Rede de dados

seLecT inicia parceria com a plataforma Artload, um banco de dados sobre o sistema de arte internacional. Sua fundadora, Vivian Gandelsman, fala conosco

Vivian Gandelsman, fundadora de Artload

Um arquivo em construção, com uma centena de depoimentos dos mais variados e ativos agentes do sistema artístico internacional. A iniciativa da pesquisadora e consultora de arte Vivian Gandelsman e da colecionadora Flávia Pedras Soares não tem similar no mercado. A plataforma se autodefine como colaborativa e abrangente e defende o livre acesso à informação. A partir do olhar afiado de duas insiders, abrange desde galeristas emergentes, como o italiano Franco Noero, até figurões como Glenn Lowry, diretor do MoMA-NY. Desde figuras carimbadas no Brasil, como Antonio Manuel, Cildo Meireles e Marina Abramovic, até nomes que pouco ressoam por aqui, como o artista ganês Ibrahim Mahama, entrevistado por Gandelsman durante a Documenta de Atenas. A entrevista inaugura a parceria entre a seLecT e a Artload.

As duas fundadoras da Artload trabalham de forma complementar. Vivian Gandelsman foca na pesquisa e Flávia Soares dedica-se à direção de arte do site. “O colecionismo cria uma curiosidade obsessiva por tudo que gira em torno da obra de arte em si. Quanto mais eu aprendo, mais minha coleção melhora. Ou seja, o Artload influencia a minha coleção, mas os caminhos que o site toma são independentes dos meus interesses específicos de colecionadora”, diz Flávia Pedras Soares. A seguir, Vivian Gandelsman fala à seLecT.

seLecT – Como define a Artload?

Vivian Gandelsman – Artload é o conjunto de registros de uma memória do tempo presente. Seu objetivo é promover o acesso a essa informação, oferecendo aos interessados a possibilidade de entrar em contato com experiências sobre os bastidores do mundo da arte a nível global. Esse conjunto de conversações documentadas permite um aprofundado conhecimento crítico e a atuação em um universo artístico local e internacional.

Que papéis você desempenha no sistema artístico?

Trabalhei durante oito anos em algumas galerias do mercado primário, no circuito Rio-SP. Durante esse período, desempenhei papéis na área de atendimento e tive contato com as diferentes funções que as galerias articulam e, claro, com seus profissionais. Além disso, observei e operei nas várias dimensões do sistema artístico, em âmbito local e internacional. Desde 2014, mapeio, pesquiso e entrevisto em vídeo os agentes que atuam no mercado de arte primário contemporâneo. O resultado dessa investigação é oferecido ao público na plataforma Artload.

Isso tem proporcionado convites para atuar como consultora junto aos colecionadores, galerias e feiras.

Como você “filtra” os personagens que serão entrevistados? O que te leva a escolher uma pessoa em detrimento de outra?

Artload tem como premissas oferecer um desenho acessível do sistema artístico e mostrar seu funcionamento. O trabalho é realizado sob a lógica da rede: é uma pesquisa cumulativa na qual cada entrevista, ao mesmo tempo que ajuda a desenhar o sistema, gera uma série de novos contatos para novos diálogos. O entrevistado passa a ser um colaborador que indica pontos de contato na rede. O filtro, portanto, é o dos agentes, a atuação efetiva desses agentes é que constrói o circuito.

 Que pergunta que não pode faltar a qualquer entrevistado?

Ainda que exista uma preocupação com a memória, com o registro histórico das atuações, a questão mais importante é captar a compreensão que o entrevistado tem de seu papel no meio artístico.

 Já sentiu necessidade de voltar a entrevistar alguém, iniciando um novo ciclo de conversas?

As entrevistas são um processo maior do que o resultado da gravação: levantamento de fontes, leituras e estudos precedem o contato inicial e ajudam a organizar o roteiro de minhas perguntas. Além disso, como parte do processo colaborativo, o entrevistado aponta e indica novos agentes, portanto, é um diálogo prolongado, de modo que se torna um relacionamento. Outras situações também se apresentam: a entrevista que fizemos para iniciar a parceria com a seLecT é com o Ibrahim Mahama. A primeira vez que o entrevistei foi em 2014, em Londres, um pouco depois da exposição dele na Saatchi Gallery. Naquele instante, o ambiente da gravação era muito escuro e barulhento, o que resultou numa qualidade ruim do material, nunca publicado. Esse material está guardado em nosso acervo, que abriga mais de 300 horas de gravações. Depois disso, fizemos nosso segundo diálogo, desta vez publicado, em 2015, na Bienal de Veneza. Em 2017, realizamos nossa terceira entrevista na Documenta de Atenas, que também estará em Artload, que agora ampliou a plataforma para incluir mais de uma entrevista de um mesmo convidado. Essa ação estende e intensifica a possibilidade de contato com a obra e atuação de determinados agentes de maneira que interessados possam ter uma visão abrangente de acontecimentos e formas de encarar o universo artístico.

 Há novos agentes surgindo no sistema artístico? Quais são eles?

O sistema cresceu e com ele a sua profissionalização. Em todas linguagens artísticas (literatura, teatro, cinema…) existem agentes e agora já temos alguns poucos atuando com artistas visuais. Essa cena, em particular, tem demandado profissionais especializados em marketing digital ou da área de relações públicas, por exemplo. O desenvolvimento profissional do circuito passa, no instante atual, por uma forma de ação plural, “polvo”, na qual o indivíduo exerce muitas funções e em um espaço no qual a subjetividade ainda não está conformada na burocratização.

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