Produtora cultural faz intervenção-surpresa em evento da Secretaria de Cultura

Secretário Alê Youssef apresentou dez movimentos estratégicos para o calendário cultural e improvisou o 11º, ao ser questionado por trabalhadora da cultura sobre revogação de edital da Virada Cultural

Paula Alzugaray
Secretário Alê Youssef e a produtora cultural Jhaira Rodrigues no palco do CCSP (Foto: Paula Alzugaray)

Começou em clima de festa de rua a apresentação das grandes metas e planos de ação para a Cultura paulistana no biênio 2019-2020, nesta terça feira 30. Performances sonoras de B-boys frequentadores do criativo e vigoroso espaço livre do Centro Cultural São Paulo abriram o evento da Secretaria Municipal de Cultura, no palco da sala Adoniran Barbosa. A eficiência e o calor do espetáculo mantiveram-se durante todo o colóquio, até a performance final, não programada, da produtora cultural Jhaira Rodrigues.

Com a presença do prefeito Bruno Covas e de reconhecidos agentes culturais, como Danilo Santos de Miranda, diretor do SESC-SP, e Zita Carvalhosa, diretora do Festival Internacional de Curtas-Metragens, o secretário municipal da cultura Alê Youssef e sua equipe apresentaram um plano de dez movimentos estratégicos para vitaminar a vocação cultural da cidade. São eles: o agendão (um calendário de áreas integradas), a ocupação cultural (consolidação de eventos da cultura hip-hop), pertencimento e vínculo (foco em diversidade e movimentos sociais), difusão literária (celebração do livro e da leitura), memória paulistana (valorização de patrimônio material e imaterial), formação (manter ações contínuas), incentivo e fomento (de atividades privadas com interesse público), difusão audiovisual (ampliar ações da SP-Cine), novos modernistas (atualizar os conceitos lançados pelos modernos da Semana de 22) e reconhecimento. Nesse último movimento, finalmente condensa-se toda a ambição do programa: que São Paulo seja reconhecida como a capital da cultura, que efetivamente é.

São Paulo Capital da Cultura é o título do programa. A opção pela exposição pública das intenções de governo foi uma iniciativa diferenciada, se não inédita. Demonstra a mais que necessária disposição de órgãos públicos de interagir com a comunidade cultural da cidade. Em fala introdutória, o prefeito Bruno Covas sinalizou que “não interessa se o artista vota no partido A ou B. O papel da cultura é fiscalizar e criticar”. A chamada pública teve efeitos imediatos.

Nem bem encerrava sua explanação, afirmando a volta da carga total na Virada Cultural, prevista para acontecer no sábado 18/5, Alê Youssef foi interpelado por uma moça simpática e sorridente, que subiu ao palco pedindo “ao secretário mais gato que São Paulo já teve” o direito “a uma última intervenção”.

Sem justificativa
Apresentando-se como trabalhadora da cultura, ela expôs sua frustração por não ter tido resposta da Secretaria da Cultura sobre a inscrição de seu projeto em edital de planejamento e execução da Virada Cultural 2019. “Gastamos tempo, papel e impressora. Inscrevemos no último dia, 22 de abril. Nunca tivemos confirmação da inscrição nem nota de recebimento, por email ou no site da Secretaria. Nunca encontramos a lista dos concorrentes. Dias depois, descobrimos uma nota no Diário Oficial dizendo que o edital havia sido revogado por motivos de conveniência da administração pública. Está difícil, Alê, está cansativo trabalhar com Cultura”, disse em público.

Os envelopes, contendo impressões do projeto, nunca foram abertos. Mas a produtora fez sua abertura simbólica, colocando-os em cena. “Quando inscrevemos projetos em editais, somos questionados a justificar nossa proposta. Mas o cancelamento do edital não teve justificativa!”, continuou ela.

Após ouvir atentamente toda a explanação de sua interlocutora – que foi aplaudida e cumprimentada por vários membros da plateia, entre eles a produtora Zita Carvalhosa – o secretário da cultura improvisou: “Percebo que temos que criar um décimo primeiro movimento, que é o diálogo. Reconstruir canais de diálogo”, disse Youssef. De fato, está aí mais um desafio.

“Realmente, eles estão abertos ao diálogo. Mas parece que o diálogo deles não tem escuta”, disse Jhaira Rodrigues à seLecT, após o evento. “Em fevereiro, o secretário participou de uma audiência pública cidadã promovida pelo Movimento Cultural das Periferias. Fizemos vários GTs (grupos de trabalhos) e entregamos um documento colocando deficiências, sugestões e pedidos de revisão de procedimentos, inclusive de editais. Eles não consideraram nenhuma das sugestões. A gente fala, fala, fala e eles não escutam”.

Uma nota publicada no site informa que o referido edital foi revogado no dia 23 de abril: “A Secretaria Municipal de Cultura, diante da decisão de modificar o formato de realização do evento, perdeu o interesse em celebrar parceria para tal”.

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