Que os astros nos salvem

Vetor estético do novo vídeo de Gaby Amarantos é referendado pelo afrofuturismo, que chega de maneira enfática ao pop nacional

Nina Gazire

Publicado em: ANO 10, Nº 49, Jan/Fev/Mar 2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Still de Vênus em Escorpião (2020), de Gaby Amarantos (Foto: Reprodução)

É comum, em inúmeras mitologias, a existência de deidades triádicas que se completam em uma tarefa contínua: a criação, a manutenção e a renovação do mundo. Em Vênus em Escorpião, novo trabalho de Gaby Amarantos, tal concepção naturalizada do ciclo da vida é encarnada pelo encontro entre três artistas de diferentes gerações: Ney Matogrosso, a cantora mineira Urias e a própria Amarantos, os quais, metamorfoseados em seres da floresta, representam essa função no videoclipe lançado em 27/11/20. A música é resultado também da parceria com os conterrâneos paraenses de Gaby Amarantos, os músicos Jaloo e Lucas Estrela, que transformam a batida do tecnobrega e seus riffs mesclados de guitarras alegres em um ritmo acelerado e raivoso. E com razão.

Saída do tecnobrega paraense e da mistura encantada da Floresta Amazônica, Gaby Amarantos implora aquilo que os astrólogos dizem significar a Vênus transitando pelo signo de Escorpião: transformação e justiça em um ano em que incêndios no Pantanal atingiram o inédito índice de 210% e as queimadas na Amazônia marcaram o maior registro de focos na história, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável por monitorar tais índices e que no governo Bolsonaro vem sofrendo sucateamento. Não à toa, quando o hit foi lançado, Vênus, o planeta do amor e da riqueza, transitava pelo signo de Escorpião. Os gritos de mudança para o Brasil vêm de todos lados, principalmente do Norte e do coração da Floresta Amazônica.

A amplificação do grito de Gaby Amarantos ficou a cargo do diretor João Monteiro, da dupla Os Primos, responsável pela estética LGBTQIA+ de toda uma geração de músicos surgidos a partir dos anos 2010, como Pabllo Vitar, Glória Groove e a própria Urias, que teve o trabalho Diaba, seu primeiro single, dirigido por Monteiro. É comum ver nos vídeos desse diretor uma estética drag, queer e barroca que dialoga com a tradição do brega brasileiro, mas em Vênus em Escorpião a roda gira, assim como o tom matreiro de Amarantos gira para uma Amazônia futurista e distópica (ou atual?). O vetor estético do videoclipe e de toda imagética do trabalho é referendado por uma espécie, se assim se pode dizer, de afrofuturismo, que finalmente chega ao pop nacional de maneira enfática. Tal fenômeno estético vem se infiltrando nas mostras de cinema do país há um bom tempo. É crescente o trabalho de cineastas que usufruem desse movimento, como, por exemplo, o filme Kbela (2015), da carioca Yasmin Thayná, no qual a diretora faz um mergulho ancestral e de empoderamento das mulheres negras, e também o surgimento de curadorias totalmente dedicadas ao tema, como as da pesquisadora Kênia Freitas, que tem pinçado na produção audiovisual brasileira trabalhos alinhados que podem ser chamados de afrofuturistas.

Esse renascimento do movimento que, segundo Freitas, é ainda desconhecido do público brasileiro, foi fortificado pela onda de protestos antirracismo que tomou conta do mundo nos dois últimos anos e, obviamente, vem reverberando na produção artística do país. Kênia Freitas, pesquisadora do tema, quando realizou uma curadoria de produções audiovisuais afrofuturistas de diferentes lugares do mundo (incluindo o Brasil) para a Mostra de Cinema de São Paulo, em 2015, afirmou em entrevista ao site Cinefestivais que o fenômeno nascido nos Estados Unidos é “um movimento estético, político e crítico plural e multifacetado, tendo como ponto comum uma narrativa alternativa e fantástica para as experiências das populações negras no passado, no presente e no futuro. Nesse processo, as obras misturam e são influenciadas por elementos da ficção científica, do hiper-realismo, da fantasia, das diversas mitologias de origem africana”.

É também inegável que o videoclipe Vênus em Escorpião bebe na fonte de artistas norte-americanas, como Janelle Monae e Erikah Badu, que também levaram para a música pop o afrofuturismo atualizado. Seguindo a cartilha do afrofuturismo de Gaby Amarantos, há a floresta e sua miscigenação: Ney Matogrosso, ora um Exu espacial, ora um Zé Pilintra; Urias, uma Uiara futurista e também uma entidade de umbanda; e, por fim, Amarantos interpreta uma Mãe Terra intergaláctica e também um Curupira vanguardista. Todos eles tentando salvar o mundo de um holocausto, em que a metáfora da vida é tudo aquilo que há de mais rico no Brasil: suas florestas, a água, a terra e sua gente encantada. Aqui, esse afrofuturismo à Brasil também deve algo à Tropicália e toda performática inovadora do grupo Secos & Molhados, que durante os anos 1970 arriscou-se à frente de vários artistas, que hoje bebem na fonte da androginia tribal da banda, e o vocal singular de Ney Matogrosso. Diferentemente da capa antológica do primeiro disco do grupo, em 1973, em que as cabeças eram servidas em uma mesa na sala de jantar, hoje Ney, Amarantos e Urias – outra tríade – têm suas cabeças servidas em embalagens industriais cheias de remédio, carne e glúten, de onde imploram amor para o mundo, sem o cinismo da sobrevivência que o período da ditadura pedia. Pois os tempos, infelizmente, pedem a urgência da Vênus em Escorpião como nunca antes na história.

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