Quanto pior o mundo, melhor o carnaval

Mostra de Cinema de São Paulo mantém programação ampla e contundente, mesmo com cortes e perda de patrocínio

Luana Fortes

Publicado em: 08/10/2019

Categoria: Da Hora, Destaque, Notícias Quentes, Uncategorized

Coletiva de Imprensa da 43ª Mostra de São Paulo, com Mario Mazzilli, Laís Bodanzky, Alexandre Youssef, Renata de Almeida, Danilo Santos de Miranda e Claudinei Ferreira (Foto: Mario Miranda Filho, Agência Foto)

Entre 17 e 30 de outubro acontece a 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em mais de 27 locais, entre cinemas, espaços culturais, museus, parques e CEUS. Mesmo com uma redução de cerca de 20% do orçamento e com a retirada do patrocínio da Petrobrás, que há 16 anos contribuía para a Mostra, o número de títulos da edição permanece quase intacto com relação ao ano anterior, passando de 336 para 304.

O cinema é um dos campos da atividade cultural que está na mira dos ataques contra a arte no Brasil, vide projetos, falas e cortes já anunciados por parte do Governo Federal. Em agosto deste ano, Jair Bolsonaro afirmou que a direção da Agência Nacional do Cinema (Ancine) seria transferida do Rio de Janeiro para Brasília, para que o governo tivesse mais influência sobre o órgão. Em setembro, foi apresentado ao Poder Legislativo um projeto de lei que prevê um corte de 43% do orçamento do Fundo Setorial do Audiovisual em 2020. Na quarta-feira passada, 2/10, a Ancine chegou a uma situação limite ao perder o terceiro diretor colegiado, de 4 cadeiras, permanecendo apenas Alex Braga. Um cenário como esse não poderia deixar de afetar a produção, o discurso e a cobertura jornalística da 43ª Mostra.

Em coletiva de imprensa sobre o evento, realizada em 5/10 no Espaço Itaú de Cinema Augusta, o caráter de resistência da cultura ganhou destaque na voz de Renata de Almeida, diretora da Mostra, Alê Youssef, secretário de Cultura de São Paulo, Claudinei Ferreira, gerente do núcleo de audiovisual e literatura do Itaú Cultural, Danilo Miranda, presidente do Sesc-SP, e de Laís Bodanzk, presidente da Spcine.

“Me pareceu muito importante, como já era tradição, o apoio da prefeitura de São Paulo, o apoio da Secretaria de São Paulo, da Spcine, no sentido de marcar uma ação de resistência proativa a esses ataques, a esses cortes que a cultura sofre”, disse Youssef. “Ter visibilidade na cidade é uma maneira contundente de a gente apostar na civilização contra a barbárie, no pensamento contra a estupidez. Uma forma contundente de a gente afirmar a importância da cultura, da nossa identidade, da nossa expressão, para defender o audiovisual, levantar uma bandeira pela liberdade de expressão, contra a censura”, continuou.

Filmes premiados
Pela primeira vez, o Theatro Municipal integra o circuito da Mostra e, em 18, 19 e 20 de outubro, faz exibições gratuitas de filmes de DNA brasileiro que foram apresentados em festivais estrangeiros. O recorte dessa programação salienta a função diplomática do cinema e aponta para o destaque que o Brasil tem tido no contexto internacional.

Na programação do festival estão muitos títulos premiados mundo afora, como o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes Parasita, de Bon Joon-ho, e o ganhador da Concha de Ouro no Festival de San Sebastián Pacificado, de Paxton Winters. Também integra a seleção uma seleção de 12 filmes indicados por seus respectivos países para concorrer a uma vaga ao Oscar de melhor filme estrangeiro, como o brasileiro A Vida Invisível, de Karim Aïnouz.

  • Fotograma de Parasita (Foto: Divulgação)
  • Fotograma de Parasita (Foto: Divulgação)
  • Fotograma de A Vida Invisível, de Karim Aïnouz (Foto: Divulgação)
  • Fotograma de A Vida Invisível, de Karim Aïnouz (Foto: Divulgação)
  • Fotograma de Pacificado, de Paxton Winters (Foto: Divulgação)
  • Fotograma de Pacificado, de Paxton Winters (Foto: Divulgação)

Sesc também resiste
Este ano, o Sesc-SP continuou como um dos grandes parceiros da Mostra e é um dos responsáveis por levar exibições para 12 cidades do interior do Estado de São Paulo.  Na coletiva de imprensa, Danilo Miranda apresentou fala de caráter otimista diante do cenário de cortes que ameaça também o Sistema S, conjunto de instituições do qual o Sesc faz parte. A advertência feita por Paulo Guedes em dezembro de 2018, antes mesmo que ele assumisse sua cadeira como ministro da economia, de que “tem que meter a faca no Sistema S”, está próxima de atingir o Sesc. Em agosto foi firmado um acordo entre o governo e o Sistema S que pretende reduzir em 20% as contribuições de empresas para as instituições do conjunto.

“A cultura vai resistir, vai continuar forte e o audiovisual é potente”, disse Miranda, que também chamou a atenção para os perigos da censura que aparecem em impedimentos a temáticas específicas. “O problema não é só financeiro. O problema é de conceito. Nós do Sesc estamos enfrentando isso também. A instituição continua realizando seus projetos, tem sua perspectiva, sua forma de proteção e blindagem para evitar que isso possa acontecer, mas não deixa de ser uma ameaça permanente”.

O presidente do Sesc terminou sua fala assumindo postura tenaz. “A forma de resistir tem que ser através da própria cultura, através da manifestação artística e sem dúvida nenhuma nós não teremos a menor condição de crescer, desenvolver, ampliar, melhorar as condições desse país sem a educação e essa cultura. E isso que nós estamos fazendo mais uma vez aqui”.

  • Fotograma de Wasp Network, de Olivier Assayas (Foto: Divulgação)
  • Fotograma de Wasp Network, de Olivier Assayas (Foto: Divulgação)
  • Fotograma de Wasp Network, de Olivier Assayas (Foto: Divulgação)

A produção nacional
A produção brasileira é um eixo da 43ª edição da Mostra, a começar pelo seu cartaz e vinheta, desenvolvido por Nina Pandolfo, nascida em Tupã, interior de São Paulo. Desde a 35ª Mostra não era escolhido um artista brasileiro para desenvolver o pôster do evento. Esse enfoque fica ainda evidente na escolha dos longas que abrem e encerram o festival. O filme de abertura é Wasp Network, que, apesar de ter como diretor o francês Olivier Assayas, é inspirado na obra Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, e tem produção de Rodrigo Teixeira. O de encerramento é Dois Papas, de Fernando Meirelles, que marca o fim da Mostra em sessão no Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer, em 30/10.

“Eu acho que este foi um ano extraordinário para o cinema brasileiro e a Mostra reflete isso. Ela tem um lado jornalístico também. A gente reflete o estado do mundo”, disse Renata de Almeida. “Sendo um pouco Poliana aqui, ainda bem que o cinema brasileiro está forte, quando estão pondo em dúvida a nossa importância”, concluiu. Em meio a risadas, Alê Youssef, que também é um dos idealizadores do bloco de carnaval de rua Acadêmicos do Baixo Augusta, complementou a fala de Almeida: “Nós do movimento carnavalesco sempre falamos: quanto pior o mundo, melhor o carnaval”. 

Confira a seleção de filmes completa da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo aqui.

Serviço
43ª Mostra Internacional de Cinema
De 17/10 a 30/10
43.mostra.org

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