Qui êtes-vous, Polly Maggoo?*

A emergência do curador como eixo de articulação epistemológica da arte explode o campo crítico e relativiza papéis autorais historicamente sedimentados

Bernardo José de Souza
Still do filme Qui êtes-vous, Polly Maggoo, dirigido por William Klein, em 1966, qu explora com sarcasmo as relações de poder no mundo da moda, as veleidades artísticas do fashion designer e o papel da crítica e da mídia na construção de mitos.

Pensar a crítica significa pensar a vida e a política, pensar a cultura como forma essencial da estrutura semântica a orientar todo e qualquer exercício intelectual. Pensar a arte e, por consequência, criticar a produção artística exige uma mirada mais ampla sobre o conjunto de relações sociais e econômicas a impulsionar as dinâmicas de trabalho num mundo onde o balanço de forças políticas e fluxos de informação determinam a tomada de posicionamentos éticos ou mesmo estéticos.

Neste exercício um tanto aventureiro, alinhavo uma série de pensamentos reveladores de um curador cuja trajetória se conformou em lapsos, tão espontânea e entrecortada quanto recheada de experiências que ora acenavam numa direção, ora noutra, resultando numa formação intelectual avessa aos dogmas defendidos por esta ou aquela academia. Mas, se a ausência de uma educação formal em arte me remove a prerrogativa de abordar o assunto sob a perspectiva de quem domina, exaustivamente, o cânone e a extensa produção intelectual que dele deriva, por outro lado me permite decantar informações e processá-las não como público incauto, mas, sobretudo, na condição de quem entende a arte como uma espécie de prisma, de veículo para a reflexão política; vejo a arte como resultado de um conjunto de aspirações e sintomas de sociedades cujas distintas dinâmicas culturais exigem atenção tão específica e fracionada quanto generalista, isto é, nos demandam a capacidade de articular questões que estão mais além da exclusiva produção artística, quer em termos formais, discursivos ou mesmo afetivos. A arte é pública, ao público se dirige e, por essa razão, ele deve estar no centro de qualquer posicionamento crítico, não para que sirva de medida para a criação –importante frisar –, mas para que esteja incorporado ao esquema maior de uma análise conjuntural.

Sem embargo, o crítico de arte não deve estar a serviço de um programa ideológico específico, sob pena de solapar a dimensão transformadora da criação artística, embora tenha a obrigação de contemplar a macroestrutura como baliza de suas análises formais ou políticas. Uma vez que o artista emancipado, livre, independente – uma utopia? – não estaria a serviço de causa única, o crítico tampouco deveria curvar-se à tentação de relativizar o espectro político de quaisquer manifestações culturais. Não há arte sem biografia, sem contexto social, em suma, sem crítica. E justamente por entender que, desde meados do século 20, a prática artística está umbilicalmente relacionada à produção crítica, vejo a arte como construção coletiva, como resultado do conjunto de agentes formuladores de espaços de criação e visibilidade conectados a esferas tão mais invisíveis quanto solertes das instâncias de valoração e veiculação da arte.

No afã de projetar um novo mundo, amparado na ideia de progresso e de futuro, a arte moderna encontrou na crítica não apenas uma detratora, mas, sobretudo, uma potente aliada no processo de rechaço a toda forma reconhecível de passado – a emergência de um dado movimento significava a desconstrução dos anteriores, num constante exercício de fazer tábula rasa daquilo que havia para logo instaurar uma nova revolução, a qual, via de regra, supunha a formulação de discursos totalizantes, compreensões definitivas e estratégias quase absolutas de ação.

Projeto Pergunta, do coletivo chilena Mil M2, para a Casa França Brasil, sob curadoria de Pablo León de la Barra (Foto: Pablo León de la Barra)

Diante da desmaterialização da obra de arte nos anos 1960 e do paralelo esfacelamento das utopias engendradas ao longo dos séculos 19 e 20 – processo iniciado em maio de 1968 e levado a cabo com a queda do Muro de Berlim –, o fazer artístico passa a se constituir mediante uma ampla rede de associações críticas e políticas que tão somente fazem sentido quando pensadas à luz de outras disciplinas ou práticas socioculturais. Nesse sentido, a emergência do curador como eixo de articulação epistemológica das variadas experiências artísticas – sejam políticas ou afetivas, institucionais ou econômicas – acaba por explodir o campo crítico e relativizar papéis autorais historicamente sedimentados.

Canais de expressão variados, vozes dissonantes e interesses mercadológicos velados forjaram, em tempos recentes, um caldeirão político-econômico-poético condimentado com frações discursivas que remetem ao passado e ao futuro em ritmos alternados, configurando um panorama contemporâneo que ora exige a revisão da História mediante a crítica política, ora nos demanda a projeção de cenários futuros, por mais precários que esses futuros distópicos se nos possam dar a ver. Eis que, na impossibilidade de articular uma ideia consequente de processo histórico – mesmo porque esse não é o seu papel –, a arte agencia simbolicamente um conjunto de questões políticas que vêm ganhando expressão através do movimento de atores cujo papel crítico e institucional confunde-se, mais e mais, na figura central do curador.

O curador de arte contemporânea incorpora, a um só tempo, a escrita e a análise estética, conjuntural e política realizada pelo crítico; as veleidades de historiador – haja vista sua capacidade de produzir história ao desenhar um determinado recorte expositivo num dado espaço institucional –; e o condão mercadológico de um marchand, ou mesmo de uma instituição cultural, sempre que exibe determinado trabalho sob a chancela deste museu ou daquela galeria. Como não bastasse se imiscuir em todas essas esferas da cadeia artística, envolve-se, em alguma medida, na própria criação da obra de arte mediante uma série de expedientes que são prerrogativas desse “altíssimo escalão” do mundo da arte, quais sejam: comissionar obras de porte, feições e problemáticas bastante específicas (em função das condições estruturais e programáticas de um determinado projeto), realizar mostras cujas premissas discursivas e forma final obedecem a um determinado plano por ele divisado, e acompanhar vida e obra de artistas cujas ideias e trajetórias são ampla e/ou intimamente debatidas.

Na esteira do processo de concentração da atividade crítica nas mãos do curador identifico ao menos dois notáveis possíveis padrões: a crítica esvaziar-se em resenha por mera reserva de mercado – como ocorre, com frequência – ou a crítica assumir o mais que complexo e orgânico papel de tratar da vida, dos afetos, da política e da criação como expressões maiores de um tempo no qual não há mais autores absolutos, mas redes de colaboração que se vão construindo, politicamente, diante de uma missão pública maior: a ideia de transformar nossa percepção do mundo e construir uma sociedade livre e democrática.

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