Quem é você na terra dos desinibidos?

Obras do artista e coreógrafo norte-americano William Forsythe despertam corpos de diferentes públicos

Luana Fortes
Crianças interagem com a videoinstalação Stellentstellen (2013), do artista e coreófrafo William Forsythe (Foto: Luana Fortes)

William Forsythe: Objetos Coreográficos, com curadoria de Veronica Stigger e da Forsythe Produções, parece a princípio uma exposição que não tem nada para incomodar. Ela foca nos intercâmbios entre arte e dança, não toca em assuntos quentes do momento e mostra ao público brasileiro pela primeira vez a obra do bailarino norte-americano, que foi diretor do Ballet Frankfurt e fundou sua própria companhia em 2005. Mas, à medida que o público é convocado a se movimentar, passam a se manifestar efeitos contraditórios que variam do constrangimento à catarse.

Grupos de crianças fazendo visitas mediadas unem-se em frente à videoinstalação Stellentstellen (2013), em que dois dançarinos entrelaçam seus corpos a partir de uma combinação coreográfica. Uma mediadora do Sesc Pompeia comenta de canto que há alguns dias um senhor se aborreceu com a dubiedade do trabalho. Seria um ato sexual? São dois homens gays? Outro mediador pergunta às crianças se elas querem seguir ao outro trabalho. Elas gritam que não.

  • Adolescentes dançam a partir de instruções na instalação Insustentáveis, São Paulo (2019) (Foto: Ricardo Ferreira)
  • Still do vídeo Palestras a Partir de Tecnologias de Improvisação (2011) (Foto: William Forsythe)

Na instalação inédita Insustentáveis, São Paulo (2019), são oferecidos fones de ouvido que dão orientações de deslocamento. Essa é a obra mais desafiadora da exposição, tanto em termos de extroversão quanto de ação demandada. É bastante improvável que você consiga fazer tudo o que o áudio sugere. Eventualmente, há aqueles indivíduos solitários interagindo quase em transe. Há também quem não entre no círculo delimitado para a ação, mas que acaba se arrependendo pela falta de coragem.

Para os mais acanhados, um banco posicionado no meio do deck do edifício projetado por Lina Bo Bardi pede: “Ande dezenove passos a partir do banco. Com seus olhos fechados. Ande para trás e sente-se”. Mais inofensiva, a instrução é suficiente para provocar uma nova relação com o espaço e com o corpo. E, para os acanhadíssimos, bastante impressionante é o vídeo Palestras a Partir de Tecnologias de Improvisação (2011). O trabalho elabora uma metodologia para a dança improvisada a partir do desenho. Nesse caso, basta sentar e assistir. Mas mesmo aqui pode surgir uma singela vontade de levantar e tentar botar em prática aquilo que ensina Forsythe. O corpo do público também é objeto coreográfico.

Serviço
William Forsythe: Objetos Coreográficos
Até 28/7
Sesc Pompeia
Rua Clélia, 93 – São Paulo
sescsp.org.br

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