Quatro peles

Instalação audiovisual de autorretratos problematiza questão da autoria e coloca em pauta as personas de Oskar Metsavaht

Paula Alzugaray

Publicado em: 01/07/2017

Categoria: Da Hora, Destaque, Notícias Quentes

Oskar Metsavaht diante de seu trabalho (Fotos: Paula Alzugaray)

“Entre essas fotos e eu, existe um personagem”, diz Oskar Metsavaht diante dos autorretratos que compõem sua exposição individual no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. São autorretratos, garante, mesmo que quem apareça na imagem não seja ele, mas outro, um ator. Selton Mello interpreta Cris, protagonista do longa-metragem Soundtrack, que estreia nos cinemas em 6 de julho. Cris é o personagem que existe entre Selton Mello e Metsavaht.

No filme assinado pelo coletivo 300ml, Cris é um fotógrafo brasileiro que consegue permissão para viajar em residência a uma base científica em um lugar inóspito. Os cientistas que encontra na base ficam intrigados com a presença do artista. “Cria-se ali um embate entre arte e ciência”, continua Metsavaht. O trabalho que o artista irá desenvolver nesse lugar remoto é uma série de autorretratos, a partir da audição de uma trilha sonora que o espectador não pode ouvir.

Trabalho de Oskar Metsavaht

Metsavaht é o autor das fotografias que integram Soundtack – o filme e a exposição. “Essa exposição é minha, é do personagem Cris ou do ator que está na foto, o Selton?”, desafia. Todas as respostas talvez sejam válidas. Mas o que de fato conta aqui é um deslocamento de identidades, um jogo de simulacros que afinal remete à diluição da autoria.

Para interpretar o autor dos autorretratos – isto é, os olhos do fotógrafo Cris –, Metsavaht foi muito além da selfie. Estudou a trajetória do gênero nas obras de Rembrandt, Francis Bacon, Van Gogh, Andy Warhol e Frida Kahlo. Voltou até sua adolescência, quando fazia os filmes e as fotos exibidos nas aulas da mãe, professora na Faculdade de Filosofia e Historia da Arte de Caxias do Sul (RS). “O autorretrato está na origem da história da arte. Você tenta se auto representar, mas aquilo não é você, aquilo é uma pintura, é uma idealização de você”, diz. Entre uma selfie – ou um autorretrato – e seu autor, existe sempre um personagem. Com duas décadas de trabalho com construção de imagem e estilo, o fundador e diretor criativo da Osklen faz essa afirmação com propriedade.  

O jogo de espelhos e sobreposições proposto na individual no MIS não esconde o caráter autobiográfico das fotografias e videoinstalações que Metsavaht vem realizando e coloca em pauta suas várias personas. “Estou em um momento de interface entre o estilista e o artista, mas já vivi interfaces de médico para designer; e de designer para estilista”. Seu primeiro projeto no campo da arte, realizado em residência no Inhotim e exposto na mostra Made By… Feito Por Brasileiros, em 2014, intitula-se justamente Interfaces 1.

Trabalho de Oskar Metsavaht

 

O artista Oskar Metsavaht tem no currículo seis anos de estudo de medicina, três anos de residência e clínica na área de ortopedia na UFRJ, uma década como designer de roupas técnicas esportivas e mais de 15 anos de moda e estilo. “A primeira interface que experimentei na vida foi biológica, a pele. A segunda foi uma interface física, quando comecei a fazer uma roupa esportiva técnica. Ali eu criava uma camada física sobre o corpo humano, que protege do vento, do frio, do sol. Uma segunda pele. Moda é uma camada imagética, uma camada cultural sobre o corpo. Você aplica uma estética, criando uma relação do corpo com a sociedade e com os outros. Agora estou entrando em uma camada imaginária”, resume ele, com clareza.

Se auto-definindo como um especialista em corpo e comportamento humano, o artista diz que seu interesse “é o homem e o que lhe cerca”. O embate entre arte e ciência, vivido pela personagem do longa-metragem Soundtrack, portanto, é seu também.

Serviço
Soundtrack, de Oskar Metsavaht
Museu da Imagem e do Som São Paulo
Avenida Europa, 158
Até 16/7
mis-sp.org.br

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