Sobre a verossimilhança: as realidades possíveis de João Castilho

João Castilho lança mão do humor e do sentido de um realismo alargado para compor na Zipper Galeria uma mostra de teor ilusionista

Ana Avelar
Fotoinstalação Dois Sois (2017), composta de 31 peças (Fotos: Cortesia do Artista)

Pegadas deixadas por espécies da fauna brasileira, torres totêmicas construídas como empilhamentos de casas de joão-de-barro, pequenos furacões cuja estabilidade é inusitada, imagens azuladas de animais que ousam o impensável, dispostas em formas ascensionais como ogivas. Esse ambiente que parece recriar a atmosfera de um museu de paleontologia constitui a mostra de João Castilho, Chão em Chamas, que abre dia 5 de outubro, na Zipper Galeria, em São Paulo.

Como se remetendo à célebre fantasia do escritor britânico George Orwell, os trabalhos, se olhados de perto, trazem um comentário do improvável, beirando aquilo que chamamos coloquialmente de uma situação “surreal”. Nesse sentido, o artista mineiro parece propor um jogo de contrários com o título da mostra: apropriado do livro homônimo do escritor mexicano Juan Rulfo. Geralmente associado ao realismo fantástico, Chão em Chamas, de Rulfo, é partidário de um realismo brutal. Em outras palavras, Castilho lança mão do humor e do próprio sentido de um realismo alargado para compor uma mostra de teor ilusionista. Passado e futuro misturam-se nesse mundo dominado pela ação animal.

Detalhe da fotoinstalação Revanche Animal (2017)

 

Dois elementos são fundamentais para que se compreenda a mostra de Castilho. O primeiro é, sem dúvida, a conversa com a literatura e a consequente presença de narrativas possíveis sugeridas pelo encontro dos objetos apresentados – um dado recorrente na produção do artista. Há uma espécie de cenário sensível que indica a possibilidade de um tempo condensado no presente, feito das pegadas e dos fósseis banhados por um sol que queima em vez de iluminar, das imagens cianotípicas, dos diminutos redemoinhos que carregam em si a possibilidade da revolução das coisas. Talvez vestígios de uma hecatombe. Como no realismo fantástico, a verossimilhança é o elemento que garante a ilusão da história, a organização inusitada dos fatos conforma o efeito de verdade. Castilho opera nesse universo de possibilidades do real a partir da história contada a seu modo. Propõe um pacto com o espectador, um pacto semelhante ao literário – quem ouve a história deve estar aberto para aceitar que aquilo que está ouvindo é uma possibilidade de leitura de mundo. Sem isso não há ficção.

Torre (2017), feita em bronze e concreto

Humanidade vencida
O segundo elemento: a escolha da fotografia como suporte privilegiado para jogar com o efeito do real. Por sua vez, tal escolha deriva de dois fatos centrais. Primeiro, Castilho foi fotógrafo, sendo reconhecido com prêmios e bolsas na área; segundo, a fotografia sugere que existe ali um grau de verdade nas imagens apresentadas, vistas como registros ou documentos. As imagens apropriadas pelo artista para compor Revanche Animal (2017) causam espanto justamente porque operam nesse limite entre o real, o verossímil, o que quero acreditar ter acontecido no mundo como o conheço e o que me parece impossível, resultado da imaginação.

Nesse sentido, a fotoinstalação com dois sóis evoca uma reconstrução dos fragmentos de um registro talvez deixado pelo passado numa cápsula do tempo. Há um clima de ficção científica à 2001 – Uma Odisseia no Espaço. As Torres (2017) poderiam estar no lugar dos estranhos monólitos que surgem depois da cena do céu envolto em luz vermelha (algo bastante próximo ao trabalho de Castilho), justamente no capítulo chamado “O alvorecer do homem”, logo no início do filme de Stanley Kubrick. Entretanto, em 2017, o artista mineiro inverte a proposta do cineasta – a humanidade foi vencida, os animais ganharam protagonismo.

Pequeno Furacão (2016-2017), esculturas em bronze

 

O artista também comenta o rastro deixado pela presença de seres vivos na Terra. Em Marca Infinita, as pegadas inscritas em bronze parecem compor ainda outro elemento da cápsula. Entretanto, um paralelo entre elas e o ponto de vista de um artista que provém da fotografia pode ser apontado: a marca impressa deixada pelo artista sobre um suporte foi desde sempre um procedimento comum. O gesto artístico é inscrito sobre uma superfície e, assim, garante-se uma presença na ausência – o artista esteve ali em algum momento da história. No caso de Castilho, os animais são os autores dessas “obras” e ele, o artista-cientista que as coleta, seleciona e organiza.

Aliás, tais ações estão em todos os trabalhos, uma vez que o artista mineiro discorre sobre arte e ciência nessa incorporação do especialista em fósseis e indícios das atividades animais. Vemos fotos de pegadas de dinossauros feitas em um sítio na Paraíba. Estas são, como descreve Castilho, “aprisionadas” em blocos de resina semelhantes àqueles que contêm insetos e que não estão apenas presentes em coleções científicas, mas também figuram como objetos decorativos no ambiente doméstico.

A crítica de arte e escritora Susan Sontag, conhecida sobretudo pelos ensaios sobre fotografia, escreve que “possuir o mundo na forma de imagens é, precisamente, reexperimentar o quão irreal e remota é a realidade”. Parece ser justamente nesse sentido a articulação de Chão em Chamas. Castilho impede o espectador de permanecer passível diante da leitura da realidade proposta. No fim das contas, por que não acreditar?

Grupo de esculturas que compõem Marca Infinita (2017)

 

Serviço
Chão em Chamas, João Castilho
Zipper Galeria
Rua Estados Unidos, 1494 – São Paulo
De 5/10 a 4/11
zippergaleria.com.br

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