveis do mesmo”.

Novos protagonistas

Por outro lado, não se pode deixar de notar uma subversão essencial que reside nessas práticas. Nesse processo de canibalização da tela, do qual tratamos em outra edição da seLecT, é indiscutível que outras estéticas emergem e também novos protagonistas. Desde seus primórdios, no século 16, coleções pessoais, em geral, e imagens, em particular, estiveram diretamente relacionadas a instâncias de classe e gênero e significavam, acima de tudo, uma escala de força, sendo reservadas primeiramente a reis, aristocratas, papas e figuras sagradas e, depois, a políticos e burgueses abastados. Ao longo do século 20, as comunicações de massa expandiram sobremaneira o raio de quem podia se transformar em imagem publicada e passível até de ser arquivada, multiplicando a quantidade, o espectro social e cultural dos registros imagéticos.

Contudo, até o fim do século 20, restrições orçamentárias, “em sua sabedoria”, escreveu Michel Melot, uma das maiores sumidades mundiais em arquivística e biblioteconomia, impediam que as instituições literalmente transbordassem. Em um artigo sugestivamente intitulado Os Arquivos Considerados Como Substância Alucinógena (1986), ele ponderava sobre o que aconteceria se cada cidadão se transformasse em colecionador e conservador e pudéssemos guardar absolutamente tudo em nome dos historiadores do futuro.

Chegaríamos a um paradoxo, conclui nesse texto, publicado na saudosa revista francesa Traverses em número inteiramente dedicado aos arquivos (36): “A História enfim produzida exclusivamente para os historiadores e por eles mesmos bloqueada, como o cirurgião imobiliza seu paciente para poder operá-lo.” Afinal, pensar, como já aprendemos em outro conto de Borges (Funes, o Memorioso), é generalizar, não apenas arquivar e adicionar mais e mais dados.

Salve-se quem puder

Em um ensaio antológico – A Operação Historiográfica – Michel de Certeau (1925-1986) fez uma concisa História da Historiografia e sintetizou em uma frase no que consiste essa operação: “Em história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em ‘documentos’ certos objetos distribuídos de outra maneira”. Essa separação, contudo, é feita sempre posteriormente ao trabalho do arquivista, que é o responsável pela seleção e organização dos documentos que serão guardados em detrimento dos que serão descartados.

Mas, diante da avalanche midiática que produzimos cotidianamente no Facebook e em outras redes sociais similares, como escolher o que será armazenado? E como lidar com as dificuldades de manuseio das nossas próprias memórias depositadas aí em ritmo alucinante e que se somam aos 55 milhões de fotos por dia publicadas no Instagram (uma rede social de imagens que também é propriedade do FB)? E se elas forem simplesmente deletadas por um erro de sistema ou descontinuidade do produto?

As redes sociais não serão eternas e é possível que não comemoremos os 20 anos do Facebook. Outros dispositivos virão. Mas no tempo da apropriação corporativa da memória, em que o capital afetivo de nossas relações pessoais – exagero dizer “amizades”, certo? – flui pelos canais existentes do império de Mark Zuckerberg, parece urgente perguntar: onde ficaram os suspiros, tristezas e felicidades que deixamos nas comunidades do Orkut (a “velha” rede todo-poderosa do Google)? É hora de pensar nisso ou salve-se quem puder.

*Publicado originalmente na edição impressa #15

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