Redes, ocupações, revoluções

Rodrigo Savazoni

Publicado em: 01/03/2012

Categoria: cultura digital, Reportagem

Ocupações das praças por jovens do mundo todo mostram que a política do século 21 passa por novos formatos de organização

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Legenda: As siglas N30, S26 e A21 fazem referência às datas em que esses eventos aconteceram, conforme o jargão dos manifestantes. (Foto: Anders Granberg/Rex Features/GlowimAges)

Naomi Klein, uma das grandes cabeças da nossa geração, dizia há cerca de dez anos que, graças à net, as mobilizações do movimento antiglobalização ou altermundista de desdobravam “com pouca burocracia e hierarquia mínima”.

Nessa época, tínhamos no governo dos Estados Unidos um Bush filho proclamando guerras em nome da liberdade. Nós, jovens ativistas, por nosso lado, gritávamos bem alto essa mesma palavra – liberdade –, para que ela não sumisse, apropriada por aqueles que gostam de sangue. O movimento foi à rua, nos dias de ação global que tiveram como epicentro as manifestações de Seattle (N30), Praga (S26) e Gênova (A21), e no Fórum Social Mundial, cujas três primeiras e antológicas edições ocorreram em Porto Alegre, no Brasil. Como escreveu a jornalista e ativista Klein, em sua obra-prima No Logo, o livro que conta a história dessa balbúrdia global, esse movimento já estava moldado pela internet “à sua imagem”, com uma dinâmica de “troca de informações constante, frouxamente estruturada e, às vezes, compulsiva”.

Não é de hoje, portanto, que a internet é mais que um instrumento para a organização política. Poderia, inclusive, dizer que, criada pelo improvável arranjo descrito por Manuel Castells (big science + militares + contracultura), a rede surgiu como um poderoso instrumento político, capaz de articular e desarticular todas as dimensões da vida.

No caso do movimento altermundista, foi por meio do site colaborativo do Centro de Mídia Independente (CMI), lançado no fim da década de 1990, que a cena se forjou. Aquele www.indymedia.org era o ponto de encontro e de registro da história. E quem geria a infraestrutura, as máquinas, e detinha a propriedade das informações eram os ativistas, e não uma grande corporação criada para extrair de nós o bem mais valioso que hoje detemos: a informação.

No Festival CulturaDigital.Br, realizado no Rio de Janeiro em dezembro de 2011, eu, ao lado de Ivana Bentes, Sergio Amadeu da Silveira, Cláudio Prado e Pablo Capilé, do Circuito Fora do Eixo, chamamos uma arena – uma roda de conversa embaixo dos pilotis do Museu de Arte Moderna – com o mesmo mote deste artigo: redes, ocupações, revoluções. Tinha gente do OcupaRio que tomou a principal praça da capital fluminense, a Cinelândia, e se desfez depois que a realidade desigual das ruas brasileiras se impôs. Tinha um camarada do movimento dos moradores de rua, o pessoal do Democracia Real Já! (Espanha) e da organização das Marchas da Liberdade e OcupaSalvador (no Brasil).

Tinha gente que foi muito atuante na época do altermundismo, e também estiveram conosco os tropicalistas Gilberto Gil e Jorge Mautner, que ocupam ruas e mentes desde os anos 1960, entre várias outras pessoas. “Eu, sem dúvida, festejo e celebro o abraço afetuoso que as novas gerações fazem a essas novas possibilidades, o abraço maravilhoso que a gente dá no computador, no ciberespaço, no mundo digital. Mas fica claro que isso não passa de mais uma ferramenta, de mais um instrumento, de mais uma oportunidade para que a gente continue enfrentando as grandes dificuldades e os grandes problemas postos pelo rio da história”, disse Gil naquele dia, fazendo uma espécie de resumo do que foi o nosso encontro das redes de cultura digital.

Nossas redes nos deram a potência de tomar as ruas. O ano de 2011 mostrou isso. Foi uma época bem agitada da perspectiva da rearticulação do movimento libertário global. Começou em janeiro, em duas localidades: na Praça Tahir, no Cairo, onde jovens foram às ruas depois de se articularem por meio de sites de redes sociais e depuseram Hosni Mubarak; e na Tunísia, onde a rede cumpriu papel determinante na articulação das manifestações contra o ditador Zine Al-Abidine Ben Ali, que caiu. Era a Primavera Árabe, cujos ventos sopraram e refizeram a rota dos mouros em seu encontro com a Europa.

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Legenda: Fotos: Giselle Beiguelman/Studio seLecT

Em 15 de maio, a Espanha também se levantou com o movimento 15M (15 de Maio), que reuniu milhares de pessoas e produziu um enorme acampamento na Praça Porta do Sol, em Madri e em outras cidades. No Brasil, o ponto alto foram as Marchas da Liberdade, que mostraram a cara de uma nova geração de ativistas. A marcha de São Paulo teve início após a proibição e repressão à Marcha da Maconha, no início de junho. Vários movimentos de todo o Brasil se reuniram e chamaram uma nova marcha para a semana seguinte, que novamente foi proibida. Desta feita, no entanto, cerca de 5 mil pessoas marcharam pacificamente. Na Turquia, as manifestações contra as tentativas de censura na rede ganharam as ruas no mês de agosto e demonstraram que os jovens não pretendem deixar que essa infraestrutura potencialmente emancipadora seja desarticulada pelos governantes.

A explosão final ficou por conta do Occupy Wall Street, que começou em 17 de setembro, quando ativistas tomaram as ruas do centro financeiro global. Em várias cidades dos Estados Unidos e de outros países, movimentos semelhantes tiveram início. O Occupy Wall Street lembra que somos 99% das pessoas do planeta que querem outra vida, não subordinada aos interesses de um capitalismo genocida, e que o 1% que governa os mercados deveria nos ouvir. Em 15 de outubro foi feito um chamado de ação global.

Isso me faz pensar que a história é cíclica e que ainda estamos nos primórdios dela. Houve vários outros momentos em que as novas tecnologias desempenharam papel central em processos políticos, como no caso do Irã, em 2009, ou mesmo da mobilização espanhola após os atentados de 11 de março de 2004, quando a população, por meio de tecnologias móveis, convocou uma manifestação contra o primeiro-ministro que havia mentido sobre a razão da explosão no metrô. A culpa era da Guerra do Iraque, para a qual José María Aznar tinha enviado tropas e não uma ação de radicais do ETA.

A partir de 2011, no entanto, com a sequência virtuosa de protestos, manifestações, ocupações e revoluções orquestradas em rede, nos colocamos diante de um dado novo, que devemos celebrar: a aceleração dessa (des)organização que devolveu a esperança às ruas. Em sua ida ao Occupy Wall Street, Naomi Klein disse que duas características diferenciam o movimento atual daquele iniciado na virada do século. Em primeiro lugar, destaca ela, as manifestações não são esporádicas. São ocupações. Dez anos atrás, montavam-se protestos nos momentos em que os líderes da globalização se reuniam e, como num passe de mágica, as cúpulas e as manifestações se dissolviam. Agora as ruas estão cheias de pessoas que não pretendem ir embora, até conseguirem o que foram nelas buscar.

Além disso, chamou a atenção para o caráter pacífico das ocupações. Há dez anos, o movimento tolerava protestos violentos, os quais, em geral, eram articulados pelos Black Bloc, uma tática de protesto radical que resultava em destruir símbolos do capitalismo, como lojas do McDonald’s e outras grifes. Esses atos faziam com que, na imprensa mundial, toda a articulação fosse vista como violenta, o que não era o caso. Nos movimentos em rede atuais, impera a política da afetividade, o olhar ao outro e a ideia de que precisamos reinventar as práticas de sociabilidade por inteiro. E já aprendemos: o caminho da liberdade é a rua.

Acesse o resumo do encontro com Gilberto Gil no Festival CulturaDigital.Br em http://www.ustream.tv/recorded/18903392

Rodrigo Savazoni é realizador multimídia e ativista da internet livre. É integrante da Casa da Cultura Digital e um dos organizadores do Festival CulturaDigital.Br.

*Publicado originalmente na edição impressa #4. Foto do destaque: Michael Prados/FlickR

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