Quem é rico o bastante para um Leonardo?

Campanha publicitária precedeu a venda da pintura Salvator Mundi, de Da Vinci, leiloada pelo valor recorde de US$ 450,3 milhões

Felipe Martinez
A pintura Salvator Mundi, atribuída a Leonardo Da Vinci, passou por Hong Kong, Londres e São Francisco antes de chegar ao leilão em Nova York (Foto: Reprodução)

Quando bateu o martelo na noite do último dia 15 de novembro, o presidente da Christie’s, Jussi Pylkkänen, deve ter ficado espantado. Nem ele poderia prever que em menos de 20 minutos a obra Salvator Mundi, atribuída a Leonardo Da Vinci, atingiria a marca de 450,3 milhões de dólares, incluindo impostos – quase 1,5 bi de reais. O maior valor jamais pago por uma obra de arte. Até então, o recorde em um leilão pertencia a obra Femmes d’Argel (versão O) de Pablo Picasso, vendida na mesma Christie’s em 2015 por 175 milhões de dólares. Em transações privadas, a obra Nafea Faa Ipoipo de Paul Gauguin, ocupava o primeiro posto, vendida por 210 milhões de dólares em 2014.

Pode parecer estranho que um leilão destinado a vender obras contemporâneas e de artistas do pós-guerra, com telas de Andy Wharol e Mark Rothko, tenha tido como sua principal atração uma pintura de um mestre do Renascimento. Mas quando se leva em consideração que boa parte da pintura foi feita em um restauro realizado em 2007, a classificação parece apropriada. Dias após a divulgação da transação, o antigo diretor do Metropolitan Museum em Nova York, Thomas P. Campbell, postou uma a foto da pintura antes do restauro em sua conta no Instagram, em que diz esperar que o novo dono da obra entenda de conservação.

A pintura pertenceu à coleção do Rei Carlos I, e depois de um longo período fora do mapa, reapareceu em uma coleção inglesa, quando foi atribuída a Bernardino Luini, um seguidor de Leonardo. Nos anos 50, foi vendida em Londres por meras 45 libras, para em 2005 ser comprada nos EUA por cerca de 10 mil dólares por um consórcio de marchands. Eles foram responsáveis por traçar sua proveniência e restaurá-la de modo a tornar a obra um legítimo Leonardo. Entretanto, ainda que a Christie’s tenha anunciado que há um extraordinário consenso a respeito da autoria da pintura, nem todos os especialistas parecem convencidos de que se trate da “Mona Lisa masculina”. Por exemplo, o historiador da arte francês e especialista na obra de Leonardo, Jacques Franck – que já analisou a própria Monalisa fora de sua moldura por cinco vezes – disse ao New York Times que, na melhor das hipóteses, há uma pequena participação de Leonardo na pintura.  Por outro lado, Martin Kemp, professor em Oxford, atesta que ainda que a pintura tenha sido encontrada em condições muito precárias e diferentes das quais foi vendida, há indícios claros da autoria de Da Vinci.

Mas até que ponto isso importa? Para os milhares que puderam ver a obra em seu tour mundial e deram declarações emocionadas aos principais jornais do mundo, a atribuição é uma questão menos relevante. Ou pelo menos foi o que espetáculo da publicidade fez parecer.

O processo de venda foi muito além do leilão. Começou com grande promoção da obra e contou com um tour mundial por Hong Kong, Londres, São Francisco e finalmente Nova York. Teve ainda requintes como um tocante vídeo divulgado nas redes sociais, em que pessoas de diferentes etnias contemplam a pintura com lágrimas nos olhos, incluindo nomes como Leonardo di Caprio e Patti Smith. Mais do que a venda da pintura, trata-se da espetacularização do negócio, descrito pela galeria como a venda do “último Da Vinci”. Alan Hobart, diretor da Pyms Gallery em Londres, aponta que esse tipo de expediente vai passar a dar tom das próximas grandes vendas, algo que deve ter influência direta no valor dos quadros. A cifra astronômica só confirma o fato.

Uma obra de Leonardo é um bem de oferta limitada: não é todo dia que uma pintura dessa importância aparece no mercado. A teoria econômica ensina que, em casos como esse, o aumento de preços é impulsionado pela demanda. Naturalmente, trata-se de uma demanda restrita aos estratos sociais mais elevados, onde a riqueza se acumula de modo fractal. Isso quer dizer que os padrões de concentração de renda se repetem mesmo no topo do topo, ou seja, os 0,001% mais ricos tendem a se distanciar cada vez mais dos 0,01%. Em outras palavras, quanto mais acima você estiver, mais rápido vai multiplicar sua riqueza. Essa tendência se acentuou nas décadas finais do século XX e começo do XXI, período de grande desregulamentação financeira e consolidação do capitalismo neoliberal, conforme mostram estudos dos economistas franceses Thomas Piketty e Emmanuel Saez.

Não por acaso, no mesmo período começou o boom nos valores pagos por obras de arte em leilões. Um exemplo paradigmático é o retrato do Doutor Gachet, de Vincent van Gogh, vendido em 1990 por 82,5 milhões de dólares, também na Christie’s. Até então, mesmo as transações mais elevadas raramente entravam na casa dos seis dígitos. No leilão do último dia 15, cinco potenciais compradores disputaram a pintura de Da Vinci, milhão a milhão. O valor inicial da obra, de 100 milhões de dólares, foi rapidamente quadruplicado e o vencedor, que estava ao telefone, teve sua identidade preservada pela galeria. Especula-se que se trate de algum colecionador americano, já que há somente um Leonardo nos EUA, na National Gallery. Entre os cotados estão o bilionário Ken Griffin, dono de um fundo de hedge, e que há pouco doou duas obras no valor de 500 milhões de dólares – uma de Pollock e outra de De Kooning – para o Art Institute em Chicago. A imprensa americana também considera que o dinheiro não teria feito falta para Jeff Bezos, fundador da Amazon e dono de uma fortuna de 95 bilhões. O bilionário chinês Liu Yiqian anunciou publicamente, em sua conta no WeChat, que foi derrotado na disputa.

Entretanto, para a maioria dos cerca de 2 mil bilionários que de acordo com a revista Forbes existem no mundo, a transação seria impensável. Supondo que uma pessoa não queira gastar mais do que 1% de seu patrimônio líquido em uma única obra de arte, é necessário que o comprador da obra de Leonardo esteja pelo menos no top 10 da lista da Forbes (o décimo lugar em 2017 é ocupado Michael Bloomberg com uma fortuna de 47,5 bi). A compra seria uma extravagância mesmo para Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil e detentor de uma fortuna de 29,2 bilhões de dólares (22° na lista da Forbes). A título de comparação, o apartamento de Joesley Batista em Nova York, em frente ao Museu de Arte Moderna, avaliado em 51 milhões de reais em taxas de câmbio atuais, vale menos do que 5% da pintura. Mesmo a fortuna de cerca 180 milhões de reais do prefeito de São Paulo, João Dória, deve parecer dinheiro de troco para o anônimo novo dono do “último Da Vinci”.

A pintura foi colocada à venda pelo bilionário russo Dimitry Rybolovlev, que até então a deixava armazenada em um container localizado no freeport de Genebra, onde obras de dar inveja a qualquer museu do mundo são mantidas para fugir de impostos. Rybolovlev, que também é dono do time clube de futebol Mônaco, adquiriu a pintura em 2013 por 127,5 milhões de dólares do marchand suíço Yves Bouvier, que a havia comprado pouco tempo antes da Sotheby’s, por 80 milhões. A transação não foi pacífica. O consórcio de marchands que descobriu a pintura em 2005 questionou na justiça o porquê de a obra não ter ido a leilão e ter sido vendida por um intermediário por 47,5 bilhões a mais. Já o bilionário russo também levou a questão à justiça quando soube que o marchand havia lucrado tanto com a transação. A relação entre Bouvier e Rybolovev teve direito a momentos cinematográficos em que o suíço foi preso em uma emboscada – e liberado após fiança – quando convidado para um jantar na casa do russo. A rixa entre os dois também envolve outras pinturas, entre as quais estão obras de Gustav Klimt e Picasso. Dado o preço obtido na semana passada, Rybolovev claramente fez um bom investimento.

Mas quais razões levariam alguém a gastar quase meio bilhão de dólares em uma única peça? A resposta imediata poderia ser: alguém muito interessado em arte, mas que não descarte que os preços possam estar ainda maiores no futuro. Parece plausível, já que obras de arte são apontadas com bons investimentos para aqueles que já não tem mais onde colocar seu dinheiro. Ou ainda melhor: um bilionário interessado em doar ou emprestar a pintura para algum museu. Há, entretanto, outra hipótese menos glamorosa que pode ajudar a explicar por que as obras têm atingido preços tão elevados: a lavagem de dinheiro. O mercado de arte é terreno fértil para transações obscuras e isso se deve a duas razões principais. Primeiro, porque mesmo galerias do porte da Sotheby’s ou da Christie’s não perguntam aos compradores a origem do dinheiro e aceitam pagamento em espécie. Depois, vem a própria dificuldade de se estabelecer critérios sólidos para a precificação das obras, afinal, quem é capaz de explicar por que uma pintura pode valer 50 milhões a mais ou a menos?

Para citar exemplos caseiros, vale lembrar o caso da pintura “Hannibal”, de Basquiat, da coleção de Edemar Cid Ferreira, que entrou nos EUA com valor declarado de 100 dólares e que depois foi encontrada em Nova York. A obra foi finalmente vendida em 2016 e rendeu cerca de 40 milhões de reais aos credores de Cid Ferreira. O episódio envolve o desembargador federal Fausto de Sanctis, responsável pela questão e autor de um livro sobre o tema. Além deste caso, na mesma semana da venda da pintura de Leonardo, veio a público que o colecionador Bernardo Paz, fundador do Instituto Inhotim, foi condenado pelo Ministério Público a nove anos e três meses de cadeia por lavagem de dinheiro. No esquema, Paz teria utilizado a empresa Horizontes Ltda, responsável por receber doações para seu instituto de arte contemporânea, para repassar dinheiro a suas empresas. Paz nega as acusações.

Um sistema que regule melhor o comércio de arte pode tornar as transações com obras de arte menos sombrias, e diminuir exemplos em que a arte esteja ligada à lavagem de dinheiro. De qualquer modo, a mera possibilidade de que colecionadores possam competir em uma espiral bilionária por uma única pintura mostra quanta riqueza é detida por aqueles no topo. A obra de Leonardo pode ser um novo marco para uma nova maneira de realizar transações com arte, em que os valores astronômicos estão associados a poderosas campanhas publicitárias, nas quais questões técnicas ficam em segundo plano. Por outro lado, os altos preços pagos por objetos de arte passam, cada vez mais, a influenciar a nossa própria percepção das obras. A despeito de ser ou não feita por Leonardo, a pintura Salvator Mundi já é a obra de quase meio bilhão de dólares. Resta esperar que ela não volte a ficar escondida em um container.

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