Que projeto você faria antes de morrer?

Entre os obituários produzidos ao longo dos anos, há alguns personagens que mereceriam, cremos, fazer um pronunciamento post-mortem sobre qual obra realizariam, caso fossem ressuscitados. Não é psicografia, apenas um exercício ficcional

Guilherme Kujawski

Publicado em: 30/09/2015

Categoria: Fogo Cruzado, Reportagem

Chris Burden (FOTO: Josh White/JWpictures.com/Cortesia Chris Burden Studio e Gagosian Gallery)

Antonio Henrique Amaral

Artista

Já passei do tempo das críticas políticas. Aquela era a época da ditadura, e aquilo era arte política. Hoje tudo mudou. Confesso que certas linguagens atuais não me dizem nada. Essa coisa de arte eletrônica. Eu era um pintor, um desenhista. Eu não tinha muita preocupação com teoria estética. Acho que a arte deve estar ligada a emoções caóticas, algo que o formalismo não capta. Eu queria fazer algo honesto e inspirador. Algo que aflorasse diretamente da alma. Eu sei que isso pode parecer piegas. Mas é isso. Não fiquei chateado com a interrupção de minha trajetória. Sei que isso faz parte do ciclo da vida. O que eu quero dizer é que estava prestes a começar algo complemente novo, talvez na linha do expressionismo abstrato, não sei. Uma extrapolação de minhas pinturas de 2001 e 2002.

Sergio Rodrigues

Designer

No fim do ano passado, recebi um telefonema do pessoal que estava trazendo uma filial da TOG para o Brasil, perguntando se eu não queria desenvolver uma cadeira para a loja, algo na linha da cadeira Menna. Respondi apenas que ia pensar no assunto. Pela descrição, o espaço me pareceu bem interessante, o que me deu saudades dos primeiros anos da Oca. As coleções me pareceram também interessantes, com trabalhos de Philippe Starck, Nicola Rapetti e outros. Coisa fina. No momento de minha partida, eu estava quase aceitando o convite.

Sergio Rodrigues (Foto: Divulgação)

Sergio Rodrigues (Foto: Divulgação)

Chris Burden

Artista norte-americano

Uma reedição de Shoot, mas agora com um fuzil M16 (risos)! Qual projeto eu gostaria de ter terminado antes de morrer? São tantos! O que posso dizer é que tenho uma fascinação secreta por aqueles arquitetos que criam cidades imaginárias. Aquela São Francisco futurista do Weygers… Aquilo é maravilhoso! Queria fazer algo assim.

Tomie Ohtake

Artista plástica japonesa naturalizada brasileiraTanta coisa, que nem sei por onde começar!

Harun Farocki

Artista e cineasta alemãoQuando ainda estava vivo, minha preocupação não era produzir filmes, mas produzir conceitos com filmes. Claro, tem o meu lado documenta- rista que fica sempre me dizendo: “Não exagere! Não exagere!” Eu gosto de trabalhar com o acaso. Por ou- tro lado, sou muito formalista, tenho de sempre pensar em algo predeterminado. Sobre a sua pergunta, eu me lembro daquela conversa entre Marguerite Duras e Jean-Luc Godard sobre como terminar uma obra de arte. Terminá-la, para os dois, é deixá-la inacabada. Pode parecer paradoxal, mas isso é tão verdadeiro. Pouco antes de morrer, eu estava pensando em iniciar um trabalho sobre a manipulação de imagens digitais em contextos de guerra, mas sem fazer menção aos videogames, como em Serious Games (sobre esse trabalho, ver a matéria “Sol sem sombra”, publicada na edição nº 13 de seLecT). Mas o projeto estava muito no começo e seria negligente falar dele agora.

Ivens Machado

Artista visual

Não voltaria ao vídeo. A materialidade me atrai mais. Gosto muito de juntar pedaços de coisas, cacos de vidro, pedras. Isso me dá um enorme prazer. Pouco antes do dia da queda, sonhei com uma estrutura colossal feita apenas com pedregulhos. Parecia um templo. Lembra daquele carteiro francês que todo dia pegava uma pedrinha por acaso na rua e depois construiu um castelo com elas? Então, queria fazer algo assim, mas que não demorasse tanto.

Lou Reed

Cantor, guitarrista e compositor norte-americano

Depois daquele álbum gravado com a banda Metallica, eu não queria fazer mais nada, só ficar lendo poesia. Aquilo me exauriu completamente. Psicologicamente e fisicamente. Achei que tinha a energia dos tempos do Velvet. Mas estava completamente enganado. Sobre a sua pergunta, se voltasse ao planeta Terra, eu faria algo mais ligado à poesia. A Laurie (Anderson, companheira no final de sua vida) já tinha me falado de Robinson Jeffers, um poeta ecológico. These grand and fatal movements toward death… Cara, isso é lindo! Queria recitar todos os versos dele em uma poetry slam. Nada de música. Poesia é música pura.

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