Processos performáticos de vida

Questões de identidade e gênero expostas na vida e na obra de cinco criadores

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 27/10/2015

Categoria: comportamento, Reportagem

Legenda: Daniel Lie em performance ritualística com visual andrógino (Imagem: Jéssica Rosen)

“Nós afirmaríamos como corolário: não há identidade de gênero por trás das expressões do gênero; essa identidade é performativamente constituída pelas próprias ‘expressões’ tidas como seus resultados.” Quem afirma é a filósofa norte-americana Judith Butler, pesquisadora de questões de sexo, gênero e identidade. O trecho integra seu livro Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, Divisor de Águas agora relançado pela Civilização Brasileira (288 págs., R$ 39). E dá a pista de como gênero e identidade, hoje, não podem mais ser entendidos como a adequação do sujeito a um corpo fisiológico. São questões performativas. Num mundo onde o indivíduo não se compreende mais como agente, mas como a própria ação, não há como pensar em configurações subjetivas fixas e extrínsecas. Trocando em miúdos, é na maneira como cada um se coloca no mundo que a identidade é moldada, num processo que vem se intensificando desde a contracultura – no Brasil representada pelo Tropicalismo – nos anos 1960. É mais ou menos nesse período que a performance, entendida como vertente artística, ganha força como um modo de trazer para a arte uma atitude genuína, de injetar vida no terreno das visuais. Mas como na arte contemporânea toda forma é instável e constantemente reinventada para não cair no estabelecido, a performance teve sua unidade conceitual expandida para uma noção de performatividade, elástica e aplicável a qualquer manifestação artística – teatro, música, dança e visuais, entre outras.

Nesse território onde as linguagens têm fronteiras diluídas, arte e vida também se atravessam. E o artista que trabalha a partir de diálogos e tensões com aspectos da vida tem a performance como uma poética que não é nada além de seu estar no mundo. Caso do paulistano Daniel Lie, 27, que por volta dos 14 anos começou a manifestar nas roupas e cabelo sua sensação de não pertencimento entre os alunos de um colégio conservador. “Minha adolescência foi regrada pelo underground. Começou a vontade de ficar loiro, de me vestir de uma maneira diferente. Eu queria ser completamente diferente do pessoal da escola que me enchia o saco, ideologicamente, visualmente”, diz Lie à seLecT.

A vida noturna e a faculdade de artes visuais liquidaram a síndrome de patinho feio. Frequentava o Baixo Augusta e adjacências do Centro paulistano, tornou-se produtor e DJ de festas alternativas como Casa Pelada e Voodoohop, ao mesmo tempo que deslanchava sua carreira de artista. Buscar sua turma condicionou a vocação social de seu trabalho. Nas instalações com minerais e plantas suspensas no ar – como o Podre Show, que está no Arte Pará de 8/10 a 8/12 –, cria ambientes místicos para atingir diretamente seu público. As performances ritualísticas que faz nos vernissages também são um canal poderoso. Com visual exótico pelos cabelos bem compridos raspados a máquina zero nas laterais e o rosto de traços indonésios herdados do pai, o heterossexual Daniel Lie bagunça o coreto da definição de gênero com visuais andróginos e influência do Candomblé e do xamanismo. “Faço questão de ir de transporte público pras aberturas, quando estou caracterizado. Uma vez, eu estava totalmente azul, inspirado em rituais da Indonésia. As pessoas gritavam na rua: olha o Smurf, olha o cara da TIM! É legal entrar na brincadeira, porque crio relações.”

Cibelle ou Sonja

Transdisciplinar por natureza, Cibelle Cavalli Bastos, 37, é cantora, produtora musical, artista visual, atriz e performer nascida em São Paulo e radicada em Londres. Ela orientou seu trabalho para a performance com a criação de personagens como Sonja Khalecallon, que se apresenta em suas instalações espaciais compostas de telas, esculturas e projeções.

Mas, no espectro da vida pessoal, a performatividade de Sonja também se aplica às atitudes da multiartista, que desde 2008 vem burilando uma persona indefinida e mutante – cultivando longos pelos nas pernas e nas axilas – a partir da leitura do filosófo indiano Jiddu Krishnamurti, que inspirou sua tese de mestrado no Royal College of Art, chamada Epistemologia do Vazio.

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Legenda: Multiartista Cibelle em montagem de Jéssica Rosen

“A ideia central é o zen, a presença, a prática cotidiana e artística para tirar as lentes que nos definem. A internet, com as mídias sociais que conectam todo mundo, é um motor colocado em movimento perpétuo para a mudança. Invariavelmente, a gente vai chegar nesse ponto, porque tudo está sendo desconstruído o tempo inteiro na nossa cara”, diz Cibelle à seLecT.

O encontro com o artista Ricardo Càstro e a Abravanação (termo de Càstro e sua turma para os encontros coloridos em que buscam a dissolução do eu individual, em releitura do Tropicalismo e de Hélio Oiticica) fez com que ela pensasse “arte e vida” de outro modo. Percebeu que as roupas não eram expressão de sua personalidade e que ideias como gênero e identidade eram, antes, códigos impostos por um determinado estado de coisas. “Comecei a usar looks que desconstroem essa autoimagem falsa. Visto qualquer coisa, por mais absurda que seja, e seguro a onda. Vou pra rua e dali a duas horas aquele look sou eu. Aí você percebe que não é a roupa que veste.”

Uma joia trans

O processo de construção identitária aliado à prática artística é uma via de mão dupla. Se as pulsões que não cabem nas categorias sociais preestabelecidas são muitas vezes canalizadas para o âmbito da arte, garantem ao performer outra forma de ser, que acaba por reivindicar seu lugar no cotidiano. Ainda mais se a questão trans entra em cena.

Quando decidiu trazer ao mundo sua criatura da noite, batizada Fancy Violence, o paulistano Rodolpho Parigi, 38, não imaginava que a mulher enorme de roupas pretas rendadas e soturnas encarnada por ele iria bagunçar o pedaço. Da possibilidade de fazer coisas inimagináveis, como ser suspensa até a abóbada central do CCBB-SP, ou estilhaçar o cenário de uma apresentação na Galeria Olido, vieram queixas do corpo, na forma de um joelho machucado pelo abuso do salto 15.

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Legenda: Rodolpho Parigi como Fancy Violence, em performance no CCBB-SP (Imagem: Miselene Martins)

Mas o maior questionamento foi de ordem psicológica: e se a persona feminina ficasse mais forte do que a masculina? “No começo, não vou mentir, fiquei supermexido, muitas coisas passaram pela minha cabeça. Sou uma pessoa sensível. Falei: e agora?”, conta Parigi à seLecT. Mas o joelho e a “montagem” que Fancy requer (fazer a barba e as unhas, maquiagem, peruca, figurino impecável) acabaram por fazer com que Parigi optasse por guardá-la como “uma joia” – não sem a ajuda da psicanálise.

“Eu sou o hospedeiro desses dois seres, Rodolpho e Fancy. Poder flertar com esses dois momentos é muito interessante. Mas existe o Rodolpho, que é uma pessoa, e a Fancy, que é um trabalho do Rodolpho”, define o artista. “Agora eu a guardei na gaveta que ela merece, que é uma gaveta muito boa, mas com a chave bem alta pra não ter facilidade de pegar toda hora, e voltei a pintar. São duas energias muitos fortes. Ela não me deixa pintar e a pintura não me deixa ser ela.”

Se Parigi decidiu tirar sua persona feminina do armário apenas em apresentações em ambientes artísticos, Verónica Valenttino, persona feminina do cearense Jomar Carramanhos, 31, tem estado tão presente que já domina a agenda social e as emoções do corpo que habita. “Eu tinha essa dificuldade de dizer o que eu era. A Verónica, quando pronta, é uma travesti, tem uma vida de travesti, se relaciona como travesti. É como Clark Kent, que sabe que é o Super-Homem, mas precisa tirar a roupa para se transformar”, diz Verónica à seLecT. Sua performance tem lugar em palcos musicais, com a banda de rock Verónica Decide Morrer – com integrantes de todas as orientações sexuais –, que tem circulado pelo meio das visuais em shows na galeria A Gentil Carioca (RJ) e na Casa Triângulo (SP), dia 3/10, na abertura da mostra Transbordar, que enfoca o universo transgênero nas artes com curadoria de Yuri Firmeza. “A arte pode ser um lugar para desnaturalizar o mundo, onde não paramos de criar identidades, naturalizações…”, diz Firmeza.

Como a transexual protagonista do filme Hedwig – Rock, Amor e Traição, de John Cameron Mitchell (2001), Verónica conta em seus shows sua história – de evangélico que cantava no coro da igreja até os 20 anos à aceitação de sua transexualidade – em letras como Testemunho de Trava, que inclui até versículos bíblicos. Uma história que, paradoxalmente, vem lembrar a videoinstalação Sérgio e Simone, de Virgínia de Medeiros, apresentada na 21ª Bienal de São Paulo e no 18º Festival Videobrasil, que retrata a dupla identidade de uma travesti convertida em pastor evangélico.

Cross dressing

Performer desde que se entende como artista, a londrinense Mavi Veloso, 30 anos, nascida homem, mas caracterizada socialmente como trans, não encontra definição para si mesma – e nem quer. Nada mais natural para alguém que desde os 5 anos fazia cross dressing com as roupas e maquiagens da mãe e preferia boneca a carrinho.

O caminho da arte surgiu na faculdade, mas foi a partir dos 23 anos que começou a fazer livremente aquilo que sua mãe a proibia quando criança – se montar. “Minha pesquisa artística vem de um interesse em desconstruir as coisas via corpo, via pele. Desde os 23 anos, fui introduzindo as montações no meu ofício de performance. Performar me permitia testar coisas, e testar coisas em performance permite abrir portais para aplicar na vida cotidiana”, diz Mavi Veloso. Integrar o Como Clube, grupo de arte transdisciplinar e de enfoque alternativo, só aprofundou essa trilha.

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Legenda: Mavi Veloso, que começou a tomar hormônio feminino como experimentação artística e de vida, na colagem de Jéssica Rosen

Atualmente em uma residência artística em Bruxelas, ela decidiu radicalizar no cruzamento de gênero. “Estou há alguns meses me submetendo ao tal tratamento hormonal male to female. Mas vem de uma curiosidade, desejo de cruzar arte e vida, experiência estética com experimento trans. Estou incorporando esse processo, bem novo pra mim, de uma transformação via articulação hormonal no meu trabalho em arte, percebendo como isso me transforma política, psicológica, emocional, racionalmente.” Perguntado se pensava em fazer a operação de mudança de sexo, responde: “Oh, my god! Eu queria ter duas vaginas, três paus e cinco cus!” Definição que, realmente, não está em sua pauta.

É perceptível, pelo número de práticas e agentes envolvidos com questões de identidade e de gênero, que o ambiente da arte é privilegiado para que essas questões, mais do que debatidas, possam ser vivenciadas cotidianamente pelos artistas. “Mas eu tenho um incômodo com a forma como às vezes a gente coloca a arte como pioneira ou privilegiada em relação a certos tipos de práticas e modos de existência. Parece que a palavra ‘arte’ cria uma permissividade que não deveria ser só dela… fico pensando como as drag queens foram importantes para a teoria da performance, por exemplo”, questiona Yuri Firmeza.

Vdm Por Alex Costa

Legenda: Verónica Valenttino (à dir.) divide os vocais de sua banda, Verónica Decide Morrer, com Jonaz Sampaio (Foto: Alex Costa)

Denílson Lopes, professor da Escola de Comunicação da UFRJ e especialista em estudos de gênero, aponta a discrepância que ainda existe entre arte e vida quanto a questões de gênero. “É importante pensar quem pode quebrar fronteiras. Pode ser interessante fazer isso em arte, onde esse é um comportamento valorizado; mas na rua é complicado, as pessoas podem ser agredidas”, diz à seLecT.

“É preciso ver a realidade em que estamos inseridos, porque há uma discussão sobre o trans, mas nossa sociedade ainda é muito violenta e fundamentalista. O homem que se aproxima do feminino é ainda muito estigmatizado”, completa. Se a arte é solo fértil para que as pessoas se realizem como obras de si mesmas, não são menos artistas aqueles que se impõem no mundo como as pessoas que desejam ser.

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