Projeto Latitude faz encontro sobre negócios com a China

O diplomata Augusto Castro e o professor Fausto Godoy discutem as relações comerciais e culturais entre Brasil e China

Leandro Muniz
Fausto Godoy em apresentação na Unibes Cultural (Foto:Bruna Scavuzzi)

Ana Letícia Fialho e Mônica Esmanhotto convidaram e mediaram a conversa entre o diplomata Augusto Castro e o professor Fausto Godoy, que falaram sobre a economia, cultura, política e mercado na China e suas relações com o Brasil. O objetivo da palestra era levantar os desafios na aproximação cultural entre os dois países, levantando visões divergentes sobre cada um e mostrando o potencial de intercâmbio comercial e cultural.

Ocorrido em 14/5 na Unibes Cultural, esse foi o terceiro encontro da série promovida pelo Projeto Latitude para capacitar profissionais do meio de arte a lidar com as oportunidades e desafios da internacionalização da cultura brasileira. Entre os temas abordados estão as relações com o Iphan e o projeto Condo – em que galerias nacionais e internacionais promovem intercâmbio de exposições e o futuro das galerias de médio porte. A série termina com um relato de Ana Avelar, ganhadora de um prêmio de residência para curadores na Getty Foundation, promovido pela Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABACT).

Economia e política
O diplomata Augusto Campos e o professor Fausto Godoy apresentaram suas percepções dos campos político, econômico e cultural da China a partir de suas experiências com o país.

Campos relata que nos últimos 40 anos, a China teve um grande crescimento econômico, gerando um êxodo rural e um crescimento acelerado das cidades. O aumento da renda média da população gera projeções de um crescimento de 15% em 2015 para 30% em 2030 de pessoas que pertencem à classe média alta ou alta. A China também detém 50% do comércio digital mundial e tem um número crescente de bilionários.

O Brasil e a China mantêm boas relações comerciais, sendo este o maior parceiro comercial do Brasil atualmente – cerca de 80% das exportações do Brasil de soja, petróleo e minério de ferro vão para a China, representando um crescimento de 2 milhões para 100 milhões de dólares em menos de duas décadas. A China investe cerca de 60 bilhões de dólares em montadoras, bancos, setor elétrico e todo tipo de tecnologia de ponta no Brasil, enquanto a presença brasileira lá é extremamente baixa – o país basicamente aparece apenas como fornecedor de matéria prima.

Entre os antecedentes históricos para esse crescimento econômico estão a revolução comunista entre 1949 e os anos 1970, que gerou uma nivelação social – ainda que haja pobreza e desigualdade, toda a população tem condições mínimas de vida – e a atuação de Deng Xiaoping como secretário geral do Partido Comunista Chinês entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1990. Xiaoping foi um dos responsáveis pela transformação da China contemporânea ao estabelecer uma “economia socialista de mercado” que gerou um crescimento exponencial do PIB do país, por meio do incentivo ao intercâmbio econômico.

O atual presidente Xí Jìnpíng estabeleceu a política externa The China Dream, que busca fazer da China a líder da economia globalizada até 2025 a partir de ações como investimentos em tecnologia de ponta e a terceirização da produção de artigos populares para países como Vietnã, Singapura ou Bangladesh. Uma das estratégias adotadas foi comprar empresas, como a Motorola, ou outras europeias focadas em pesquisa tecnológica, o que gera um conflito comercial pela supremacia econômica entre a China e os Estados Unidos.

Por trás da alta circulação de informações, tendências e produtos, no entanto, está uma sociedade altamente codificada e hierárquica, algo que se reflete na posição das pessoas em uma mesa de negócios, sua ordem de fala e tomada de decisão. O diplomata Augusto Castro enfatizou como os chineses tendem a pensar do geral para o específico e como entender esse tipo de raciocínio poderia facilitar negociações, sendo importante ter cautela com as mediações.

Ainda há uma grande desigualdade das riquezas no país: os fluxos de pessoas do campo para a cidade, por exemplo, leva a hordas de pessoas em condições de trabalho informal e, embora o país siga um crescimento econômico acelerado, as leis trabalhistas e penais não são reguladas.

Cultura e arte
O professor e colecionador Fausto Godoy enfatizou como as relações econômicas e culturais na China são adaptadas de acordo com as tradições locais: o budismo, o socialismo, o capitalismo ou a música pop são incorporados à cultura chinesa de acordo com valores tradicionais de uma civilização muito antiga e auto referencial.

Entre os anos 1980 e 1990, Godoy atuou como embaixador, quando concentrou sua carreira na Ásia devido à importância cultural e comercial da região. Nesse período, desenvolveu uma coleção de arte e artefatos orientais, que abrangem tecidos, louças, esculturas e impressos de diversos períodos da cultura asiática. O conjunto evidencia a experiência holística que predomina na região, em que elementos da vida cotidiana, como as refeições e a arquitetura, são tão importantes quanto rituais e  cerimônias, sem hierarquia entre “belas artes” e “artes aplicadas”. Esta coleção – que conta com mais de três mil itens – foi doada para o Museu Oscar Niemeyer de Curitiba e encontra-se em exposição permanente.

Na China, o setor cultural é extremamente regulado, com incentivos políticos à arte, fundação massiva de museus – são mais de 5 mil criados nos últimos 40 anos, emboras muitos com períodos ociosos e sem programação -, combate à falsificação e à lavagem de dinheiro.

Nos últimos anos foram implementadas casas de leilão como a China Guardian e a Pony Auctions, mas 60% das aquisições são de obras ocidentais, enquanto o interesse internacional pela arte chinesa é incipiente. Nesse cenário destacam-se poucos artistas contemporâneos do país, como Yayoi Kusama. Os nomes mais tradicionais Qi Baishi, Xu Beihong e Zhang Daqian ainda são recordes em leilões e vendas.

A produção artística da China ao longo da história se desenvolveu de acordo com as mudanças de dinastias, então, há uma longa tradição local que é refletida no cenário cultural – da arquitetura à culinária. Atualmente, o país vive um momento de repatriação: Obras e artefatos que foram exportados para outros países ao longo da história estão sendo novamente comprados por gerações mais novas.

Os chamados millennials são caracterizados pelo comportamento consumista, influenciável por tendências que circulam na internet e em geral, na China, são filhos únicos, devido à política de filho único que esteve em vigor no país entre 1970 e 2015 e que gerou um déficit entre velhos e jovens na população.

Ambos os palestrantes indicaram que existe um desconhecimento tanto por parte dos brasileiros, quanto dos chineses, da cultura um do outro, embora os países estabeleçam trânsitos econômicos intensos. Para aproximar esses dois universos, uma alternativa, proposta por Castro, seria a criação de plataformas coletivas regulares que educassem os públicos sobre a cultura e a produção artística locais, para além de estereótipos e clichês.

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.