Rede global

Ao abrir escritório na América do Sul, com funcionários localizados em quatro países, Philippe Bischof e María Angélica Vial Solar, diretores da Pro Helvetia, instauram diálogos multilaterais

Paula Alzugaray

Publicado em: 18/12/2020

Categoria: Destaque, Entrevista

Philippe Bischof (Foto: Anita Affentranger)

Após quatro anos de existência de COINCIDENCIA, programa de fomento aos intercâmbios culturais entre a Suíça e a América do Sul, a fundação Pro Helvetia está se prepara para estabelecer um escritório local, com funcionários no Brasil, Chile, Argentina e Colômbia, em 2021. A criação de bases fixas nesses territórios tem como intuito ampliar o envolvimento com as cenas locais, possibilitando novos fomentos. Em entrevista à seLecT, Philippe Bischof, diretor da Fundação Suíça para a Cultura Pro Helvetia, e María Angélica Vial Solar, head da Fundação Suíça para a Cultura Pro Helvetia South America, explicam como pretendem estimular e diversificar os diálogos. 

María Angélica Vial Solar Foto: Anita Affentranger)

É muito bom ver que quatro anos de relações, intercâmbios e colaborações culturais com a América Latina tenham resultado na consolidação de um escritório regional dentro da rede global da Pro Helvetia a partir de 2021. De que forma isso contribui para a valorização dos diálogos entre contextos locais?

Philippe Bischof: Para nós é crucial não apenas trabalhar com o pessoal local, mas utilizar nossos recursos e esforços para envolver instituições parceiras e artistas locais o máximo possível, apoiando colaborações e projetos de intercâmbio que beneficiem ambas as partes. Também é importante que possamos garantir continuidade e apoio de base democrática, que possamos proteger a liberdade inerente e os valores da liberdade de expressão. Não estamos interessados na exportação cultural, mas no intercâmbio cultural e na cooperação.

María Angélica Vial Solar:  Abrir um escritório na América do Sul significa a oportunidade de os artistas abordarem temas e questões importantes que são relevantes tanto para a sociedade suíça como para a sul-americana. No final, trata-se de criar espaços compartilhados, onde o diálogo e o intercâmbio cultural são possíveis.

Entendo que esses programas regionais foram criados para promover a disseminação da arte e cultura suíças em diversas regiões do mundo. Mas como as sete regiões da rede da Pro Helvetia se relacionam entre si?

PB: Sua pergunta atinge o cerne de um desenvolvimento que será central para nós nos próximos anos. Embora uma abordagem bilateral tenha sido dominante na criação de nossa rede (intercâmbio cultural entre a Suíça e outra região), a abordagem multilateral se tornará cada vez mais importante nos próximos anos. Isto significa que apoiaremos cada vez mais projetos que ligam os profissionais culturais da Suíça com várias regiões e, portanto, também com mais de um escritório. Observamos que o intercâmbio de conhecimento entre as diversas esferas de atividade está se tornando cada vez mais importante para os praticantes culturais, as instituições parceiras e nós mesmos. Hoje é uma obrigação no trabalho cultural internacional incluir o maior número possível de vozes e pontos de vista em projetos concretos, a fim de nos impedir de seguir uma ideia puramente eurocêntrica de cooperação.

O que demarca o sucesso do trabalho de base realizado na América Latina pelo programa COINCIDENCIA?

MAVS: Desde o começo do programa COINCIDENCIA, em 2017, foram realizados cerca de 280 projetos, como exposições, turnês, circuitos de leitura, residências e viagens de pesquisa. Isso possibilitou a cooperação entre artistas e instituições culturais na Suíça e em dez países sul-americanos. Mais importante para nós do que o número de projetos realizados é que possibilitamos verdadeiras parcerias e relacionamentos de longo prazo e contribuímos para um diálogo estimulante entre os artistas de todos os países envolvidos. Desenvolvemos novas parcerias, por exemplo, com o CERN em Genebra, o Observatório Europeu do Sul (ESO) e a ALMA (Atacama Large Millimeter Array), que são instalações astronômicas no Chile. No projeto Public Voices!, artistas de todo o continente colaboraram com mulheres artistas da Suíça nos sons das marchas feministas. Tivemos e teremos projetos artísticos de sucesso no Brasil, como o MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo ou a Bienal de São Paulo, por exemplo, mas também com festivais e parceiros na Suíça, como Zurich Movies, Theaterspektakel Zurich e o FAR Festival.

O que move a Pro Helvetia a criar um novo foco de interesse nas relações entre arte, ciência e tecnologia?

PB: Há duas razões para isso. Por um lado, estamos percebendo que cada vez mais artistas estão ativos nestas interfaces e estão desenvolvendo seu trabalho de forma transdisciplinar, combinando pesquisa científica e experimentos tecnológicos com sua forma de expressão artística. Na Suíça, com suas universidades técnicas e artísticas, existe também um excelente conjunto de jovens talentos e muito conhecimento para esta abordagem. Por outro lado, pensamos que é importante que os campos da ciência e da tecnologia não sejam deixados a si mesmos, pois têm um enorme impacto sobre nosso modo de vida e na sociedade em geral. Estamos convencidos de que a cooperação entre especialistas e profissionais das três áreas permitirá um exame crítico dessas disciplinas e criará modelos alternativos para moldar a sociedade.

Com o foco também em viagens de pesquisa, os projetos de residência artística ganham ênfase?

MAVS:  Com certeza é importante apoiar a criação, as bases iniciais de um projeto, tais como residências e viagens de pesquisa. Logo, quando um artista é capaz de explorar um tema e dialogar com um contexto específico sobre ele, para um projeto, são momentos de troca criativa, cultural e social, que permitem ampliar uma percepção factual sobre o tema a ser investigado. O processo artístico precisa de apoio nestas etapas, e é por isso que estamos atentos às necessidades dos artistas que desejam fazer uma residência ou uma viagem de pesquisa, sem deixar de lado outras instâncias. É uma busca constante de equilíbrio entre as necessidades dos artistas, o que existe no contexto e as oportunidades no que tange ao tempo. Devido à pandemia, a mobilidade tem sido muito afetada também, de modo que desenvolvemos versões digitais das residências, chamando-as de Home not Alone. Foi uma forma de continuar apoiando estes modelos, mas utilizando o meio virtual como intercâmbio, o que resultou em uma adaptação ao mesmo tempo interessante e desafiadora.

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