Rafael BQueer: É sobre decolonizar discursos e ocupar espaços de poder

O futurismo afro-indígena, a cena drag de montação e o tecnobrega povoam as pesquisas do artista paraense

Paula Alzugaray

N° Edição: 49

Publicado em: 27/04/2021

Categoria: A Revista, Destaque, Portfólio

Videoperformance Sereia (2019), da série Super Zentai, de Rafael Bqueer (Foto: Cortesia artista)

Quando Gaby Amarantos lançava seu primeiro disco-solo, Treme, levantando um terremoto na música pop nacional, Rafael BQueer cursava Artes Visuais da Universidade Federal do Pará (UFPA) e há quatro anos trabalhava como assistente de carnavalesco em Belém. Mas naquele ano de 2012, o jovem artista também assinou seu primeiro projeto-solo na escola de samba Quem São Eles, com um enredo sobre o bairro do Umarizal. Esses três vértices – o tecnobrega, o Carnaval e a produção de conhecimento na universidade – são pilares da poética combativa e empoderada de Rafael BQueer. Ao problematizar as narrativas hegemônicas, buscando superar processos coloniais, sua obra aporta para a arte contemporânea brasileira e paraense as visualidades afro-indígenas da região.

Ele conta que Amarantos já era uma pop star no Pará muito antes de fazer sucesso na cena nacional. “Desde o início dos anos 2000, lembro dela como uma importante vocalista de músicas de tecnobrega e cantora de aparelhagens. Sempre com figurinos com motivos espaciais e futuristas”, diz Rafael BQueer à seLecT. “A periferia de Belém tem essa estética, vem daí minha paixão por afroficção e afrofuturismo. Para mim, essa visualidade que remixa signos locais e globais está diretamente em diálogo com a arte contemporânea de países como Nigéria e Angola.”

Amazônia preta
Se a educação é um instrumento de transformação, as pedagogias voltadas para relações étnico-raciais têm um papel constitutivo para os movimentos sociais negros da cidade de Belém. Nesse sentido foram influência decisiva na formação de BQueer os textos da feminista e professora emérita da UFPA Zélia Amador de Deus sobre ancestralidade afro-indígena e relações afrodiaspóricas. “O ensino, além de voltado para a pluralidade de linguagens, me deu uma formação decolonial, me localizou para pensar teoricamente uma Amazônia preta e para pensar politicamente a minha condição quilombola”, diz ele.

Pintura Néon Sobre Paisagem (2020), de Rafael Bqueer (Foto: Cortesia artista)

O caminho de busca de uma identidade ancestral fez-se por meio da construção da própria imagem. Na imagem de um corpo que se afirmava no lusco-fusco néon das festas de aparelhagem, ou na construção de situações (afroficções) para performar a sua subjetividade. O corpo negro performático, abordado nas pesquisas de Zélia Amador de Deus como ferramenta de resistência e construção de discursos, é vestido por BQueer nas “montações drag” da cena noturna de Belém. É de onde surgiu Uhura BQueer, “a panterona afrofuturista e intergaláctica do Pará”.

Plugada nas pirotecnias de uma Amazônia made in China, síntese e mistura de Gaby Amarantos, Grace Jones e Vera Verão (a personagem televisiva de Jorge Lafond), Uhura BQueer premiou Rafael como a primeira Rainha Drag-Themônia da festa Noite Suja, em 2014, e mais tarde com o Prêmio Foco ArtRio 2019, uma das portas de entrada para jovens artistas no circuito de arte sudestino.

Afrobafo
Arte, política, teoria decolonial e festa se combinam de forma explosiva na obra de Rafael BQueer. Mas esse consistente corpo de pesquisa não acontece de forma isolada: está conectado a uma rede de muitxs outrxs artistxs, pensadorxs e performáticxs que se organizam em famílias e coletividades. Como as Themônias, grupo de estudos sobre a monstruosidade, que agrega cerca de 200 integrantes em Belém e Manaus, ou as Monstrxs, de Salvador (BA), apontadas por BQueer como “outra importante cena drag rica de ações políticas e de visualidades contra-hegemônicas”.

No debate “choque de monstrxs”, organizado por Uhura BQueer no Goethe-Institut Salvador, em outubro de 2020, celebrou-se o encontro entre essas duas importantes cenas de montação, arte e política LGBTQIA+ do Norte e Nordeste. Foi um papo de manas. “Eu gosto muito de investigar essa invasão dos colonizadores, que nas travessias do Atlântico criavam as imagens de monstras, as monstruosidades”, disse Uhura no evento. “Na floresta, a gente fica tentando imaginar que seres habitam ali. É um mistério. Então, as Monstrxs existem há séculos, as Themônias existem há séculos, lutam e resistem há séculos contra a violência do cristianismo, contra violências seculares do colonialismo europeu.” Premiado no início de dezembro com a Bolsa de Fotografia Zum/IMS 2020, Rafael BQueer realizará com o coletivo Themônias um filme curta-metragem e cinco performances.

Série Super Zentai, Sem Título (EAV Parque Lage, 2019), de Rafael Bqueer (Foto: Cortesia artista)

Ainda dentro do escopo da pesquisa sobre a ancestralidade e a contemporaneidade de corpxs dissidentes, e o atravessamento cultural que nelxs opera, o artista desenvolveu a série Super Zentai de objetos-performance, em citação à prática fetichista e aos super-heróis japoneses. Em obras como Sex Ranger – Super Zentai (2017), Sem Título (EAV Parque Lage, 2019) e Pintura Néon Sobre Paisagem (2020), ele faz do corpo uma zona de anonimato. Na anulação da identidade com o corpo coberto de lycra, afirma o sufocamento que advém da invisibilização das narrativas afro-indígenas.

Em Sereia (2019), videoperformance mostrada no salão Arte Pará 2019 e que hoje integra o acervo da Coleção Amazoniana, com curadoria do artista e professor Orlando Maneschy, BQueer ecoa um lamento pela destruição do meio ambiente. Em sua languidez e agonia, a sereia futurista amazônica nada a seco na direção do observador, abraçando-o e ameaçando-o com sua doçura e monstruosidade.

Demonização da cultura
Em 2016, Rafael BQueer aterrissou sua nave espacial no Rio de Janeiro, para trabalhar no G.R.E.S Acadêmicos do Salgueiro e ocupar os espaços de poder da arte contemporânea. Começava aí um período de intensa atividade nos mares do Sul, participando de diversas residências e exposições. Foi finalista do prêmio EDP nas Artes do Instituto Tomie Ohtake, em 2018; selecionado pela EAV Parque Lage para uma bolsa de residência na AnnexB, em Nova York, e indicado para a 7ª edição do Prêmio Marcantonio Vilaça.

Atualmente, vive e trabalha entre o Rio de Janeiro e São Paulo e ainda se autodefine como carnavalesco, além de drag queen, ativista LGBTQIA+ e artista. “Se você pensar que 90% dos carnavalescos do grupo especial do Rio hoje são brancos, acadêmicos, qual o lugar do corpo negro na escola de samba? Na construção da cidade?”, indaga em vídeo produzido pelo Prêmio Foco ArtRio.

A experiência no Rio de Janeiro vem reforçar sua crítica sobre a visão histórico-colonial do corpo negro e indígena, “muitas vezes visto como ausente de subjetividades e entregue a uma visão extremamente estereotipada e exotizada”. Na série de fotografias Jogo do Bicho (2020), atualmente na mostra Casa Carioca, no MAR . BQueer reconfigura as questões colocadas na série Super Zentai, sempre com uma bem-vinda dose de humor, ao expor corpos mascarados de bichos, sem identidade própria. “Pensar o imaginário do subúrbio com uma perspectiva crítica contra a exotização dos corpos negros é o que o trabalho propõe.”

Integra ainda o corpo de obras de temática carnavalesca Alice e o Chá Através do Espelho (2014), que reencena um momento épico do Carnaval carioca: o ator Jorge Lafond interpretando Alice, no abre-alas da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, em 1991, no desfile Alice no Brasil das Maravilhas. No deslocamento (desvio) da Marquês de Sapucaí, passarela máxima de exaltação e exotização do corpo negro, para os lixões e a violência da periferia de Belém – do luxo ao lixo –, o artista quando (mais) jovem já anunciava a que vinha.

Esta maneira de Rafael BQueer samplear a cultura de massa hegemônica, distorcendo-a e contorcendo-a de modo a afrontar a normatividade até ela sangrar, talvez seja o que a artista Flores Astrais se refere ao dizer que “hoje entendemos as Themônias como um movimento artístico e cultural de demonização da nossa cultura”. Demonizar como estratégia política de sobrevivência.

Fotografia da série Jogo do Bicho (2020), de Rafael Bqueer (Foto: Cortesia artista)

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