Quem são os artistas negros de arte contemporânea?

O número de artistas negros atuantes cresceu e tem contribuído para mudanças significativas no cenário da arte em relação às décadas passadas

Daniela Bousso
Flor e Chagas, fotografía de Ayrson Heráclito (Foto: Divulgação)

Quem são os artistas negros de arte contemporânea? Esta questão surgiu há cerca de uma década, em conversa informal entre um grupo de curadores. Indagávamos então o porque de quase não haverem artistas negros no circuito das artes visuais. Poucos nomes eram ressaltados naquele momento: o de Emanuel Araújo, o de Rubem Valentim, o de Rosana Paulino e o de Genilson Soares.

Hoje a cena vem mudando embora não possamos, ainda, dizer que a presença de artistas negros seja constante no campo da arte contemporânea brasileira. Mas pelo menos agora começa a existir um olhar crítico e curatorial capaz de inserir os conteúdos de matriz afro descendente no circuito das artes.

Sem título (2012), de Arjan Martins (Foto: A Gentil Carioca)

Sem título (2012), de Arjan Martins (Foto: A Gentil Carioca)

A criação de estratégias no campo da crítica e no campo das artes, levou o viés diaspórico da arte contemporânea brasileira a enfrentar a nossa irreversível lacuna histórica. No campo da crítica, o recuo em relação a um racismo declarado e a tentativa de ultrapassagem da visão modernista eurocêntrica e predominantemente masculina deve-se a um esforço de curadores, artistas, ativistas e de intelectuais negros.

Começa há mais de duas décadas com os esforços de Emanuel Araújo na área de museus, estende-se para o Museu Afro Brasil em meados dos anos 2000 e complementa-se na formação de jovens negros, atuantes e críticos, os quais assinalam uma presença significativa para as reflexões que começam a se desenhar no campo da cultura entre nós.

Estes jovens tem realizado publicações, curadorias e por meio de seus textos e leituras de obras, colocam artistas em evidência e legitimam as suas produções. Entre eles podemos citar Alexandre Araújo Bispo, Fabiana Lopes, Renata Felinto e a ação contundente e corajosa de Nabor Jr., jovem jornalista negro, editor da revista “O menelick, segundo ato”, fonte de pesquisa profícua, aonde podemos encontrar riquíssima literatura, que amplia a bibliografia sobre o assunto para além de publicações de catálogos de mostras.

De um lado estabelecem a crítica à invisibilidade a que museus, galerias e instituições submeteram a produção afrodescendente e de outro lado pensam esta produção a partir de cada artista e também de uma perspectiva histórica, na qual assinalam os tempos coloniais e as vanguardas históricas do início do século 20, com as referências míticas e socias presentes em obras como O Abaporu, ou A negra, de Tarsila do Amaral.

Cristo de Rapaduras (2014), de Caetano Dias (Foto: Cortesia do artista)

Cristo de Rapaduras (2014), de Caetano Dias (Foto: Cortesia do artista)

Eles operam e interagem em todas as áreas do conhecimento, inclusas a dança, a música, as artes visuais e performances; e pleiteiam programas e políticas que reconheçam a contribuição dos negros na seara da criação artística brasileira. Isto nos leva a considerar o teor de reflexão necessária sobre a pertinência da produção artística de matriz afro no cenário nacional da arte, para que se possa neutralizar as abordagens de visão exotizada, estereotipada e etnocêntrica.

O trabalho em dupla dos curadores Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz, na exposição Histórias Mestiças, em 2014, no Instituto Tomie Ohtake, também deixou um densa publicação, na qual os curadores indagam sobre como escapar de narrativas eurocêntricas na história da arte e como as histórias “pluriversais” e “polifônicas” podem contribuir para complexificar a caixa de ferramentas mestiça em termos de conceitos e linguagens, para além de temas e imagens.

Na curadoria impressa que acabo de realizar para a #select31, com os artistas Daniel Lima, Icaro Lira, Jaime Lauriano e Moisés Patrício – o desconforto e a dor por parte dos artistas envolvidos transparece nas obras, seja por meio do resgate de episódios marcantes, seja por meio de protestos velados pela ironia ácida.

Eles são apenas quatro entre vários artistas que atualmente se ocupam das questões afrodescendentes, ao redor da fricção entre tradição e modernidade. No campo das artes visuais vale ainda citar artistas como Laércio Redondo, Ayrson Heráclito, Caetano Dias, Paulo Nazareth, Lourival Cuquinha, Barbara Wagner, Sônia Gomes, Bruno Baptistelli, Sidney Amaral, o imigrante angolano Kuta (radicado na Praia Grande, em São Paulo), Peter de Brito, o veterano Arjan (do Rio de Janeiro) e muitos outros que agora atuam em galerias e participam do sistema das artes, além de artistas que integram o grupo de imigrantes africanos e haitianos, refugiados em São Paulo, que aguardam por um olhar inclusivo.

Vista geral da Sala Debret, de Laercio Redondo (Foto: Sérgio Araújo)

Vista geral da Sala Debret, de Laercio Redondo (Foto: Sérgio Araújo)

O baiano Caetano Dias já tratava de questões diaspóricas em 2004, quando participou da segunda exposição Paralela à Bienal, com a obra Cristo de Rapadura. A escultura do Cristo negro foi ofertada ao público para ser literalmente devorada, num ato irônico por parte do artista. O cruzamento entre tradição sacra e modernidade transparecia em uma obra contemporânea, num momento em que as questões de mestiçagem ainda estavam “invisíveis” na cena das artes.

Em 2014, Laércio Redondo monta a sala Debret, na Casa França Brasil (Rio de Janeiro), e examina a obra de Debret, escavando memórias do período colonial no Brasil.

Imagem da performance Transmutação da Carne, Marcação a Ferro (2015), de Ayrson Heráclito (Foto: Premio Pipa)

Imagem da performance Transmutação da Carne, Marcação a Ferro (2015), de Ayrson Heráclito (Foto: Premio Pipa)

Ayrson Heráclito, que abre exposição em São Paulo em 20/8, por sua vez, em obra recente, apresentou a performance Transmutação da Carne, Marcação a Ferro (2015), que se refere aos atos discriminatórios da escravidão no Brasil e, atualmente, o artista Lourival Cuquinha apresenta uma instalação no MAM São Paulo, aonde faz referência aos fluxos migratórios, articulando uma série fotográfica com objetos pessoais como bolsas, bermudas, relógios e com objetos eletrônicos como rádios, celulares e head-phones.

Em outras áreas artísticas, encontraremos nomes como os de Michelle Matiuzzi (Bahía), na performance, Rui Moreira (São Paulo), na dança e o filósofo, compositor, músico e cantor Tiganá Santana (Bahía), cujo pensamento e pesquisas transitam entre a arte e a academia. Santana já lançou vários álbuns e se apresenta com bandas internacionais na Europa e no Brasil. Ele compõe em várias línguas: inglês, português e francês, dedicando-se sobretudo à tradução do Bantu e seus desdobramentos sobre a língua portuguesa. Ora fazendo parcerias e retomando canções de sambistas pioneiros, ora gerando novos sentidos por meio de suas dinâmicas, a pesquisa de Tiganá opera em território híbrido entre tradição e modernidade, no qual deixa vazar as memórias de uma ancestralidade, aonde , segundo Luciane Ramos Silva, “o artista redesenha pontes com o continente africano com a devida integridade, inscrevendo sobre as marcas ainda presentes da (pós) colônia”.

Quem são os artistas negros de arte contemporânea? A pergunta ainda ecoa. Como demonstrado aqui, o número de artistas, escritores, pensadores e curadores negros atuantes entre nós cresceu e tem contribuído para mudanças significativas no cenário da arte em relação às décadas passadas. As migrações vem ocorrendo de múltiplas formas e este cenário, recente entre nós, já era contundente e efetivo no exterior, nos anos 1990. Isto está expresso na produção e na inserção internacional de artistas como William Kentridge e Kara Walker, por exemplo. Mas enfim a cegueira parece dar sinais de arrefecimento entre nós. A coragem institucional de desconstrução das dinâmicas encetadas pelas hierarquias coloniais, com políticas culturais sérias, ainda está por se firmar. Tomara que se firme, pois o momento oferece uma rara oportunidade de darmos a volta em nós mesmos culturalmente e redesenharmos o nosso futuro.

Detalhe de Transição de Fase (2014-2016), obra que Lourival Cuquinha realizou com imigrantes no Brasil (Foto: Hugo Sá/MAM São Paulo)

Detalhe de Transição de Fase (2014-2016), obra que Lourival Cuquinha realizou com imigrantes no Brasil (Foto: Hugo Sá/MAM São Paulo)

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