Produção ressuscitada

Celso Fioravante estreia no Dia de Finados, 2/11, o primeiro Salão dos Artistas Mortos

Luciana Pareja Norbiato
O jornalista e curador Celso Fioravante (foto: Paulo D'Alessandro)

O jornalista, curador  e colecionador Celso Fioravante é ligado às manifestações imateriais do mundo. Com um olho no espiritual, o Calendário Sincrético, Cósmico, Telúrico, Turístico, Ecológico e Artístico lançado neste 2016 pelo seu guia Mapa das Artes traz o santo ou orixá de cada dia, como também as festas religiosas de várias crenças. Agora, na mesma energia da edição Segredo de seLecT, ele lança bem no Dia de Finados (2/11, quarta) o edital de inscrição para o primeiro Salão dos Artistas Mortos.

Fioravante não é neófito nesse segmento: desde 2008, realiza o Salão dos Artistas sem Galeria, que traz nomes ainda não absorvidos pelo mainstream da arte nacional, como o título entrega. Dessa vez, o jornalista enfocou a outra ponta etária da produção artística, em que os realizadores, em sua maioria desconhecidos, já não estão mais neste plano. Ele falou com a reportagem de seLecT sobre sua nova iniciativa:

Por que fazer um Salão dos Artistas Mortos? Qual sua importância para a História da Arte Brasileira?

Devido ao trabalho que venho realizando na Galeria Berenice Arvani como organizador de mostras individuais de artistas esquecidos pelo circuito de arte, várias famílias de artistas começaram a me procurar para mostrar o trabalho de parentes falecidos… Ao comentar isso com meu irmão Everaldo, ele me disse que, depois do circuito das empresas funerárias, o circuito de arte era o local onde o morto era mais valorizado… Recentemente, uma filha de artista também me procurou perguntando se poderia inscrever seu pai já morto no Salão dos Artistas Sem Galeria, que está em sua 8ª edição… Eu disse que sim, pois o regulamento não proibia isso, mas isso também me alertou para um nicho de promoção ainda não explorado pelo circuito.

A ideia se fortaleceu quando percebi que, em momentos de crise, as relações espirituais se afloram com mais intensidade, algo que podemos notar também na última edição da revista seLecT, totalmente destinada ao tema Segredo e às questões espirituais.

Isso veio ainda ao encontro de questões de ordem religiosa e sincrética, pois me fez recordar da constância do machado de Xangô na obra de Rubem Valentim, e que Xangô é o orixá que se comunica com os mortos e os faz retornar à vida no culto dos Egunguns, intermediado sempre por sacerdotes Alapinis, como foi o artista afrobrasileiro Mestre Didi. Ao comentar esse projeto com Emanoel Araújo, ele mencionou que, em sua interpretação, os parangolés de Hélio Oiticica são representações dos mortos e, por isso, no Museu Afro-Brasil, são expostos ao lado de duas esculturas de Egunguns.

É possível subverter o ostracismo a que alguns artistas são relegados mesmo muito tempo depois de sua morte?

Percebi que todo o circuito da arte é pautado em ciclos de vida e morte e retorno a vida e novamente esquecimento e que nesse vai-e-vem o artista e sua obra nunca morrem definitivamente…

A realização e posterior continuidade do Salão dependerá do interesse das famílias em remexer em seu passado, em suas gavetas e em seus guardados… É impossível prever o resultado disso, mas eu acredito que reativar as lembranças é um ato de amor e também e de humor… Eu gostaria que o Salão funcionasse uma barca de Caronte desbussolada, que em vez de ajudar os mortos a atravessarem o limbo no caminho da vida eterna, os trouxessem de volta para que discutíssemos se, no circuito brasileiro de arte, existe vida após a morte.

Como será feita a seleção dos artistas?

A escolha dos artistas seguirá os trâmites normais de um salão de arte. Haverá um regulamento, que deverá ser seguido pelos representantes interessados. Em seguida os portfolios serão examinados por um júri, que decidirá quem será selecionado. Trata-se de um projeto bastante utópico, que poderá morrer na praia.

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